O Goldman Sachs assumiu uma posição abertamente contrária ao consenso de mercado sobre juros nos Estados Unidos. Em entrevista ao podcast The Markets, gravada na mesa de operações de ações do banco em 5 de agosto, Ashok Varadhan, co-head de Global Banking and Markets, afirmou que não espera altas de juros na segunda metade do ano, apesar de a curva já precificar ao menos um aperto adicional até dezembro.
“Sei que isso é um pouco contra o consenso, e não é consistente com o que se vê na precificação de mercado”, disse Varadhan, argumentando que boa parte dos fatores que sustentaram a inflação elevada já está no retrovisor — em particular as tarifas — e que um eventual acordo em torno do Estreito de Ormuz removeria o principal vetor remanescente de pressão. Sobre o efeito inflacionário do ciclo de investimento em inteligência artificial, ele fez uma distinção temporal: a construção da infraestrutura pressiona recursos e alimenta temores de inflação no curto prazo, mas, uma vez concluída, o efeito é desinflacionário.
A tese se traduz em uma aposta direcional. Varadhan projeta o petróleo bem abaixo de US$ 70 por barril, possivelmente ainda mais baixo, na parte final do ano — o que o torna, em suas palavras, “muito construtivo” com os yields da ponta curta nos EUA. Considerando as altas já embutidas na curva, ele avalia o nível como atrativo.
Sobre o mês de julho, marcado pela reescalada do conflito, pelo receio de aperto monetário e por uma desmontagem violenta do fator momentum em tecnologia, o executivo vê o terreno mais limpo à frente. Um dado que ele destaca resume a dinâmica: apesar de tudo o que ocorreu no mês, o S&P 500 terminou praticamente inalterado — estabilidade no nível do índice, variância extrema no nível das ações individuais. A alavancagem acumulada no trade de IA, segundo ele, foi em boa parte desmontada, o que abre espaço para um rali de qualidade superior daqui em diante.
A dispersão elevada entre volatilidade de ações individuais e volatilidade de índice, uma das marcas de 2026, deve persistir, ainda que os extremos provavelmente já tenham sido vistos. A razão é estrutural: o tema de IA afeta as companhias de forma radicalmente distinta conforme sua posição na cadeia — fornecedor, consumidor de IA ou hyperscaler —, e isso mantém a diferenciação no nível do papel.
Em crédito, Varadhan se declarou construtivo, mesmo diante do volume crescente de emissões de hyperscalers para financiar investimentos em IA. Ele reconhece que a oferta pesada exige prêmio de risco adicional e que isso já vem aparecendo nas concessões, mas atribui a resiliência dos spreads à solidez da economia nominal, que resistiu a choques exógenos sucessivos. Se esses choques se dissipam e a resiliência permanece, a expectativa de default realizada segue baixa.
Já sobre o iene, o diagnóstico foi menos complacente. Após a intervenção da semana anterior para estabilizar os mercados asiáticos, Varadhan afirmou não acreditar em intervenção como instrumento eficaz no longo prazo. A fraqueza da moeda, segundo ele, decorre de o Japão não ter normalizado a política monetária como fizeram Estados Unidos, Zona do Euro e Reino Unido no pós-pandemia. A estabilização só virá, na sua leitura, quando o Banco do Japão normalizar os juros de forma adequada.
Questionado sobre qual seria a recomendação central, ele repetiu a orientação que já havia dado no quarto trimestre de 2025: “stay invested” [permanecer investido]. Os próximos catalisadores no radar são o relatório de emprego e novas leituras de inflação — as duas peças do quebra-cabeça que, segundo Varadhan, ainda faltam.
Fonte: The Markets, podcast do Goldman Sachs. Entrevista de Ashok Varadhan, co-head de Global Banking and Markets, a Mike Washington, gravada em 5 de agosto de 2026.


