O bom momento dos mercados locais no pós-primeiro turno teve continuidade parcial na sessão desta terça-feira, com os juros futuros e o dólar novamente em queda, mas a bolsa brasileira devolvendo parte da forte valorização da véspera. Apesar do movimento mais contido, o otimismo sobre os ativos brasileiros se manteve presente nos relatórios de instituições globais.
Encerradas as negociações desta terça-feira, o dólar à vista teve desvalorização de 0,51%, cotado a R$ 4,9757, abaixo de R$ 5,00 pela primeira vez desde maio. Já a taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2031 recuou de 12,655%, do ajuste de segunda, para 12,57%.
Em relatório enviado a clientes, os estrategistas do J.P. Morgan Gisela Brant, Tania Escobedo e Santiago Olalquiaga elevaram a recomendação para o real e os juros brasileiros de neutra para “overweight” (equivalente a maior exposição aos ativos locais em relação aos pares).
“Embora o rali do real tenha sido rápido, o câmbio permanece bem dentro das nossas expectativas e vemos espaço para que esse movimento se prolongue caso Flávio Bolsonaro consolide sua liderança nas próximas pesquisas”, afirmam. “Além disso, se uma transição política for confirmada, acreditamos que a composição do Congresso aumentaria a probabilidade e a eficácia potencial de um plano de consolidação fiscal mais ambicioso ser proposto e levado adiante.”
Se esse cenário se consumar, a moeda americana pode cair para o patamar perto de R$ 4,70 a R$ 4,80, segundo o banco americano. Isso pode ocorrer mesmo com os cortes de juros precificados pelo mercado. “Reavaliaríamos se as expectativas para a Selic alcançassem níveis de um dígito, mas não consideramos que este é o cenário-base no futuro próximo. No fim das contas, acreditamos que a força do real pode coexistir com o ajuste dos mercados de juros por enquanto.”
Mercado deve ajustar sua leitura sobre a Selic no fim do ciclo de cortes para algo perto de 11% ou 12%”
Para o Société Générale, o bom desempenho de Flávio no primeiro turno é motivo para os agentes seguirem otimistas com o real. Para o estrategista de mercados emergentes Brendan McKenna, o ambiente favorece, por pelo menos um mês, posições compradas (aposta na valorização) na moeda brasileira contra o dólar e contra o euro.
“Usaremos o segundo turno deste ano como uma referência temporal e recomendamos manter posições vendidas em dólar e em euro contra o real por um mês”, diz McKenna em nota enviada a clientes. “Dito isso, estaremos atentos à evolução política nas próximas semanas e, caso o cenário sugira que o real possa se comportar de maneira semelhante ao peso colombiano após as eleições gerais da Colômbia, recomendaríamos manter as posições por período mais prolongado.”
O sócio e diretor de investimentos (CIO) da Armor Capital, Alfredo Menezes, diz ser comum um “respiro” no rali, mas que se as pesquisas indicarem alternância de poder, os ativos podem continuar em alta. “Se o Flávio for eleito, ele vai ter as ferramentas para fazer reformas, já que o PL cresceu na Câmara e no Senado. Não sei se vai fazê-las, mas ele terá chance”, diz. “Para o Lula, o cenário é mais difícil porque o quadro político é menos favorável.”
Menezes, porém, diz não ver o dólar abaixo de R$ 4,80, a não ser que os termos de troca ajudem a moeda. “Tenho um viés de que os preços do petróleo devem cair, e isso é que tem ajudado a fortalecer nossa balança”, afirma. “Além disso, temos que pensar no cenário externo. Esse ambiente de fora é que vai estabelecer até onde vai nosso rali. Não dá para falar em NTN-B abaixo de 6%, se a economia americana se manter forte e os juros mais altos por lá.”
Mario Castro, estrategista sênior para América Latina do BNP Paribas, diz acreditar que tanto os contratos de DI quanto o real têm espaço para seguir se valorizando nos próximos meses, à medida que os investidores dão o benefício da dúvida ao novo governo no caso de vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno, marcado para o próximo dia 25.
Neste contexto, o banco abriu uma posição aplicada (que aposta na queda das taxas) em contratos de DI com vencimento de janeiro de 2029. A operação foi iniciada a uma taxa de 12,68% e tem como alvo o nível de 11,68%, além de um “stop” (zeragem abrupta da posição) de 13,18%.
“Após alguns meses [de um eventual governo de Flávio], o foco do mercado provavelmente se voltará para as políticas específicas que o governo implementar”, diz Castro. Até lá, o mercado provavelmente deve ajustar a sua expectativa sobre a taxa Selic para algo entre 11% e 12% ao fim do ciclo de flexibilização monetária do BC, avalia o executivo.
Embora o pregão desta terça-feira tenha sido de realização de lucros na bolsa local, o Morgan Stanley elevou a recomendação das ações do país para “overweight” após o resultado do primeiro turno. A equipe de estratégia para ações do banco passou a projetar uma valorização adicional de 15% a 20% do Ibovespa até o fim do ano e ainda disse ver espaço para novas altas em 2027, caso haja mudança na política fiscal. O banco estima que o índice pode atingir 250 mil pontos em seu cenário mais otimista em meados do ano que vem.
Diante da nova configuração do Congresso e da maior chance de que Flávio seja eleito, o Itaú BBA avalia que, se os aportes de fundos locais e de investidores estrangeiros voltarem às médias históricas, o fluxo potencial para a bolsa local pode chegar a R$ 270,2 bilhões. Caso o cenário se concretize, o fluxo de investidores estrangeiros seria próximo de R$ 123,1 bilhões, enquanto os fundos locais contribuiriam com R$ 147,1 bilhões.
Fonte: Valor Econômico


