Gestoras de fundos hedge que vinham adiando decisões enquanto as manchetes sobre as tarifas de importação sacudiam os mercados de um lado para o outro ainda estão relutantes em fazer grandes apostas, com uma grande exceção: vender ações americanas a descoberto.
A chamada convicção de mercado, um indicador da confiança dos fundos hedge em adotar uma estratégia de investimento específica, começou a se recuperar um pouco, depois de cair para perto do seu nível mais baixo em décadas, segundo dados fornecidos por Bob Elliott, ex-executivo de alto escalão da Bridgewater Associates. O posicionamento em todas as classes de ativos mais importantes – que incluem moedas, bônus e commodities – continua fraco, depois de ter caído no fim de março para o décimo percentil inferior em relação aos níveis desde 2000.
Elliott disse que em abril a única mudança significativa foi o aumento das apostas contra ações dos Estados Unidos, apesar da recuperação recente do mercado. O ex-executivo da Bridgewater, hoje tem uma empresa própria de consultoria, a Unlimited, que monitora quase em tempo real dados de 3 mil fundos hedge que administram cerca de US$ 5 trilhões.
“O que observamos hoje é que os gestores de fundos estão se concentrando mais em políticas do que na retórica – e o conjunto atual de políticas em vigor é inequivocamente negativo”, afirmou Elliott. “O provável enfraquecimento da economia deve ser uma história muito mais importante do que qualquer coisa que Scott Bessent ou Trump tenham a dizer minuto a minuto.”
A atitude conservadora de modo geral reflete um ambiente político de extrema incerteza, agravado ainda mais neste mês, depois que o presidente dos EUA, Donald Trump, aumentou as tensões comerciais ao adotar tarifas de importação generalizadas, só para adiar esses planos em meio a conversas sobre negociações. Isso levou os profissionais de Wall Street a cortar posições em todos os setores. Agora, enquanto os pequenos investidores em ações adotam a estratégia de comprar na baixa, o chamado dinheiro inteligente se prepara cada vez mais para novas quedas, pelo menos nos EUA. Na terça-feira, o S&P 500 subiu pela sexta sessão consecutiva, em sua mais longa sequência de ganhos desde novembro. “É um momento desafiador para os fundos de hedge navegarem neste ambiente”, disse Elliott. “Parte de como eles manejam a volatilidade das políticas é manter as reservas disponíveis, de uma perspectiva de risco, para que, quando houver uma direção clara, eles se reorientem rapidamente.”
A Unlimited se vale de tecnologias como aprendizagem de máquina para analisar as posições agregadas e os retornos dos estilos dos grandes fundos de hedge. A empresa usa esses insights para formar carteiras que buscam replicar os investimentos de fundos hedge, inclusive dois fundos geridos ativamente que são negociados em bolsa e tem como foco retornos macro globais e de multiestratégias.
Segundo Elliott, um tema claro começou a aparecer na pesquisa da Unlimited. Gestores de fundos do tipo “long/short”, que apostam nas duas direções, têm colocado o desempenho das ações americanas abaixo da média do mercado, enquanto aumentam as apostas na Europa e no Japão.
Isso representa uma mudança em relação ao período logo antes e depois da eleição do ano passado, quando os fundos mostravam uma notável tendência altista sobre as ações americanas e apostavam em um ambiente favorável ao crescimento. Mas assim que as prioridades políticas de Trump se tornaram claras, entre o início de fevereiro e março, os gestores de recursos reduziram rapidamente suas posições compradas e passaram a vender ações a descoberto.
Em abril, com a oscilação dos mercados, eles adotaram uma atitude ainda mais pessimista. De fato, os dados mostram que apenas algumas poucas vezes desde 2000 as posições abaixo da média do mercado foram mais fortes, inclusive no período da crise financeira.
Embora os fundos hedge continuem pessimistas ao extremo em relação a empresas de pequena e média capitalização, Elliott disse que muitos veem oportunidades em posições compradas nos setores financeiro e bancário, já que a melhoria das condições combinada com avaliações relativamente baixas atrai interesse para o setor.
O investimento em mercados emergentes também se destaca. Dados mostram que no primeiro trimestre deste ano esse foi o segmento de melhor desempenho, com ganho de 6,3% graças à disparada de ações chinesas, em comparação com um retorno de 1,7% para o setor de fundos hedge como um todo.
Para Elliott, os EUA enfrentam três sérios desafios: políticas que incluem as tarifas e provavelmente pesarão sobre o crescimento; perda de interesse de investidores estrangeiros em ativos americanos; e a elevada incerteza política. Ele afirmou que nenhum desses desafios se reflete de maneira completa nos preços de mercado atuais.
“A menos que haja uma mudança substancial na política do atual governo, é muito provável que essas tendências persistam.”
Fonte: Valor Econômico
