Em um movimento excepcionalmente forte de entrada de recursos, os investidores estrangeiros aportaram o valor recorde de R$ 10,06 bilhões em ações já listadas na B3Cotação de B3 na segunda-feira, 5 de outubro, primeiro pregão após o primeiro turno das eleições presidenciais. E, diante do otimismo renovado dos mercados com a chance elevada de uma mudança na condução da política econômica, a dinâmica pode estar longe do fim.
A surpresa com a liderança do senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a composição mais à direita do Congresso Nacional reacendeu as apostas em um novo ciclo de entrada de recursos no mercado de ações brasileiro. Na avaliação de algumas instituições, o movimento observado nesta semana pode ser apenas o início de uma onda muito mais ampla de alocação em ativos locais.
De acordo com o VALOR DATA, na série histórica desde 2012, não há um valor maior que os R$ 10 bilhões de entrada da última segunda-feira. O valor mais próximo é o de 9 de abril deste ano, quando houve um aporte de R$ 8,4 bilhões pelos estrangeiros no mercado secundário.
Desde segunda-feira, casas como Morgan Stanley e J.P. Morgan passaram a adotar uma recomendação de compra (“overweight”) para a bolsa brasileira, enquanto o Citi montou uma posição comprada no Ibovespa futuro. Na prática, boa parte do mercado se posiciona a favor da continuidade de um rali da bolsa brasileira, mesmo após a disparada recente, que levou o Ibovespa a furar o nível dos 200 mil pontos.
Ao Valor, o estrategista-chefe de ações para América Latina do Morgan Stanley, Nikolaj Lippmann, avalia que a bolsa brasileira poderia receber até US$ 50 bilhões de investidores estrangeiros, somando o aumento de exposição por parte de fundos dedicados a mercados emergentes e uma eventual retomada do apetite global pela classe de ativos. Pelo câmbio atual, seria equivalente a uma entrada de R$ 250 bilhões.
“Embora os investidores globais tenham reduzido a participação em mercados emergentes diante dos juros mais altos nos Estados Unidos, poderíamos observar uma reversão desse movimento em 2027”, diz o estrategista. “Se esses investidores passarem a manter uma alocação em emergentes 1 ponto percentual acima do peso de referência, estimamos que isso representaria mais US$ 30 bilhões para as ações brasileiras. Esse cenário exigiria uma combinação de fatores favoráveis ao Brasil, mas está longe de se apoiar em premissas pouco razoáveis.”
Em relatório enviado a clientes, a equipe de estratégia do Itaú BBA, liderada por Daniel Gewehr, calcula que, caso os aportes de investidores estrangeiros e de fundos locais retornem às médias históricas, o potencial de entrada de recursos na bolsa brasileira pode chegar a R$ 270,2 bilhões. Desse total, cerca de R$ 123,1 bilhões viriam de investidores estrangeiros, enquanto os fundos domésticos responderiam por aproximadamente R$ 147,1 bilhões.
O Itaú BBA também mantém recomendação “overweight” para as ações brasileiras.
Para o Morgan Stanley, os aportes totais na bolsa brasileira — incluindo, portanto, recursos estrangeiros e locais — podem alcançar até US$ 100 bilhões, em um ambiente muito otimista. O cenário mais provável, porém, aponta para um volume entre US$ 50 bilhões e US$ 60 bilhões.
De acordo com Lippmann, a principal diferença em relação a 2025 é a de que os recursos tendem a ser liderados por investidores locais. “Acreditamos que os investidores domésticos possam elevar em cerca de 2 pontos percentuais a alocação em ações brasileiras ao longo dos próximos 12 meses, o que representaria aproximadamente US$ 40 bilhões. Além disso, investidores dedicados a mercados emergentes poderiam ampliar suas posições no Brasil acima do peso de referência, com aportes de US$ 10 bilhões a US$ 20 bilhões”, calcula o estrategista.
Lippmann tem como cenário-base o Ibovespa em 215 mil pontos, mas, em um cenário otimista, não descarta que o índice alcance 250 mil pontos.
Fonte: Valor Econômico


