O Brasil parece ter construído, ao longo das últimas décadas, parte relevante das condições necessárias para entrar em um novo ciclo de investimentos em infraestrutura. Esse ciclo novo, segundo estudo elaborado pela Riza Asset, pode exigir que os fundos dedicados ao setor mais do que dobrem de tamanho na próxima década, em movimento que deve ser puxado pelo setor de rodovias.
Segundo a carta temática da gestora, antecipada ao Intraday, o patrimônio dos fundos de infraestrutura precisaria passar de aproximadamente R$ 346,5 bilhões atualmente para R$ 771 bilhões até 2036 para acompanhar a expansão do mercado de debêntures incentivadas e o aumento da participação desses veículos nas compras. O estoque dos títulos pode alcançar R$ 935 bilhões, ante R$ 556 bilhões no fim de 2025.
“Se o ciclo que enxergamos se materializar, os fundos de infraestrutura deixarão de ser apenas compradores de uma classe em expansão e passarão a desempenhar um papel cada vez mais importante na conexão entre a poupança dos investidores e o próximo ciclo de investimentos do país”, afirma a gestora.
A avaliação da Riza é que o amadurecimento dos contratos de concessão e dos marcos regulatórios criou condições para ampliar o investimento privado, mas a disponibilidade de financiamento em volume e prazo adequados será tão importante quanto a existência de novos projetos.
Segundo a gestora, os fundos respondem hoje por cerca de 40% da demanda pelas novas ofertas de debêntures incentivadas, enquanto bancos e pessoas físicas representam aproximadamente 30% cada. Para 2036, o exercício considera que a participação dos fundos alcance 55%, com os bancos mantendo sua fatia e as compras diretas de pessoas físicas recuando para 15%.
“À medida que o mercado ganha escala e exige maior capacidade de análise, seleção e diversificação, entendemos que uma parcela crescente dessa demanda deverá migrar da compra direta para veículos especializados”, diz a casa.
O principal motor desse novo ciclo de investimentos, segundo a Riza, deve ser o setor de transportes, especialmente as rodovias. Segundo a carta, entre 2016 e 2022 foram realizados sete leilões de rodovias federais, envolvendo aproximadamente 3,7 mil quilômetros. Entre 2023 e 2026, incluindo os certames previstos até o fim deste ano, serão 26 leilões e mais de 13,8 mil quilômetros concedidos. “Para colocar essa magnitude em perspectiva, esse volume equivale a aproximadamente metade de toda a malha rodoviária concessionada existente no país ao final de 2022”, aponta a equipe de gestão da Riza.
O exercício da gestora parte de uma necessidade de investimentos de R$ 1,5 trilhão mapeada pelo Plano CNT de Transporte e Logística 2026, mas trabalha com uma estimativa mais restrita, de R$ 725 bilhões em projetos realizáveis. As rodovias concentram mais de R$ 351 bilhões desse montante.
Para financiar os projetos, o estudo considera uma estrutura de 20% de capital próprio e 80% de dívida. Na parcela do endividamento, as debêntures incentivadas responderiam por 75%; o BNDES, por 15%; e o crédito bancário, por 10%. Com essas premissas, e considerando a amortização das dívidas existentes, o estoque de incentivadas de transportes e logística passaria de cerca de R$ 166 bilhões para R$ 366 bilhões em 2036, próximo de 40% do mercado total.
A Riza observa o histórico do setor de saneamento e aponta que o avanço das concessões leva algum tempo para se traduzir em emissões, já que a demanda por recursos tende a aparecer conforme os projetos entram na fase de financiamento e execução.
“Segurança regulatória atrai capital, novos projetos criam necessidade de financiamento e um mercado de capitais desenvolvido permite que esse investimento efetivamente saia do papel”, apontam.
A ampliação da oferta, porém, também exigirá maior seletividade dos gestores. A casa ressalta que o volume de projetos é apenas parte da análise e que os contratos precisam compatibilizar investimentos, demanda e geração de caixa ao longo do tempo. “Mais emissões, novos operadores e projetos com horizontes cada vez mais longos exigirão maior capacidade de diferenciar risco de projeto, qualidade dos contratos, estrutura de garantias e disciplina financeira dos emissores”, diz a Riza.
Fonte: Valor Econômico


