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A percepção de que os riscos à trajetória das contas públicas não têm diminuído, junto com um cenário internacional de pressão elevada sobre os mercados emergentes com a alta dos rendimentos dos Treasuries, levou à continuidade do estresse nos ativos locais ontem. Nesse contexto, o dólar registrou alta firme contra o real e encerrou o dia negociado a R$ 5,65, maior nível desde janeiro de 2022. A depreciação cambial, por sua vez, se espalhou para os juros e já faz o mercado embutir nos preços cerca de 1,25 ponto percentual de alta da Selic ainda neste ano.
Os últimos dias têm sido marcados por um movimento contínuo de piora nos ativos. Em meio à cautela com a condução da política econômica do governo e diante da sensação de que não há, por parte dos políticos, um senso de urgência para endereçar as questões fiscais, os níveis de prêmios nos ativos vêm aumentando de forma rápida.
Ontem, o dólar avançou 1,15% contra o real, em sua quinta sessão consecutiva de elevação, e fechou negociado a R$ 5,6527. Já o euro comercial encerrou com valorização de 1,43%, a R$ 6,0704. No fim da tarde, o real também exibia recuo frente a outras divisas emergentes, caindo 0,65% ante o peso mexicano; 1,59% contra o colombiano; e 2,24% contra o chileno.
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O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, atribuiu a alta a “ruídos de comunicação” e disse que o governo precisa comunicar melhor os resultados obtidos na economia. Questionado se seria hora de o Banco Central intervir no câmbio, disse que esse é um assunto da autoridade monetária, “e eles lá que sabem quando e como fazer”.
Depois de o dólar encerrar o primeiro semestre com valorização superior a 15% contra o real, havia uma expectativa de que o estresse observado na sexta-feira estivesse ligado ao fim do semestre, diante de um ajuste de posições e da formação da Ptax de fim de mês. A sessão de ontem colocou essa visão em xeque.
Para o gerente de tesouraria do Daycoval, Otávio Oliveira da Silva, a questão a ser respondida é onde vai acabar a escalada do dólar. “Agora vamos ficar testando patamares. Se continuar esse teste de cenários especulativos, pode ser que em algum momento efetivamente o BC entre para dar uma arrefecida nos ânimos. Ainda que seja difícil cravar quando isso vai acontecer.”
Na visão do profissional, o mercado está tendo dificuldade de encontrar um nível para o dólar que seja factível com as expectativas. “Por ora, há cautela, e cautela em um ambiente de incerteza local muitas vezes se traduz em comprar dólar.”
A pressão oriunda do câmbio acabou se espalhando para o mercado de juros futuros. Assim, a parcela inicial da curva, mais sensível às perspectivas da política monetária, sofreu forte pressão de alta.
No fim do dia, a taxa do contrato a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2025 subiu de 10,735% no ajuste anterior para 10,835%, enquanto a do DI para janeiro de 2026 avançou de 11,55% para 11,77%.
Nesse contexto de depreciação acelerada dos ativos locais, o mercado já trabalha com uma Selic superior a 11,75% no fim de 2024 – o que equivaleria ao BC elevar em 1,25 ponto percentual a Selic até dezembro. Já no mercado de opções digitais de Copom, os agentes passaram a aumentar as apostas no cenário de alta de juros já na reunião de julho. Ontem, a probabilidade de alta de 0,25 ponto passou de 3% para 10%, a de elevação de 0,50 ponto saltou de 8% para 15% e a de manutenção caiu de 85% para 71%.
“Foi um dia de parar e revisitar as últimas comunicações do BC. Não é o nosso cenário-base ainda, mas as perguntas precisam ser feitas. Ainda temos quase 20 dias úteis para o próximo Copom e isso é quase longo prazo no Brasil, mas, se a reunião fosse amanhã, eu entendo que o BC teria que se abrir para a possibilidade de ter que subir os juros. A princípio, acredito que a autoridade comunicaria que o balanço de riscos ficou assimétrico, o que seria o primeiro passo para uma alta de juros”, afirma o estrategista-chefe da BGC Liquidez, Daniel Cunha.
Na visão do profissional, o dia 22 de julho, quando o Tesouro Nacional anuncia o Relatório de Avaliação Bimestral do terceiro bimestre, será fundamental para entender o compromisso do governo com a trajetória dos gastos e com o próprio arcabouço fiscal. “A expectativa é que ali apareça um contigenciamento da ordem dos R$ 20 bilhões. A ver se a realidade política vai permitir, mas é crescente a pressão para esse evento. Esse desconforto nos mercados tende a permanecer até que a gente tenha alguma tendência de inflexão no componente fiscal”, afirma Cunha.
Descolado dos demais ativos locais, o Ibovespa conseguiu fechar o dia em alta, apoiado, primordialmente, por empresas exportadoras, que se aproveitam do patamar elevado do dólar. Não obstante, a fraqueza do real também exerceu pressão negativa, na medida em que afetou a curva de juros e, consequentemente, as empresas sensíveis às taxas. No fim do dia, o índice subiu 0,65%, aos 124.718 pontos.
Para analistas do BTG Pactual, a deterioração dos ativos locais pode ser atribuída ao que acreditam ser uma crise de confiança fiscal e monetária. “A decisão unânime do Copom pode ter restabelecido alguma confiança, mas uma recuperação total só deve ocorrer após a nomeação do novo presidente do BC. Do lado fiscal, esperamos que o governo anuncie um congelamento de despesas em julho, mas mudanças estruturais só devem acontecer depois das eleições municipais.”
Diante da pressão exibida pelo dólar, operadores vêm debatendo se o BC deveria promover algum tipo de intervenção no mercado cambial para arrefecer a pressão compradora da moeda americana.
Cunha, da BGC Liquidez, avalia que a discussão, neste momento, é secundária. “A utilização de intervenção cambial como instrumento de política econômica eu acho que já superamos. Ela poderia ocorrer diante de uma disfuncionalidade do mercado de ordem transacional e ninguém mapeia isso melhor do que a própria mesa de câmbio do BC. Os próprios membros do Copom têm negado essa possibilidade. Não é esse o problema central pelo qual atravessam os ativos locais.”
Os dados da B3 voltaram a mostrar elevação no patamar de apostas do estrangeiro contra o real. A posição comprada em dólar está perto de US$ 82 bilhões, ainda que algum ajuste de virada de mês possa corrigir tal valor. Na contraparte, o investidor local elevou sua posição vendida em dólar a US$ 7,5 bilhões, número passível de ajuste devido à mudança de mês.
Fonte: Valor Econômico
