Por Janan Ganesh, Valor — Financial Times
23/07/2023 17h52 Atualizado há 16 horas
A julgar pelo trailer, o filme biográfico de Ridley Scott sobre Napoleão vai entreter, inspirar e confundir redondamente a questão central. Mas o mesmo ocorreu com os quadros de Jacques-Louis David sobre o mesmo tema. Napoleão não foi, ou não foi apenas, um conquistador. Ele foi, além de tudo, o maior burocrata da história.
O que sobrevive dele não é o império francês (que ele deixou menor do que encontrou), mas o Banque de France, a educação padronizada, governadores de província que mantêm as regiões francesas em linha com a ditadura parisiense e um Código Civil que ainda influencia jurisdições do mundo inteiro. Até hoje, o adjetivo “napoleônico” descreve algo centralizado e talvez invasivo (enxerido, intrometido), e não algo marcial.
Prepare-se, então, para um mundo napoleônico. A tendência governamental mais importante hoje é a ascensão do protecionismo. Nos EUA, Europa, China e Índia, o governo está migrando do livre-comércio para o desenvolvimento de setores econômicos internos.
Uma das justificativas é estratégica: não contar com regimes fracos ou hostis para obter produtos essenciais. Outra é progressista: dar uma folga à mão de obra manual qualificada, para variar. Ambas remontam aos argumentos de Donald Trump, em 2016, que lhe garantiram vitória nas eleições.
Temos, assim, um certo grau de ironia a considerar. O populismo, que se volta contra a elite, contra o “Estado profundo”, vai deixá-lo mais poderoso, e não menos. O tecnocrata, tão recentemente difamado, será o todo-poderoso na nossa era, ao distribuir subsídios, ao promover este setor econômico e tolher aquele outro.
Os líderes empresariais terão relações cada vez mais estreitas e mais coniventes com o governo, não como um subproduto corrompido do sistema, e sim como característica central dele. O populismo pretendia enfraquecer a classe governante. Mas o seu principal legado será algo próximo ao contrário disso.
Quando você preferiria ser um político ou um funcionário público: agora, quando você pode moldar todo um setor, ou nos tempos pré-populistas? Quando você preferiria ser um lobbysta no “seu pedaço”: durante a era do “laissez-faire”, quando governo e o setor de negócios eram, pelo menos nominalmente, distintos, ou na era protecionista, quando nenhum setor quer deixar de usufruir da generosidade do governo? (Se a fabricação de chips é estratégica, por que a agricultura não seria?)
As elites serão mais fortes e mais incestuosas em decorrência do populismo, um movimento dedicado à queda delas. Talvez devêssemos ter previsto o advento do paradoxo. Os populistas têm um estilo rebelde, mas uma agenda paternalista. Detestam a chamada bolha, mas querem que ela molde boa parte do setor privado.
Não gostam das elites, mas mais porque elas abdicam do poder — sobre os mercados, sobre as fronteiras nacionais — do que por concentrá-lo em suas mãos. Têm uma queda pela democracia direta, mas também por Cingapura. Este é um movimento que sempre esteve indeciso quanto à questão da autoridade impessoal.
A contradição se revela em seu grau mais óbvio na direita americana. Os “apparatchiks” (burocratas) de Trump sonham em domar o Estado profundo se ele voltar ao governo. A reimposição do chamado “Schedule F” facilitaria a demissão de funcionários públicos. Em uma versão para o Executivo do que a direita fez ao Judiciário ao longo de várias décadas, quadros partidários estão sendo preparados para cargos burocráticos em toda a Washington.
Ao mesmo tempo, o universo de Trump requer mais estratégia industrial. Há algum histórico de essa tarefa ter sido bem-executada, em qualquer ponto do planeta, sem uma burocracia permanente, independente, autorizada a planejar e a investir independentemente da ciranda de governos eleitos?
Em algum momento, os demagogos terão de escolher o que detestam mais: o livre-comércio ou a bolha. Coibir um deles tende a empoderar o outro. Observe-se que, embora Trump tenha iniciado a campanha pela proteção industrial, isso conquistou relevância real sob um governo de centro-esquerda. A direita nunca conseguiu levar sua lógica anticomércio exterior à sua conclusão natural, que é o engrandecimento da burocracia governamental.
Trump conseguiu brigar com a segurança nacional, por incrível que pareça. A ideia de que ele pudesse tolerar uma versão americana do antigo, e altivo, Ministério de Comércio Internacional e Indústria do Japão, é fantasiosa. Mas esse tipo de poder tecnocrático foi o que, pelas mãos de seu sucessor Joe Biden, o populismo criou inadvertidamente.
Temo, embora não consiga saber, que estejamos vivendo o maior passo em falso em termos de política governamental da minha vida. Após percorrermos um período de dez anos nesta era de protecionismo, poderemos nos arrepender do desperdício, do excesso, do aumento dos preços ao consumidor (não são os “trabalhadores” que pagam?) e da fragmentação do Ocidente em zonas de comércio em briga permanente entre si.
Mas o grau de incorreção dessa tendência são outros quinhentos. Por enquanto, o que chama a atenção é o improvável vitorioso que ela gerará. Imagine você ouvir em 2016 que as elites teriam mais poder, não menos, e isso graças a seus próprios algozes.
Fonte: Valor Econômico
