Por Christopher Rugaber — Associated Press, de Washington
12/01/2023 05h00 Atualizado há 6 horas
Há meses, a perspectiva para a economia dos EUA tem sido, primordialmente, sombria: maior alta da inflação em 40 anos, enfraquecimento dos gastos do consumidor e taxas de juros em elevação. A maioria dos economistas visualizava uma recessão para 2023.
Uma desaceleração econômica ainda é possível. Mas, nas últimas semanas, com a inflação mostrando amplos sinais de abrandamento, ganhou impulso uma visão mais otimista: talvez uma recessão não seja algo tão inevitável.
Um dos motivos para esse nascente otimismo são as evidências de que a aceleração dos salários nos EUA, que beneficiou os trabalhadores mas também elevou a inflação, está perdendo força. O presidente do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA), Jerome Powell, frequentemente citava a alta dos salários para explicar por que o Fed teve de elevar os juros de forma tão agressiva. O aperto monetário do Fed, se mantido por tempo e intensidade suficientemente longo, pode enfraquecer a economia a ponto de desencadear uma recessão.
Hoje deverá ser divulgado outro relatório apontando uma inflação branda, o que aumentará as expectativas de que o Fed possa fazer uma pausa na alta do juro antes do que se esperava. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho – pilar mais importante da economia – permanece notavelmente forte.
Essas tendências elevam as expectativas de que o Fed possa conseguir arquitetar um “pouco suave”, por meio do qual a economia desacelera, mas não entra em retrocesso, e em que a taxa de desemprego sobe ligeiramente, mas continua baixa. Ainda assim isso significaria tempos difíceis para muitas pessoas. Mas não instauraria o quadro de desemprego generalizado típico de uma recessão.
“Todos os sinais apontam para uma probabilidade maior, e não menor, de um pouso suave”, disse Alan Blinder, economista da Universidade de Princeton, ex-vice-presidente do Fed. ”Pode ainda não ser mais do que 50%-50%. Mas 50%-50% parece [um quadro] melhor do que há alguns meses.”
O sinal mais positivo, disse Blinder, é a desaceleração da inflação. A taxa caiu de um pico de 9,1% ao ano em junho para um patamar ainda elevado de 7,1% em novembro. Espera-se que o dado de inflação de dezembro mostre um recuo da taxa para 6,5%, preveem economistas. Em termos mensais, estima-se que os preços ficaram inalterados de novembro a dezembro – em mais um sinal animador.
A desaceleração da inflação decorre de uma série de fatores, entre os quais a queda nos preços da gasolina, a superação de gargalos das cadeias de suprimentos e a redução da margem de lucro por muitos varejistas. O preço médio dos automóveis usados, que disparou 37% em 2021, caiu por cinco meses seguidos e agora está 3% mais baratos do que um ano atrás. Os preços do vestuário recuaram em dois dos últimos três meses, enquanto os dos móveis diminuíram por três meses consecutivos.
Nesse meio tempo, os consumidores passaram a gastar menos, o que obrigou muitos varejistas a dar descontos para reduzir estoques. Os preços praticados no comércio on-line caíram por quatro meses seguidos em termos anuais, segundo a Adobe Analytics, principalmente de computadores, brinquedos e artigos esportivos.
“Quanto antes a taxa de inflação cair”, disse Blinder, “mais cedo o Fed vai afrouxar [a política monetária], e portanto menor será a probabilidade de uma recessão”.
Mesmo assim, há muitas ameaças a um pouso suave. Com a economia da China se reabrindo após os lockdowns contra a covid-19, o país começará a consumir mais petróleo, o que poderá voltar a elevar os preços da gasolina nos EUA.
Embora as demissões continuem historicamente baixas, desconsiderando-se as empresas de tecnologia, essa tendência poderá se reverter se as empresas voltarem a se afligir com relação à perspectiva econômica. O Congresso americano também pode ter dificuldades em elevar o teto da dívida até o terceiro trimestre deste ano, e isso poderá causar turbulência na economia, ou uma recessão profunda, caso não consiga tomar a medida.
Mas, por enquanto, começa a despontar um cenário de pouso suave. A desaceleração dos aumentos de preços sugere que as sete altas das taxas de juros promovidas pelo Fed no ano passado tiveram algum efeito, embora, com a inflação se revelando ainda bem acima de sua meta de 2%, as autoridades americanas tenham deixado claro que preveem aumentar sua taxa básica de juros em pelo menos mais 0,75 de ponto percentual.
Apesar de o BC americano ter elevado o juro no ritmo mais rápido em 40 anos, a economia do país continuou a crescer e as empresas a contratar. Em dezembro foram criados mais 223 mil novos empregos, e a taxa de desemprego voltou a cair para 3,5%, equiparando-se à mínima recorde de 53 anos.
“Os dados do mercado de trabalho sustentam a ideia de que a economia poderá… desacelerar sem recessão”, disse Mark Zandi, economista da Moody’s Analytics.
Há sinais de avanço nas três áreas identificadas por Powell como principais impulsionadoras da inflação: automóveis, móveis e outros produtos físicos; imóveis residenciais e aluguéis; e viagens, assistência médica, refeições em restaurantes e outros serviços.
Os preços dos produtos caíram com o fim dos congestionamentos de transporte marítimo observados durante a pandemia. E, embora os custos dos aluguéis e dos imóveis residenciais ainda estejam pressionando a inflação, há boas notícias também nesse setor: dados provados mostram que os aluguéis de novos apartamentos estão aumentando em ritmo mais lento. Essa desaceleração poderá se refletir nos dados oficiais dos aluguéis já no terceiro trimestre.
Powell se concentrou, em especial, na ameaça de inflação da pressão salarial. Restaurantes, varejistas, hotéis e consultórios médicos tiveram de elevar significativamente os salários para atrair e manter funcionários.
Mas, mesmo nesse setor, há sinais de desaceleração. O relatório de empregos de dezembro mostrou que os salários aumentaram 4,6% ao ano, bem abaixo do pico de 5,6% registrado no segundo trimestre de 2022. O Fed espera desacelerar o ritmo dos aumentos salariais para mantê-los compatíveis com uma inflação mais baixa.
Essa desaceleração é ainda mais pronunciada em muitos setores de serviços. O salário médio no setor de lazer e de hospitalidade, que inclui restaurantes, hotéis e empresas de entretenimento, cresceu 6,4% no ano passado, a metade do aumento registrado em 2021. O salário médio dos trabalhadores do varejo também caiu.
“Passamos há muito o pico dos aumentos salariais mensais”, disse Claudia Sahm, ex-economista do Fed e fundadora da Sahm Consulting. Ela também observou que a elevação dos salários nem sempre se traduz em aumento dos preços, pois as empresas podem elevar a eficiência dos funcionários ou encontrar outras fontes de economia para compensar a alta do salário.
O número de trabalhadores temporários caiu por cinco meses seguidos. E a extensão da semana de trabalho média se reduziu em dezembro. Ambos os sinais indicam que as empresas estão menos desesperadas por mão de obra.
O fato de muitas empresas terem reduzido as semanas de trabalho, em vez de fechar vagas, sugere que elas querem reter seus funcionários mesmo se a economia desacelerar. Por causa das dificuldades em contratar funcionários nos últimos dois anos, agora muitas empresas relutam em demitir.
“É assim que se consegue um pouso suave”, disse Ron Hetrick, economista-sênior da empresa de análise de dados Lightcast. “Dizendo aos funcionários que você não vai produzir tanto. Mas isso não significa se livrar deles.”
Fonte: Valor Econômico
