O estresse na renda fixa global não dá sinais de pausa. Na manhã desta quinta-feira, na esteira da escalada nos preços do petróleo no mercado internacional, os juros de longo prazo voltam a renovar máximas não vistas desde o início dos anos 2000, o que reforça a sensação de preocupação dos investidores, no momento em que a cautela com o risco de contágio a partir da piora nos juros da França segue em nível máximo.
Se, ao longo de setembro, as discussões sobre um aperto monetário do Federal Reserve (Fed) e sobre a concorrência com as emissões de dívida ligadas à inteligência artificial (IA) levaram a um movimento de alta da curva de juros americana, sobretudo em prazos mais longos, nas últimas semanas a França tem sido o catalisador do estresse global.
Na manhã desta quinta-feira, a taxa do OAT francês de dois anos saltava de 3,607% para 3,673%, enquanto o retorno do papel de dez anos subia de 4,892% para 4,929%.
Ainda que o banco central francês tenha negado a necessidade de uma intervenção do Banco Central Europeu (BCE), o risco de contágio do movimento dos juros franceses aumenta a cada dia, especialmente diante da ausência de uma solução para o Orçamento do país.
“A França não registra superávit orçamentário desde 1974, enquanto sua relação dívida/PIB aumentou quase continuamente desde então. Além disso, os rendimentos dos títulos de 10 anos estão agora confortavelmente acima do crescimento nominal do PIB, depois de terem ficado abaixo dele durante boa parte da última década ou mais. Portanto, trata-se de uma preocupação para a sustentabilidade da dívida”, dizem os estrategistas do Deutsche Bank em nota enviada a clientes.
O banco alemão se manteve entre os mais pessimistas sobre a dívida francesa por alguns anos, mas, agora, acredita que os papéis do paí estão baratos em relação aos fundamentos.
“Nas últimas 24 horas, ficou claro que o risco de contágio na Europa voltou à pauta, diante de uma forte ampliação dos ‘spreads’ de vários países. Isso marcou uma mudança de humor em relação aos últimos dias, já que o estresse nos mercados financeiros vinha, de forma geral, diminuindo desde a sexta-feira passada”, dizem os profissionais do Deutsche. Para eles, foi justamente o apontamento do Banco da França de que não é necessária uma intervenção do BCE que gerou um movimento de estresse na renda fixa.
Na avaliação do chefe de estratégia de juros europeus do Barclays, Rohan Khanna, a renda fixa na Europa ainda está em um estágio de “grande mudança”, na medida em que os OATs franceses ainda buscam seu preço de equilíbrio, ao mesmo tempo em que os agentes financeiros se perguntam quão longe o BCE poderá estender seu ciclo de aperto monetário dada a piora nos juros franceses.
“Somos céticos quanto à possibilidade de a atual volatilidade do mercado impedir o BCE de seguir adiante com o ciclo de juros. Nossos economistas esperam uma alta de 0,25 ponto em dezembro, que seria a última, mas, diante das perspectivas para o mercado de energia, provavelmente é justificável algum prêmio de risco adicional além disso”, diz Khanna. Ele, além disso, aponta que o nível necessário para que haja qualquer intervenção do BCE nos mercados soberanos “provavelmente é bastante elevado”.
“Quando o mercado conseguir superar a ‘muralha de preocupações’ em torno dos fundamentos da França, um preço de equilíbrio deverá se tornar mais claro. No entanto, o caminho entre agora e essas eleições ainda é longo”, enfatiza o profissional do Barclays. “Os OATs provavelmente continuarão sendo negociados em função desses fatores estruturais, mas também reagirão ao ciclo macroeconômico à medida que ele evoluir.”
Fonte: Valor Econômico
