O endividamento dos EUA pode levar a uma restrição de liquidez global, disse o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, durante apresentação na Associação Comercial de São Paulo. Segundo o dirigente, não é um risco de curto prazo, mas que tem sido monitorado pela autoridade monetária. “Quando a gente olha a dívida dos Estados Unidos, ficou em décadas entre 30% a 50% do PIB, depois foi para 60%, mas começa a subir a partir de 2008. De lá para cá é uma subida que é quase uma linha reta.”
Segundo Campos Neto, o endividamento americano saiu de um padrão histórico de 50% do PIB para 180% atualmente. “Mas não é só a dívida mais alta, mas agora o custo da dívida subiu muito. Os juros nos Estados Unidos saíram de perto de zero para um patamar em torno de 4% a 5,5%. Os países desenvolvidos que gastaram muito na pandemia, como Europa, Estados Unidos e outros, tinham juros muito perto de zero e agora não mais. Então têm um bolo de dívida muito maior, mas um custo de juros muito maior também.”
Campos chamou a atenção para um risco “oculto” representado pelo chamado “shadow banking”, ou seja, o sistema financeiro paralelo, fora dos bancos.
“Entre os grandes riscos do mundo hoje tem [uma questão no] sistema de crédito. Nos Estados Unidos, grande parte do crédito não está mais no sistema bancário. Cerca de 40% do crédito americano não está mais nos bancos, está no que a gente chama de ‘shadow banking’. Isso é perigoso, porque o BC não consegue regular quem não está no sistema de crédito. Então você começa a ter um problema de ter uma alavancagem que não se está vendo.”
Os riscos geopolíticos têm crescido e podem afetar o processo desinflacionário, afirmou o presidente do BC. “Um dos riscos da desinflação é que as tensões geopolíticas começaram a imprimir de novo um certo custo nessa parte da oferta”, disse.
“A desinflação teve uma parte que foi da oferta. Durante a pandemia, houve interrupção parcial da logística [global]. Os preços dos semicondutores subiram. Agora já caíram de novo. Mas agora as tensões geopolíticas começaram a imprimir de novo um certo custo nessa parte da oferta. Tem muito produto hoje que já não é nem mais enviado, porque essa rota maior [pelo Atlântico Sul para evitar os ataques houtis no Mar Vermelho] faz com que o produto fique muito caro.”
Para Campos Neto, “esse tema geopolítico começou a afetar um pouco a logística mundial e começou a afetar também preço de alguns de alguns componentes”.
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O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Fonte: Valor Econômico


