Empresas com maior percepção de risco de crédito, conhecidas no mercado financeiro como “high yield” (alto risco e retorno), ampliaram sua presença no mercado local de renda fixa.
A expansão se dá em um cenário de juros elevados por período prolongado, que corrói a geração de caixa das companhias. Em dois anos, o número de debêntures enquadradas nessa categoria saltou de 75 para 135, o que representa uma expansão de 80%.
Levantamento da FTI Consulting elaborado para o Valor mostra que esse crescimento se deu em ritmo muito superior ao do mercado de debêntures como um todo, que avançou 24% no mesmo período. A consultoria considera como “high yield” os títulos que são negociados a uma taxa superior a CDI mais 2,5 pontos percentuais.
O estudo mostra ainda que, olhando em retrospecto, cerca de 30% dos emissores classificados nessa categoria acabaram recorrendo posteriormente a algum tipo de reestruturação financeira, seja por meio de recuperação judicial ou extrajudicial, seja por iniciativas de gestão de passivos, como aumento de capital ou venda de ativos.
Segundo fontes de mercado ouvidas pelo Valor, quando uma empresa passa a negociar títulos em patamar considerado high yield, seu custo de captação sobe rapidamente, tornando muito mais difícil acessar novamente o mercado de dívida. Na prática, uma companhia que emitiu debêntures a CDI mais 2,5% dificilmente conseguirá realizar uma nova oferta nessa mesma taxa se seus papéis já estiverem sendo negociados no mercado secundário a CDI mais 10%, por exemplo. Nesse cenário, investidores tendem a preferir comprar os títulos já existentes, que oferecem remuneração maior, reduzindo significativamente o espaço para novas emissões e dificultando a rolagem do endividamento.
Entre os emissores que hoje negociam debêntures em níveis considerados de maior risco aparecem Raízen, GPA e Kora Saúde, todas em recuperação extrajudicial. Também figuram companhias como a CSN, que busca reduzir sua alavancagem por meio da venda de ativos, além de Hapvida, Alloha Fibra e Origem Energia, cujos títulos passaram neste ano a refletir maior percepção de risco no mercado secundário.
A Ambipar, embora esteja em recuperação judicial, não integra esse universo por concentrar sua exposição no mercado internacional de dívida, e não no mercado doméstico de debêntures.
Por trás desse movimento, também está a crescente importância do mercado de capitais no financiamento das empresas brasileiras. Nos últimos anos, esse mercado passou a responder por um volume de crédito superior ao concedido pelos bancos, ampliando também a exposição dos investidores ao risco de crédito corporativo.
Para Gabriel D’Agostini Paula, diretor da FTI Consulting e responsável pelo estudo, o crescimento do grupo de debêntures high yield foi desproporcional em relação à expansão do mercado de dívida corporativa. Na avaliação dele, a tendência é que esse movimento continue enquanto o ambiente de juros permanecer restritivo.
“O número de debêntures high yield deverá continuar crescendo”, afirma.
De acordo com o levantamento, os setores de energia, saneamento e logística concentram atualmente o maior número de debêntures classificadas nessa categoria. Os segmentos imobiliário e do agronegócio aparecem menos porque boa parte das empresas desses setores utiliza instrumentos específicos, como certificados de recebíveis imobiliários (CRI) e certificados de recebíveis do agronegócio (CRA).
Paula ressalta que a amostra também inclui empresas que operam estruturalmente com níveis mais elevados de alavancagem em razão das características de seus negócios e dos ciclos de investimento. Nesses casos, a classificação como high yield não significa, necessariamente, deterioração financeira. Ainda assim, o ambiente de juros elevados pressiona a geração de caixa e encarece novas captações.
Segundo Eduardo Parente, diretor da FTI Consulting, a mudança no perfil do mercado de renda fixa também transformou a atuação dos credores. Na avaliação dele, os debenturistas chegam hoje mais preparados às negociações decorrentes do aumento dos processos de reestruturação empresarial.
Roberto Zarour, sócio da área de reestruturação do Lefosse, avalia que o cenário continuará desafiador para empresas mais alavancadas. “O segundo semestre promete muita reestruturação, com empresas ainda alavancadas, juros elevados por mais tempo e um ambiente econômico desafiador”, diz.
Já o sócio do Pinheiro Neto Advogados Luiz Fleury pondera que o aumento dos spreads no mercado secundário não reflete apenas a piora do risco de crédito de determinadas companhias, mas também um ajuste natural após a forte compressão das margens observada no ano passado. “Essa movimentação é saudável e mostra um mercado mais desenvolvido”, diz. Segundo ele, há alguns anos o mercado secundário ainda tinha pouca profundidade e os preços nem sempre refletiam adequadamente a qualidade de crédito das empresas.
Procuradas pelo Valor, as empresas citadas na reportagem não se manifestaram.
Fonte: Valor Econômico
