Por Sérgio Tauhata — De São Paulo
20/07/2022 05h02 Atualizado há 6 horas
Há 40 anos, quando a Fitch Ratings desembarcou na América Latina para inaugurar seu escritório no Chile, a Argentina envolvia-se no primeiro conflito com outra nação em mais de cem anos, no episódio conhecido como Guerra das Malvinas. No mesmo ano, o México decretou moratória da dívida, marcando o início de uma crise de financiamento na região. Enquanto isso, no Brasil, a inflação superava 100% e o dólar valia 252 cruzeiros.
Nas últimas quatro décadas, a agência de classificação de risco testemunhou momentos de grandes turbulências na América Latina. O Brasil, por exemplo, poucos anos antes da inauguração da filial nacional, enfrentou, em 1990, uma inflação de 6.800%.
A Fitch chega aos 40 anos de América Latina em 2022 com uma bagagem significativa de conhecimentos. A experiência de navegar pelas águas turbulentas da região ao longo desse período ajudou a trazer um entendimento mais profundo sobre os ciclos econômicos. A expansão para os mercados da região também contribuiu para, em certa medida, “educar” o investidor internacional em relação às questões específicas das economias de cada país. “Pudemos criar o conhecimento e a capacidade de analisar a região através dos ciclos e entender como os próprios ciclos mudam”, afirma o chefe da Fitch na América Latina, Carlos Fiorillo.
“Nossa presença na América Latina começou em 1982, quando passamos a cobrir entidades no âmbito regional, sendo que uma delas estava no Brasil, no sistema financeiro”, conta. “A partir desse dia a gente passou a adquirir conhecimento importante sobre a região. Começamos a cobrir os mercados locais na maioria dos países da região e iniciamos essa atividade no Chile, porque o país havia criado um sistema de previdência privada que exigia uma cobertura local.”
Após a chegada à América Latina, a Fitch passou a avaliar e emitir ratings para transações locais nos principais mercados da região. “Os países da América Central estavam criando algumas regulamentações que também colocavam a necessidade de ter um escritório e o Peru desenvolveu o mercado de capitais no país”, lembra Fiorillo.
A operação brasileira começou em 1997, mas vários setores, como o de energia, já eram cobertos a partir da filial chilena. “O que temos feito desde 1982 foi basicamente consolidar a cobertura dos mercados latino-americanos com padrões globais”, explica o chefe regional da agência. Esse tipo de avaliação, comenta o executivo, é importante para a avaliação de investidores internacionais. “Nosso investimento foi garantir que fornecemos aos mercados locais o tipo de padrão global necessário em todo o mundo”, avalia.
Hoje a Fitch cobre mais de 2,5 mil entidades na região. “Nas últimas décadas vivenciamos várias crises, depreciação cambial e outras turbulências. Você acaba adquirindo a capacidade de entender os ciclos para compreender as economias e as características de cada mercado individual. Eu diria que tem sido o melhor conhecimento que temos tido. Uma conclusão é que a volatilidade é definitivamente a regra para a América Latina.”
O chefe da operação brasileira da Fitch, Rafael Guedes, rememora um episódio que revela esse aprendizado por parte da própria agência. “Lembro do meu primeiro comitê na Fitch, em 1999. Eu estava explicando a crise cambial, porque havíamos acabado de fazer [no Brasil] uma desvalorização maciça do real, e o comitê me disse: ‘você não precisa explicar que o Brasil tem fundos, porque sabemos e estamos acostumados com o Brasil em crise, e essa é só mais uma.”
Fiorillo pontua que a história da agência na América Latina ainda poderia ser considerada recente na comparação com a trajetória da Fitch, que tem 110 anos. “O mercado de capitais da América Latina é relativamente jovem quando comparado com os Estados Unidos”, observa.
No momento atual, Guedes explica que um cenário comum às economias da região é o crescimento significativo dos mercados domésticos. “Os investidores institucionais são cada dia mais relevantes e proeminentes na maioria dos países da região e os mercados de capitais estão mais profundos, com maior capacidade de fornecer financiamentos”, ressalta. “Essa foi a nossa missão desde o início, de fornecer aos emissores a capacidade de, por exemplo, iniciar uma jornada para obter financiamento no sistema bancário, e incentivar o mercado de capitais local.”
Um dos desenvolvimentos que a Fitch começa a perceber em mercados como o Brasil e outros na região é uma maior participação de empresas de menor porte nas captações. “Um desafio é fazer com que não só as grandes empresas participem do mercado de capitais, mas também as médias e pequenas empresas”, pondera Guedes. “Um financiamento alternativo melhor é definitivamente uma realidade que veremos ter um papel cada vez mais importante na próxima década.”
Para o chefe da Fitch na América Latina, “é realmente surpreendente a rapidez como o mercado de capitais vem se desenvolvendo no Brasil”. Em 1997, pondera Fiorillo, “o país era, basicamente, um mercado de classificação de instituições financeiras”. Guedes avalia que, após um período alguns anos atrás em que o governo era o principal devedor do país, “agora há cada vez mais espaço ao mercado de crédito privado”.
Conforme o chefe da filial brasileira, “nos últimos anos temos visto vários emissores de primeira viagem” chegando ao segmento de emissão de dívida corporativa privada. “Portanto, há um mercado de capitais vibrante, impulsionado também pelas taxas de juros baixas que tivemos nos últimos três anos, ainda que agora estejam altas de novo.”
Na visão de Fiorillo, “definitivamente o Brasil é um dos mercados mais atraentes da América Latina por diferentes motivos”. Conforme o executivo, além de ser a maior economia da região, “no lado global, os investidores sempre têm interesse em saber o que está acontecendo no país”. O chefe regional da agência pontua que o mercado local começa a se colocar como alternativa, em termos de volume de emissões e prazos, às operações internacionais. “Em conversa com empresas daqui com acesso ao exterior, elas dizem que, se houver um problema lá fora, o mercado local já é uma opção, com benefício de colocar [a operação] em moeda local.”
Fonte: Valor Econômico

