Em meio a um mercado competitivo e fragmentado, grandes cadeias de alimentação voltaram a avaliar oportunidades de compra e venda, indicando uma nova onda de consolidação no setor.
Com o fundo Mubadala à frente dos negócios, a Zamp, que opera Burger King e Popeye’s no Brasil, comprou as operações da Starbucks e deverá colocar novas marcas em seu guarda-chuva, segundo fontes do mercado financeiro. Em comunicado divulgado ao mercado na sexta-feira (28), a própria companhia confirmou que está “avaliando a oportunidade de desenvolvimento da marca Subway no Brasil”. Assim como a Starbucks, a rede de lanchonetes também era controlada pela gestora SouthRock, do empresário Kenneth Pope, que está em recuperação judicial desde novembro passado.
A Vinci, maior acionista da Domino’s no país, também voltou a olhar ativos nesse segmento, apurou o Valor. A gestora chegou a vender sua participação na rede de pizzaria para o próprio Burger King em 2021, mas o negócio foi desfeito em poucos meses devido a discordâncias entre acionistas. Como private equity, a Vinci poderá se desfazer do ativo, mas antes da venda, a gestora não descarta fazer uma aquisição, afirma uma fonte.
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Quem também já anunciou que avalia alternativas para as operações no Brasil, incluindo a venda, é a Bloomin’ Brands, dona das redes Outback e Abraccio. Há cerca de dois anos, a companhia passou a analisar a entrada de um sócio, e depois de um comprador para todo o negócio. Mas a falta de propostas concretas, em meio a incertezas do mercado com o setor de cadeias de alimentação, tem adiado os planos da companhia.
Em nota, a empresa diz que embora não haja garantias de qualquer ação relacionada a busca de alternativas para suas operações no Brasil, “ela pode incluir, mas não se limitar, a uma possível venda”. “Reforçamos que o Outback permanece no Brasil, e atualizações sobre o assunto serão divulgadas no momento apropriado.”
“Passada a turbulência da pandemia, as empresas buscaram otimizar a estrutura de custos e acelerar o crescimento, seja abrindo novas lojas ou fazendo M&As [fusões e aquisições]”, afirma Luiz Guanais, analista do BTG Pactual. Para Guanais, o movimento faz ainda mais sentido se considerarmos a realidade do “fast food” no país, que além de ter uma penetração baixa, em comparação com outros mercados, é bastante fragmentada entre “players” regionais.
Nesse contexto, as companhias estão abertas para aproveitar oportunidades estratégicas para suas operações, a exemplo do que fez a Zamp com a Starbucks, avalia o analista.
Após sete meses de negociações com a matriz americana, a Zamp no Brasil chegou a um acordo para comprar os ativos da rede de cafeterias no país por R$ 120 milhões. Até então, a Starbucks era administrada pela SouthRock. A operação ainda depende de autorização da administradora judicial da gestora, assinatura de acordo definitivo com o Starbucks e aprovação pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Em relatório divulgado recentemente, o Bradesco BBI projetou que, com a fusão, a Zamp chegaria a 1.569 lojas no país, sendo 135 da Starbucks, receita líquida de R$ 4,3 bilhões, lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) de R$ 622 milhões e alavancagem de 2,6 vezes a razão entre a dívida líquida e o Ebitda.
Apesar do momento desafiador que enfrenta no Brasil, há um consenso no mercado de que a Starbucks é um negócio lucrativo e que a situação da marca no país é resultado de escolhas equivocadas da então gestão.
Poucos dias depois, a Zamp comunicou a chegada de Paulo Sergio de Camargo para assumir a presidência no lugar de Ariel Grunkraut, que foi um dos sócios-fundadores da empresa e ocupou o cargo por dois anos. Camargo atuou como diretor-presidente da Espaçolaser e, antes disso, liderou a divisão Brasil da Arcos Dorados, que controla as operações do McDonald’s no país, e é uma das principais concorrentes da Zamp.
Para Felipe Cassimiro, analista sênior de varejo e bens de consumo do Bradesco BBI, a força da Zamp e a bagagem de Camargo podem trazer o que falta para “tropicalizar” a operação e fazê-la dar certo. “Agora tem que operacionalizar o negócio. Provavelmente vai ter muita dor no curto prazo, mas no futuro tem tudo para ser uma combinação poderosa”, avalia.
Essa será a prioridade da companhia, mas fontes a par do assunto acreditam que o movimento de consolidação da controladora do BK não deve parar por aí. “O Mubalada acha que dá para colocar outras marcas dentro desse guarda-chuva”, diz uma fonte de banco de investimentos. “Ele [o Mubadala] deve estar olhando todas as oportunidades para a Zamp”, complementa outra fonte da Faria Lima.
Há quem faça um paralelo da rede brasileira com a Alsea, companhia mexicana que opera o Burger King, a Starbucks, a Domino’s e outras dez marcas em países da América latina e da Europa, se posicionando como uma “house of brands” de cadeias de “fast food”.
“A Zamp pode agregar marcas complementares ao longo do tempo, como fez com Popeye’s”, afirma Guanais, do BTG. “Se vai chegar no nível da Alsea ainda acho muito cedo para falar”, avalia. Procurada, a empresa disse que, por enquanto, não se manifesta sobre o tema.
Quem tentou se posicionar dessa forma há alguns anos foi a IMC, dona de oito operações no Brasil, incluindo KFC, Pizza Hut e Frango Assado. “Eles reuniram uma série de marcas tentando aproveitar alguns espaços no mercado. Algumas funcionaram, outras não”, relembra Guanais.
Diante dos desafios operacionais, nos últimos anos o grupo realizou uma série de desinvestimentos, tanto no mercado local, como a venda da Olive Garden, quanto globalmente, vide a saída do Caribe, visando focar nas operações mais lucrativas: Pizza Hut, KFC e Frango Assado. Atualmente a rede tem 569 lojas no Brasil e Estados Unidos. Apesar do esforço, o resultado ainda não foi visto em sua totalidade no balanço, que no primeiro trimestre teve prejuízo de R$ 76,2 milhões, revertendo lucro líquido de R$ 122,6 milhões.
Segundo uma fonte a par do assunto, os números estão melhorando gradativamente, mas o mercado ainda tem um “pé atrás” em função do histórico. Ela acrescenta que a empresa pode inclusive voltar a fazer aquisições no futuro, dessa vez com mais estratégia.
Procurada, a IMC diz que, após três anos no processo de transformação, a estratégia “continua focada no aumento de sua eficiência operacional e na expansão de suas marcas existentes, sempre respeitando a disciplina financeira que vem pautando as decisões da empresa nos últimos anos”.
Fonte: Valor Econômico
