Por Nicholas Megaw, Valor — Financial Times, de Nova York
19/09/2022 10h34 Atualizado há um dia
A desaceleração do mercado de ações desde o começo do ano provocou a mais longa seca de listagens de ações de empresa de tecnologia nos Estados Unidos neste século, com os especialistas mostrando-se cautelosos com o ritmo de uma retomada mesmo depois dos sinais de vida demonstrados por outros setores.
A quarta-feira marcará 238 dias sem ofertas públicas iniciais de ações de tecnologia avaliadas em mais de US$ 50 milhões, superando os recordes anteriores estabelecidos após a crise financeira de 2008 e o estouro da bolha pontocom no começo dos anos 2000, segundo aponta uma pesquisa feita pela equipe de mercados de capitais de ações de tecnologia do Morgan Stanley.
O mercado de ações dos EUA tem sido abalado este ano pela luta do Federal Reserve (Fed) para reduzir a inflação por meio de aumentos agressivos das taxas de juros. Os juros maiores afetam as avaliações das ações ao reduzir o valor dos lucros futuros, e vêm despertando temores de que a economia possa mergulhar em uma recessão.
As ações de tecnologia de empresas com alto potencial de crescimento dominaram o mercado recorde de IPOs de ações de tecnologia do ano passado e obtiveram alguns dos maiores ganhos durante o boom do mercado de ações, mas elas também têm sido desproporcionalmente atingidas pela queda deste ano do mercado.
O índice de ações Nasdaq Composite, dominado por ações de tecnologia, caiu quase 28% este ano, comparado a uma queda de apenas pouco mais de 19% do índice Standard & Poor’s 500 (S&P 500), enquanto o índice Renaissance IPO, que monitora as ações de empresas americanas que foram listadas nos últimos dois anos, acumula uma queda de mais de 45%.
“Há muita incerteza no mercado no momento e a incerteza é inimiga do mercado de IPOs”, diz Matt Walsh, diretor de mercados de capitais de ações de tecnologia da SVB Securities.
“Acho que vamos precisar de alguma estabilização nas perspectivas e da volta dos investidores para comprar títulos públicos existentes, antes que eles estejam dispostos a avançar na curva de risco e comprar IPOs de tecnologia.”
A companhia de seguros de vida Corebridge concluiu na semana passada o primeiro IPO de US$ 1 bilhão desde janeiro e a recepção inicial cautelosa demonstrou a preocupação dos investidores, mesmo com empresas mais bem-estabelecidas e lucrativas.
Mesmo depois da operação da Corebridge, o volume total de IPOs nos EUA registra uma queda de 94% em relação ao ano passado, com apenas US$ 7 bilhões levantados em 2022 até agora, ante US$ 110 bilhões no mesmo período de 2021, segundo dados da Dealogic.
A Corebridge estava sendo observada atentamente como sinal de apetite dos investidores por mais negócios. Mas Nicole Brookshire, uma sócia da firma de advocacia Davis Polk especializada em listagens de empresas de tecnologia, disse que outros fatores, como relatórios de lucros fracos, podem ter “um impacto maior” sobre as perspectivas para novas emissões no setor de tecnologia.
“A orientação piorou, com algumas empresas e setores sentindo os efeitos dos problemas macroeconômicos, o que influencia as avaliações”, disse ela. As ações de empresas de Tecnologia da Informação (TI) do índice S&P 500 conseguiram com dificuldade cumprir as estimativas de lucros para o segundo trimestre, segundo a FactSet, mas as previsões para o terceiro trimestre vêm sendo repetidamente revistas para baixo, sendo que no momento a expectativa é de uma queda de 4% nos lucros em relação ao mesmo período do ano passado.
Muitos grupos de tecnologia responderam à desaceleração dando maior ênfase ao corte de custos e mostrando progresso na lucratividade, mas Nicole Brookshire disse que as empresas precisão de tempo para mostrar que as mudanças estão dando certo.
“No ano passado houve pouca discussão sobre a lucratividade [entre das candidatas a IPO]. Agora, há mais, mas o problema de mudar o foco de uma história de crescimento para uma história de lucros é que leva tempo para os emissores poderem provar seus progressos.”
Um fator mais positivo que está contribuindo para a fase de poucas operações, segundo acrescenta Walsh da SVB, é que as empresas de tecnologia levantaram tanto capital privado antes da desaceleração que “não há o mesmo senso de urgência”. Ele acredita que “um pequeno grupo” de companhias ainda poderá tentar listagens este ano, mas a maior parte delas já adiou os planos para 2023.
Fonte: Valor Econômico
