Por Rita Azevedo e Fernanda Guimarães — De São Paulo
25/04/2024 05h02 Atualizado há 4 horas
Com dados ainda fortes da atividade econômica americana e mudanças nas expectativas sobre o corte de juros nos Estados Unidos, o fluxo para fundos que investem em bônus brasileiros mudou. Desde o início de abril, eles registraram saídas de US$ 61,5 milhões, o que interrompeu o movimento de entrada de recursos visto nos últimos três meses, de acordo com levantamento feito a pedido do Valor pela EPFR, consultoria que capta o fluxo de capital nos fundos de investimento globalmente.
Nos três primeiros meses do ano, em um bom momento de emissão de títulos de dívida externa, a entrada de capital nos fundos dedicados a títulos de dívida brasileiros chegou a cerca de US$ 161 milhões. Em todo o ano passado, a entrada de recursos nesses fundos foi da ordem de US$ 46 milhões. O investimento em bônus, contudo, pode ser feito por investidores estrangeiros também dentro dos fundos de bonds emergentes e, em menor peso, nos fundos globais.
A dinâmica positiva desenhada até o início de abril, que influenciou na melhora do ambiente para as emissões brasileiras, desandou com os dados mais recentes de inflação nos Estados Unidos. Os números jogaram ainda mais para frente as projeções de início do corte das taxas de juros na economia americana, o que trouxe volatilidade aos Treasuries e afastou investidores e emissores. Com isso, a euforia dentro dos bancos que estruturam esse tipo de operação foi trocada pela cautela.
“A mudança na perspectiva de queda da taxa de juros é um evento importante o suficiente para dar uma balançada no mercado”, diz Samy Podlubny, chefe da área de dívida do UBS BB. “Os eventos afetaram os níveis dos preços no mercado secundário e o apetite para o primário.”
Isso, no entanto, não significa que a janela de operações tenha se fechado. “Houve um ajuste de preço, mas acredito que vamos continuar vendo os brasileiros emitindo lá fora neste ano. Estamos acompanhando com atenção e o mercado segue funcionando”, diz Alexandre Castanheira, chefe da área de mercado de dívida do Citi.
De janeiro até agora, foram concluídas 13 ofertas brasileiras no mercado de dívida em dólar. A mais recente foi da Movida, que captou US$ 500 milhões, no dia 4 de abril. Na mesma semana, BTG Pactual e Nexa, antiga Votorantim Metais, levantaram US$ 500 milhões e US$ 600 milhões, respectivamente.
Segundo fontes, ao menos uma oferta de companhia brasileira deve ser divulgada nos próximos dias. Empresas que estavam se preparando para apresentar a investidores estrangeiros possíveis emissões não mexeram nos planos, e companhias que passam por reestruturação também devem fazer ofertas para pagar seus vencimentos de curto prazo.
Os nomes que têm porte e caixa para aguardar o melhor momento para uma oferta, como os emissores frequentes, podem esperar mais para captar recursos lá fora. “Eles não precisam emitir de forma urgente”, lembra Pedro Frade, responsável pela área de renda fixa internacional do Itaú BBA.
Para Frade, a necessidade, no momento, é de estabilidade dos Treasuries, algo que deve trazer de volta as emissões no mercado externo. O que prejudica nesse momento tem sido uma reprecificação brusca, o que faz com os investidores se sintam menos confortáveis para investir. Até o momento, a projeção de volume financeiro para o ano segue intacta, algo que pode ficar em torno de US$ 20 bilhões.
Caio de Luca Simões, chefe do mercado de capitais de dívida do Bank of America (BofA) no Brasil, acredita que ainda há espaço para ofertas tanto para companhias que já emitem no exterior quanto para estreantes. “Não houve uma mudança estrutural de cenário”, diz ele. “A despeito da abertura de spreads, seguimos construtivos, considerando que há apetite dos investidores para papéis tanto de emissores frequentes quanto para novas histórias.”
No início de 2024, duas companhias estrearam no mercado de dívida em dólar. A 3R Petroleum fez uma emissão de US$ 500 milhões e a Ambipar, especializada em gestão de resíduos, levantou US$ 750 milhões. O debute de uma brasileira no mercado de bonds não ocorria há dois anos.
Até agora, o volume de títulos brasileiros emitidos lá fora neste ano chega a US$ 11,6 bilhões.
Fonte: Valor Econômico

