Seria reconfortante acreditar que a morte de Alexei Navalny, enfim, tornaria Vladimir Putin um pária internacional. No entanto, a história recente e o atual quadro político sugerem algo diferente. É tristemente provável que o líder russo continue sendo tratado com respeito — e até admiração — em grandes partes do mundo.
Ninguém deveria esperar que Xi Jinping abandone Putin simplesmente porque houve outra morte súbita na Rússia. O líder chinês compartilha o ódio de Putin pelos ativistas pró-democracia. O mais surpreendente é Putin também continuar a ter relações amistosas com os líderes de algumas das democracias mais poderosas do mundo.
De fato, é inteiramente possível que as três maiores democracias do mundo — Índia, EUA e Indonésia — elejam admiradores de Putin como líderes neste ano. Prabowo Subianto, na Indonésia, Narendra Modi, na Índia, e Donald Trump, nos EUA, se destacam por não terem se juntado à condenação internacional a Putin – por motivos que vão além da “realpolitik”.
Na semana passada, Prabowo conquistou uma vitória decisiva nas eleições presidenciais da Indonésia. Sua ascensão ao cargo máximo deixa muitos apoiadores da democracia indonésia em estado de alta tensão. O temor deles é que Prabowo possa aspirar a governar como “líder forte”, no estilo de Putin, e ressaltam as acusações de que ele foi responsável por abusos de direitos humanos quando estava nas Forças Armadas indonésias.
Em 2023, Prabowo propôs um acordo de paz para a Ucrânia que, de tão complacente com as ambições de Putin, foi menosprezado pela Ucrânia como um “plano russo”. Kornelius Purba, editor-chefe do jornal “The Jakarta Post”, recentemente comentou a “admiração” de Prabowo por Putin e sinalizou que, entre o eleitorado indonésio, há “muitos [que] apoiam o general do Exército da reserva porque são admiradores fanáticos do presidente Putin”.
No início do ano, Modi teve uma conversa amistosa com Putin por telefone, na qual os líderes indiano e russo trocaram desejos de boa sorte em suas próximas eleições. Modi, em contraste com Putin, participará de uma eleição genuína, que deverá vencer com facilidade.
Diplomatas indianos argumentam que o relacionamento de trabalho de Modi com Putin é uma questão de simples pragmatismo e interesse nacional. A Índia comprou muitos equipamentos militares da Rússia e não pode romper esse relacionamento da noite para o dia. A economia indiana também tem se beneficiado do petróleo russo barato.
Para ser justo com Modi, ele fez uma leve repreensão pública a Putin em 2022. Disse ao líder russo que “a era de hoje não é a era da guerra”. Desde então, contudo, as relações entre os dois líderes voltaram a ficar calorosas. Putin recentemente elogiou Modi como “um homem muito sábio”. Jaiveer Shergill, porta-voz nacional do partido Bharatiya Janata, de Modi, reagiu a uma pergunta sobre a morte de Navalny dizendo calmamente: “A Rússia foi, é e continuará sendo uma forte amiga e aliada da Índia.”
Fonte: Valor Econômico
