Embora o Brasil permaneça como destaque entre os mercados emergentes e tenha se tornado foco do investidor estrangeiro recentemente, o país não deve despertar um fluxo de capitais que levaria o câmbio a se apreciar muito mais. É o que espera o chefe de mercados globais do Citi Brasil, Eduardo Miszputen, ao acreditar que o cenário externo deve continuar a exercer um papel relevante no desempenho do real, enquanto os preços das commodities e a balança comercial podem não fornecer o mesmo suporte do ano passado.
“O ano de 2024 deve repetir um pouco o de 2023, com os fatores externos podendo dar mais estabilidade para o mercado local do que os fatores internos”, diz o executivo ao Valor. Nesse sentido, o rumo dos juros nos Estados Unidos, tema que tem pautado o dia a dia dos ativos financeiros globais desde a virada do ano, deve seguir relevante. “E ainda temos duas guerras em curso e há riscos de ampliação desses conflitos. Além disso, outro fator que pode gerar instabilidade é a eleição americana no fim do ano.”
“Fora isso, o ambiente da taxa de juros americana e a própria economia dos EUA devem trazer incertezas que vão gerar alguma volatilidade nos mercados”, afirma Miszputen. Desde o começo do ano, inclusive, o câmbio doméstico tem se fiado às expectativas para os juros americanos e, assim, a correlação entre o desempenho do real e o comportamento das taxas dos Treasuries de curto prazo se mostra bastante elevada. No acumulado do ano, o dólar anota alta de 1,91% ante o real.
Ao se referir ao Brasil, o executivo vê um cenário mais estável, embora ainda não seja capaz de atrair um fluxo forte de entrada de capital estrangeiro. Para Miszputen, o Brasil tem chamado a atenção entre os mercados emergentes, ao ter oportunidade de crescimento; alguma estabilidade econômica e fiscal, com reformas sendo feitas; uma taxa de juros que deve permanecer elevada; e uma balança comercial forte. “Devemos nos tornar um pilar de estabilidade, porque estamos distantes das guerras e do impacto desses conflitos.”
“Acho que o Brasil está se consolidando como um dos países emergentes mais interessantes para o foco do investidor estrangeiro. Infelizmente ainda estamos distantes de um grau de investimento. Acho que essa é a grande resistência para um fluxo adicional de investidores para o Brasil”, afirma Miszputen. Ele lembra que, no ano passado, agências de classificação de risco como S&P Global e Fitch elevaram a nota de crédito do Brasil, mas, apesar disso, o rating soberano brasileiro permanece dois degraus abaixo do nível de investimento.
Líder do ranking de operações de câmbio a clientes em 2023 pelo quinto ano consecutivo, o Citi acredita que uma postura mais rígida do governo no âmbito fiscal poderia melhorar a percepção sobre o Brasil e, assim, elevar o fluxo de entrada de capital estrangeiro. “As pessoas entendem que alguma margem pode ser dada e que o governo tem interesse por iniciativas e políticas sociais. Entende-se essa questão, mas, obviamente, uma rigidez maior na questão das contas públicas traria uma percepção melhor do país”, afirma Miszputen.
Fonte: Valor Econômico
