O financiamento da infraestrutura de inteligência artificial deixou de ser um tema setorial e passou a ser o principal vetor de risco e de oferta do mercado de crédito global. A avaliação é de Amanda Lynam, responsável pela área de Credit Strategy Research do Goldman Sachs, e de Zach Ablon, da mesa de vendas de crédito da divisão de Global Banking & Markets do banco, em episódio do podcast Goldman Sachs Exchanges gravado em 3 de agosto de 2026 e conduzido por Allison Nathan.
Segundo Lynam, é difícil superestimar a relevância do tema, tanto pela escala da oferta quanto pelo caráter plurianual das emissões — característica incomum no mercado de crédito. Ciclos anteriores de realavancagem costumavam ser curtos e localizados, associados a fusões e aquisições financiadas por dívida, a aquisições isoladas ou à recapitalização dos bancos ligada às exigências de TLAC alguns anos atrás. O ciclo atual é distinto: os analistas de ações do banco projetam gastos de capex relacionados à IA na casa dos trilhões de dólares nos próximos anos.
O ponto central é que o capex está se aproximando rapidamente do fluxo de caixa operacional das companhias, abrindo espaço estrutural para o mercado de dívida. Lynam ressalva que há incerteza significativa sobre o tamanho desse papel, que dependerá da velocidade de aceleração da geração de caixa do setor. O banco, contudo, não vê risco de acesso a capital para o tema — a discussão, na sua visão, migra para onde tomar o risco e a que preço.
Volumes e composição da oferta
O movimento começou em 2025, quando o grupo de hyperscalers emitiu US$ 108 bilhões em dívida globalmente. No acumulado de 2026, o volume já alcança US$ 194 bilhões. As companhias seguem com caixa em balanço e com fluxo de caixa operacional amplo em relação ao capex, mas, na leitura de Lynam, estão se antecipando de forma adequada a um ciclo de investimento plurianual — algo que ela descreve como uma “cascata de capital”, em que dívida, ações e caixa próprio são acionados em sequência para esgotar a profundidade de cada mercado.
Um dado qualifica a dimensão do fenômeno: o Goldman Sachs monitora cerca de US$ 500 bilhões em emissões relacionadas à IA no ano, e os hyperscalers respondem por apenas 40% desse total. Ou seja, a oferta não vem apenas das grandes plataformas, mas de todo o ecossistema — o que torna a exposição concentrada em um único tema, e não em um único setor.
Por que dívida em vez de ações
Lynam atribui a preferência pelo mercado de bonds ao perfil de crédito do setor: ratings elevados e alavancagem baixa deixam espaço amplo para adicionar dívida à estrutura de capital sem comprometer o acesso ao mercado investment grade (IG). Há precedentes em farmacêuticas e telecomunicações, setores que elevaram alavancagem de forma estratégica.
Na revisão feita pelo banco, as comunicações das companhias mencionam balanços fortes e resilientes, mas não apontam ratings específicos nem metas de alavancagem — o que, segundo a estrategista, abre caminho para adições táticas de dívida. Mesmo um custo de capital marginalmente mais alto tende a ser acretivo frente aos objetivos de ROIC divulgados. A escolha entre dívida e ações, acrescenta, é específica de cada emissor e depende da visão sobre o próprio preço da ação.
Indigestão do mercado e efeito duration
Do lado da demanda, Ablon relata sinais claros de saturação. O basket de líderes de IA construído pelo banco saiu de um patamar mínimo de 74 pontos-base nos últimos 12 meses para praticamente o dobro desse nível — o mercado, portanto, já precificou o desconforto.
No mercado primário, o padrão se repete. No primeiro trimestre, grandes operações ligadas à IA atraíam cerca de 15 clientes do setor de seguros para o trecho de 30 anos, com ordens acima de US$ 50 milhões cada. No fim do segundo trimestre, esse número caiu para aproximadamente a metade. Ablon associa a retração a desempenho, limites de concentração por nome e à percepção de que o capex continua sendo revisado para cima.
A mudança na composição do índice IG ilustra a velocidade do processo. As emissões relacionadas à IA representaram US$ 10 bilhões, ou 1% da oferta, em 2024; subiram para cerca de 7% em 2025, com os US$ 108 bilhões; e chegam a aproximadamente 18% em 2026. No trecho acima de 15 anos, a participação alcança 40% da oferta IG do ano. A Amazon passou a ser o maior peso em duration do índice IG, contra a 20ª posição no ano anterior, enquanto a Google saiu da 86ª para a 18ª colocação. O mercado tem absorvido melhor prazos de até 10 anos; para 30 anos, Ablon usa a própria trajetória da Amazon — que vendia livros online três décadas atrás — para explicar a resistência dos investidores a apostas tão longas.
Projeções e o limite de absorção
Em lugar de fixar um valor absoluto, o Goldman optou por projetar a fatia do capex financiada por dívida. Os US$ 108 bilhões de 2025 equivaleram a 27% do capex dos hyperscalers; para 2026, a estimativa é de cerca de um terço, o que implica algo próximo de US$ 250 bilhões de oferta direta. O pico é esperado em 2027, com 35% do capex financiado por dívida — reflexo da defasagem de três meses a dois anos entre investimento e monetização apontada pelas próprias companhias.
Um exercício do banco elevando os hyperscalers a 2 vezes dívida líquida ou 3 vezes dívida bruta — níveis que Lynam considera compatíveis com rating IG — indica capacidade adicional de dívida da ordem de US$ 2 trilhões. Esse não é, porém, o fator limitante. A restrição efetiva é a capacidade de absorção do mercado IG americano.
Como referência, o banco usa os três maiores emissores do índice, todos bancos americanos: pelo índice da Bloomberg, nenhum tem mais de US$ 175 bilhões em dívida elegível nem representa mais de 2,3% do índice. Igualar os hyperscalers a esse patamar geraria US$ 510 bilhões de capacidade incremental. Parte dos clientes institucionais, relata Lynam, considera a comparação generosa por dois motivos: a exposição em ações ao setor de tecnologia é bem superior à exposição a bancos, o que reduz o apetite adicional por dívida do tema; e emissões longas não são intercambiáveis com emissões curtas na avaliação de risco. Ainda assim, ela vê espaço relevante em 2026 e ao longo de 2027.
Como investidores de crédito não participam do upside acionário, a atenção a limites de concentração e saturação é maior. Em high yield há índices que limitam a exposição a 2% ou 3%; em IG não existe teto formal, mas a convenção é observada.
Quem preenche o vácuo
Para Lynam, os mercados privados farão o trabalho mais pesado, sustentados por US$ 4,5 trilhões de dry powder somando crédito privado, infraestrutura, real estate e private equity globalmente. As fronteiras entre estratégias estão se diluindo: financiamentos de data centers já aparecem classificados como crédito privado, venture debt e private equity.
Mercados fora dos Estados Unidos também devem contribuir — os hyperscalers já emitiram em dólar canadense, libra, dólar australiano e iene —, com o mercado europeu ainda subcontribuindo. Somam-se estruturas novas, incluindo project finance de data centers e financiamentos de chips acessando o mercado de bonds corporativos IG. Arun Manohar, colega de Lynam, aponta o universo de crédito estruturado, especialmente ABS, como canal potencial após a conclusão dos data centers.
Alavancagem além do IG
O tema também alcança high yield e o mercado de leveraged loans. As operações de project finance e data centers devem somar US$ 300 bilhões em 2027, além da emissão direta dos hyperscalers. Em high yield, a participação da IA na oferta do ano é semelhante à do IG, próxima de 18%, com operações de vários bilhões de dólares que elevaram o tamanho médio das transações e estruturas concentradas em cinco anos.
Ablon observa que o high yield resistiu enquanto os hyperscalers abriam spread, mas passou a acompanhar o movimento na última semana: 17 das 23 operações de joint venture de data centers negociam acima dos yields de originação. O universo BB fechou a sexta-feira em 165 pontos-base sobre o benchmark, enquanto operações de data centers com wrapper IG chegam significativamente mais largas — o que, na sua leitura, deixa o BB parecendo caro.
O que monitorar
Ablon aponta o capex como variável-chave, com foco na segunda derivada: o momento em que as revisões param de acelerar. Ele alerta contra a leitura de que crédito seria um hedge naturalmente assimétrico ao tema. Em cenário de desaceleração do capex, é possível ver as ações dos hyperscalers subirem e os spreads de crédito fecharem de forma expressiva. Outro indicador é o prêmio de nova emissão, que saiu de 2 a 3 pontos-base antes da indigestão recente para até 20 pontos-base em uma operação de grande porte.
Lynam observa que o mercado de crédito financia melhor ciclos de realavancagem com fim visível e quantificável, em que as companhias possam crescer para dentro da estrutura de capital. Para ela, o tema é administrável apesar da escala inédita, mas exige mais granularidade sobre o roadmap de emissões — compromissos de ausência do mercado por alguns trimestres, por exemplo, dariam confiança aos investidores. E reforça: o desafio não se restringe aos hyperscalers, mas ao ecossistema de IA como um todo.
Fonte: Goldman Sachs Exchanges, “How AI Debt Is Reshaping Credit Markets”, com Amanda Lynam (Credit Strategy Research) e Zach Ablon (Global Banking & Markets), apresentado por Allison Nathan. Gravado em 3 de agosto de 2026.

