A economia espacial deixou de ser uma fronteira de exploração científica para se tornar um pilar da economia industrial — e, com isso, uma classe de ativos em formação. É o argumento central de The Second Space Age, estudo publicado em agosto de 2026 pelo Goldman Sachs Global Institute, assinado por George Lee e Dan Keyserling.
O gatilho é econômico, não tecnológico em sentido estrito. Em 1981, colocar um quilo de carga na órbita baixa da Terra (LEO, low Earth orbit) custava US$ 65,4 mil no Space Shuttle americano. Hoje, o Falcon Heavy da SpaceX opera a US$ 1.500 o quilo — uma redução de 25 vezes desde 1981, viabilizada pelos propulsores parcialmente reutilizáveis, que transformaram o custo fixo elevado de construir foguetes em um ativo reciclável entre lançamentos. Como o número de prestadores de serviço de lançamento é limitado, esse segmento funciona como o gargalo (chokepoint) upstream de toda a cadeia e define a estrutura de custo de todos os demais elos.
A queda de custos veio acompanhada de duas outras rupturas: a “SmallSat revolution” e a migração para a órbita baixa. Até meados dos anos 2000, o setor era dominado por satélites do tamanho de um ônibus escolar em órbita geoestacionária (GEO, a 35.786 km da linha do Equador), com custo de construção entre US$ 100 milhões e US$ 200 milhões e lançamento na casa dos US$ 50 milhões — economicamente inacessíveis a qualquer ator que não fosse um governo ou uma gigante de telecomunicações. Na LEO, a cerca de 550 km, a radiação menor permite usar eletrônica de grau comercial, os terminais de recepção em terra são mais simples e a latência cai o suficiente para sustentar chamadas de vídeo e jogos online.
O resultado comercial mais visível é a Starlink. Em quatro anos de operação, a constelação da SpaceX ultrapassou 10 milhões de clientes e receita superior a US$ 11 bilhões em 2025, com quase 10 mil satélites em órbita e milhares de autorizações adicionais já concedidas. A Amazon persegue o mesmo mercado com a Amazon Leo, reforçada pelo acordo anunciado para aquisição da Globalstar — operação que inclui direitos de espectro de radiofrequência para comunicação direct-to-cell (DTC), anunciada em 14 de abril de 2026 e com fechamento previsto para 2027, sujeito a aprovações regulatórias.
A dinâmica competitiva dos dois mercados difere. No banda larga, o terminal físico — entre US$ 200 e US$ 600, conforme produto e geografia — eleva o switching cost e favorece o first mover. No DTC, as empresas podem fazer parceria com operadoras celulares já estabelecidas e acessar bases de clientes sem vender hardware, o que tende a produzir concorrência mais acirrada. A tendência de fundo, segundo o estudo, é que a comunicação por satélite se torne um recurso embutido da economia digital, dando suporte a conectividade móvel direct-to-device, banda larga aeronáutica e marítima, resposta a emergências, veículos autônomos, eVTOL, telemedicina, cidades inteligentes e comunicação máquina-a-máquina. A LEO deixaria de ser substituta de fibra, 5G ou cabos submarinos para se tornar uma nova camada de conectividade — conectividade ambiente, disponível onde as redes terrestres são intermitentes ou antieconômicas.
Adiante, o próximo ciclo de desenvolvimento deve girar em torno do ISAM (in-space servicing, assembling, and manufacturing), que permitiria montar em órbita objetos maiores que a capacidade atual de carga útil e reabastecer satélites em voo, além da manufatura em microgravidade — biomanufatura, por exemplo. O documento destaca ainda o compute orbital como vetor particularmente dinâmico, diante do crescimento exponencial da demanda por tokens e das restrições dos data centers terrestres (disponibilidade de energia, filas de conexão à rede e demora no licenciamento). Painéis solares em órbita heliossíncrona ofereceriam energia quase ilimitada e menos obstáculos regulatórios, mas persistem desafios de engenharia: o vácuo dificulta a dissipação de calor das GPUs pelos radiadores, a capacidade de uplink e downlink limita banda e latência, a manutenção de chips em órbita é restrita e os processadores exigiriam radiation hardening.
Financiamento migra para o mercado de capitais
A mudança no modelo de financiamento é o eixo mais relevante para investidores. Do pico de 4,5% do orçamento federal americano, a NASA caiu para menos de 0,5% — e essa retração pavimentou a era comercial. A agência migrou de contratos cost-plus para preço fixo no início dos anos 2000, transferindo o risco de estouro de custos às empresas; a SpaceX venceu seu primeiro contrato público em 2004 e poucos anos depois estreou o Falcon 9, que cortou o custo de envio de carga à LEO em quase 90%.
Mais de US$ 55 bilhões foram investidos no ecossistema espacial em 2025, e o primeiro trimestre de 2026 registrou recorde de US$ 36 bilhões, segundo dados da Space Capital citados no relatório. A projeção de McKinsey aponta economia espacial global de US$ 1,8 trilhão até 2035. Desde o início de 2025, empresas aeroespaciais captaram US$ 89 bilhões em IPOs: a Firefly levantou cerca de US$ 999 milhões após a missão lunar Blue Ghost; a York Space Systems, cerca de US$ 629 milhões; a HawkEye 360, cerca de US$ 478 milhões para expandir sua plataforma de inteligência de sinais; e a SpaceX captou mais de US$ 86 bilhões, no maior IPO da história.
Há também um movimento de integração vertical nascido da dificuldade de startups em obter fornecimento de uma base industrial de defesa fragmentada e hiperespecializada. Ao controlar a cadeia, essas empresas aceleram ciclos de inovação “fail-fix” e capturam margens maiores — e passam a ser avaliadas como plataformas de infraestrutura integrada, não apenas como prestadoras de serviços espaciais.
Astropolítica e o gargalo regulatório
A centralidade econômica traz consigo peso estratégico. O orçamento de espaço no Departamento de Defesa dos EUA chega a US$ 57,7 bilhões no ano fiscal de 2026, com pedido de US$ 71 bilhões para 2027 — trajetória que representa CAGR de 26% entre os anos fiscais de 2020 (US$ 11,9 bilhões) e 2027 (US$ 59,7 bilhões). A Space Force já contrata para o escudo antimísseis Golden Dome, estimado pela Casa Branca em US$ 175 bilhões até 2028. A Agência Espacial Europeia planeja elevar investimentos em 31% em três anos, e a China saiu de US$ 340 milhões em 2015 para US$ 2,9 bilhões em 2024.
A conclusão da missão Artemis II levou humanos à Lua pela primeira vez em mais de meio século e abriu a agenda espacial detalhada em ordem executiva de dezembro de 2025, que prevê pouso tripulado (Artemis IV) até 2028 e os primeiros elementos de um posto lunar permanente até 2030. Agências e empresas americanas responderam por cerca de 82% dos objetos lançados em órbita no último ano, mas a China já cobre todo o stack de capacidades espaciais e alcançou marcos que os EUA não têm — pouso e exploração do lado oculto da Lua, retorno de amostras lunares e retorno de amostras do lado oculto. Nenhum dos dois países domina foguetes totalmente reutilizáveis.
Do lado institucional, os cinco tratados internacionais que sustentam o direito espacial foram negociados na Guerra Fria e não endereçam gestão de tráfego orbital — os desdobramentos de satélites devem chegar a 20 mil até 2030 — nem remoção de detritos. A alocação de slots orbitais pela União Internacional de Telecomunicações segue o critério de ordem de chegada, o que favorece incumbentes como a SpaceX. Os Artemis Accords, liderados pelos EUA em 2020, reúnem 61 signatários, mas Rússia e China ficaram de fora. Atividades como extração de recursos lunares e manufatura em órbita permanecem em zona cinzenta jurídica.
Para investidores e corporações, o recado do estudo é direto: acesso a capital se tornará vantagem competitiva por si só, e as empresas que controlarem os gargalos críticos da cadeia de valor orbital tendem a capturar valor desproporcional conforme o setor escala. Assim como praticamente toda empresa hoje se considera uma empresa de internet, o “space stack” caminha para ser tratado como infraestrutura essencial.
Fonte: George Lee e Dan Keyserling, The Second Space Age: How Markets, Technology, and Power Are Reshaping the Final Frontier, Goldman Sachs Global Institute, agosto de 2026. Contribuições de Jamie Catherwood, Eliza Sandell e Dejana Saric. Dados secundários citados no relatório: Space Capital (Space Investment Quarterly, Q1 2026), McKinsey & Company, CSIS Aerospace Security Project via Our World in Data, U.S. Space Force, U.S. Department of Defense (FY2027 Program Acquisition Cost by Weapon System) e Special Competitive Studies Project.

