O primeiro turno das eleições de 2026 mexeu com o mercado financeiro brasileiro. Na primeira sessão após os resultados, o Ibovespa saltou quase 8% e bateu recordes, o dólar tombou 4% e os juros futuros caíram mais de 8% nos vencimentos intermediários e longos. O movimento também reacendeu o otimismo entre bancos estrangeiros, que elevaram suas recomendações para os ativos locais.
O senador Flávio Bolsonaro (PL) saiu à frente da disputa com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Agora, os dois candidatos se enfrentam no segundo turno, em 25 de outubro.
Além do maior número de votos recebidos por Flávio, o mercado financeiro viu o avanço da direita no Congresso Nacional, com o PL se consolidando como o maior partido do Senado. Nos Estados, dos 19 governadores já definidos sem necessidade de uma nova votação, dez são do PL, Republicanos ou PP.
Após os resultados das urnas, bancos como UBS GWM, JPMorgan e Morgan Stanley passaram a enxergar maiores chances de uma mudança na política econômica a partir de 2027, cenário que pode favorecer a Bolsa e o real.
Para que essa perspectiva se concretize, no entanto, as instituições ainda esperam a apresentação de um plano fiscal crível e concreto. Além disso, será preciso contar com um cenário externo estável, sem grandes surpresas.
Ibovespa aos 250 mil pontos? Bancos reforçam otimismo com Bolsa
O Morgan Stanley elevou a recomendação do mercado brasileiro para overweight, indicando uma exposição acima da referência da carteira. O banco avalia que as eleições podem abrir espaço para um novo rumo no País, com ajuste fiscal e estímulo ao investimento em ações.
Após o rali registrado pela Bolsa no começo da semana, o Morgan ainda projeta ganhos de 15% a 20% até o fim de 2026, além de enxergar espaço para novas altas em 2027, em direção ao seu cenário otimista de 250 mil pontos para o Ibovespa.
A instituição classifica o pregão após o primeiro turno como o início do que chama de “lua de mel” do mercado com Flávio Bolsonaro (PL). Na sessão, o MSCI Brazil, índice que acompanha o desempenho de empresas brasileiras de grande e média capitalização, subiu 12,5% em dólares, superando as altas de 1,6% do MSCI de Mercados Emergentes, de 1,1% do MSCI México e de 0,7% do S&P 500.
Após o resultado do primeiro turno das eleições, o JPMorgan foi pelo mesmo caminho e elevou a recomendação do Brasil para compra. Meses antes, o banco havia rebaixado o País, citando a volatilidade do período eleitoral, a desaceleração do crescimento econômico, o cenário externo mais adverso e a falta de visibilidade para novos cortes da Selic.
Agora, a avaliação mudou. O JPMorgan espera que o MSCI Brazil avance 12% no curtíssimo prazo, podendo chegar a uma alta de 20% – potencial de valorização superior ao oferecido por qualquer outro mercado da América Latina, nos cálculos do banco.
A expectativa positiva decorre da possibilidade de uma política macroeconômica mais favorável do ponto de vista fiscal. Além disso, a instituição espera que a alta do real abra caminho para cortes maiores e mais rápidos da Selic. Só na segunda-feira (5), o dólar tombou 4,12%.
Quem também renovou o otimismo com a Bolsa local foi o UBS GWM. Se o ajuste fiscal se confirmar e os juros reais caírem, o banco espera uma alta superior a 30% para o Ibovespa nos próximos meses.
A instituição aponta que, considerando os ciclos eleitorais anteriores de referência, a reprecificação dos papéis deve se estender durante todo o primeiro ano do novo governo, à medida que as propostas de reforma avancem no Congresso e os mercados ganhem confiança na execução das políticas.
O UBS avalia que as ações mais sensíveis a esse cenário são os papéis de bancos, varejistas, construtoras, utilities (saneamento e energia), educação, saúde e small caps (empresas de menor capitalização). Por outro lado, as ações de petroleiras podem registrar desempenho inferior, por já terem subido com a alta do petróleo.
Morgan Stanley e JPMorgan elevaram recomendação do Brasil para compra. Foto: Adobe Stock
Dólar abaixo de R$ 5 veio para ficar?
O Morgan Stanley sinalizou que o primeiro turno fez o mercado brasileiro se aproximar do “cenário otimista”, no qual o dólar poderia convergir para R$ 4,5, ainda que esse cenário dependa de um plano fiscal mais crível para o Brasil e de um cenário externo estável.
O banco aponta o aumento das compras de ações brasileiras por investidores estrangeiros como um fator de pressão sobre o dólar, mas pondera que a sazonalidade do fim do ano pode desacelerar esse movimento de queda. A instituição projeta que a moeda norte-americana alcance R$ 4,50 no primeiro trimestre de 2027.
Já o UBS vê o dólar chegando à faixa de R$ 4,50 a R$ 4,60 em três a seis meses, se o segundo turno reforçar o resultado do primeiro e o petróleo seguir em patamar favorável.
JPMorgan eleve recomendação para índice de crédito brasileiro
No mercado de crédito, o JPMorgan espera compressão dos spreads do CEMBI Brasil. Quando há compressão ou fechamento do spread, significa que o mercado financeiro passa a exigir uma remuneração menor pelo risco de emprestar dinheiro à empresa, o que normalmente indica uma melhora na percepção de crédito. O CEMBI Brasil é um índice que acompanha o desempenho de títulos de dívida emitidos por empresas brasileiras no mercado internacional.
O movimento de fechamento dos spreads, no entanto, deve se concentrar nos bancos brasileiros, em empresas com grau de investimento (IG, na sigla em inglês) e em emissores de maior qualidade de crédito — como Vale (VALE3), Embraer (EMBJ3), Gerdau (GGBR4) e Arcos Dorados (ARCO) —, não no grupo de companhias mais vulneráveis, que continua sujeito a fatores específicos de cada uma.
Nesse contexto e após o desempenho recente do crédito corporativo brasileiro – inferior a outros índices de títulos de dívida –, o banco elevou sua recomendação para o CEMBI Brasil de neutra para overweight.
O que deve ficar no radar?
Para as próximas semanas do período eleitoral, os principais pontos no radar do JPMorgan serão as pesquisas de segundo turno, os apoios e as transferências de votos dos candidatos eliminados e de líderes regionais, além de os riscos institucionais decorrentes de uma campanha mais polarizada. “Para os mercados, também vale monitorar se alguma das campanhas finalmente apresentará sinais claros sobre política fiscal e condução da economia”, destaca.
O UBS considera como risco mais evidente uma “mudança drástica” nas preferências dos eleitores antes do segundo turno. Olhando mais adiante, destaca a importância de monitorar quem será escolhido para liderar a equipe econômica do próximo presidente, assim como o plano de ajuste fiscal.
Os riscos relacionados à aprovação das medidas no Congresso também são importantes. “Mesmo um forte mandato político não garante a aprovação de reformas nas despesas obrigatórias”, destaca.
Outro alerta vem de fora: uma deterioração das condições financeiras globais pode prejudicar os ativos brasileiros, independentemente do ciclo político local.
Fonte: E-Investidor



