Por Mariana Ribeiro, Valor — São Paulo
24/04/2024 12h05 Atualizado há 10 horas
O diretor de política monetária do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, disse nesta quarta-feira que o papel da autoridade monetária não é discutir a meta de inflação, mas persegui-la. Buscando reforçar a mensagem de que a instituição está comprometida com esse objetivo, ele acrescentou ter até uma posição mais “radical” de que o BC não deveria participar do voto da meta no Conselho Monetário Nacional (CMN).
O diretor afirmou que, desde que assumiu a posição no BC, tem visto o ceticismo do mercado com o cumprimento da meta — que é de 3% para 2024, 2025 e 2026 — “ir e voltar”. “Para a gente, esse é um ‘não tema’. Recebemos um mandato e temos que persegui-lo”, disse durante participação em evento promovido pela Upload Ventures, em São Paulo.
“Sou até mais radical e acho que o BC nem deveria, no CMN, votar na meta de inflação”, acrescentou Galípolo, reforçando que ela deve ser definida pelo poder democraticamente eleito. “A discussão no Copom não passa por se a meta está alta ou baixa, temos que nos preocupar com persegui-la.”
Galípolo também foi questionado sobre a influência da curva de juros americana sobre a brasileira e disse que, de fato, o nível de correlação subiu muito. Acrescentou, no entanto, que a autoridade monetária deve agir com calma e não “se emocionar”. “Quando a gente escreve ‘parcimônia’ [nas comunicações oficiais] significa que nem sempre devemos nos emocionar muito com flutuações de curto prazo.”
De acordo com ele, talvez o mais adequado seja dar tempo para ver como essas oscilações podem se refletir naquilo que é o mandato do BC, que é a meta de inflação. “É importante ter calma e não se emocionar, ainda que o risco seja ficar um pouco atrasado nesse processo de função de reação.”
Foi a primeira fala de Galípolo após comentários do presidente do BC, Roberto Campos Neto, sobre possível alteração no cenário-base da autoridade devido ao aumento de incertezas locais e externas.
Na semana passada, Campos Neto traçou quatro caminhos possíveis para a política monetária no país. Na avaliação dos agentes de mercado, o dirigente buscou se desfazer da orientação de política monetária indicada no comunicado da última decisão do Copom, de que o comitê via como apropriado mais um corte de 0,5 ponto percentual na taxa Selic.
Na última reunião do colegiado, em março, a taxa básica de juros foi reduzida de 11,25% ao ano para 10,75%, com sinalização de mais um corte de 0,5 ponto percentual apenas para a próxima reunião, marcada para 7 e 8 de maio.
Em sua apresentação, Galípolo afirmou ainda que está otimista com o Brasil “e não é de agora”. Para ele, apesar da reprecificação de ativos mais recente, com o fortalecimento do dólar, o Brasil tem vantagens comparativas e capacidade de atrair investimento. Ele afirmou que países que estavam mais adiantados no processo de aperto monetário “estão sofrendo um pouquinho na defasagem do ponto de vista da economia norte-americana”, ou seja, com a postergação dos cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed). “Mas ainda acho que, do ponto de vista estrutural, o Brasil reúne vantagens para se apresentar como um polo de investimentos, ter ganhos de produtividade.”
O diretor disse que a demanda das famílias deve permanecer resiliente e que, em um momento de tensão geopolítica global, o país também tem uma situação “bastante privilegiada em comparação a outros países”. “O Brasil tem tamanho de mercado, demanda aquecida, com ciclo de política monetária que parece bastante saudável”, disse, citando também vantagens em termos de balança comercial e energia limpa.
Fonte: Valor Econômico