Em uma corrida para acessar o mercado de dívida americano, o volume captado no primeiro bimestre de 2025 por nomes brasileiros já representa a metade do que foi levantado em todo o ano passado. Com nove operações de empresas e uma do Tesouro Nacional, foram US$ 10,4 bilhões emitidos até o momento.
O volume nos dois primeiros meses do ano também já supera o do primeiro trimestre de 2024, quando as ofertas somaram US$ 10 bilhões. A projeção é que o ano possa chegar a um volume de US$ 30 bilhões.
Segundo fontes de mercado consultadas pelo Valor, a tendência é que em março, após o Carnaval, a atividade siga robusta, com uma operação já no calendário para ser lançada na semana que vem. A XP deve ser um dos próximos nomes a lançar papéis, como a própria companhia informou em teleconferência com analistas neste mês.
Além de taxas que se mostraram atrativas aos emissores, com a normalização dos mercados após a posse de Donald Trump, o movimento também reflete a maior seletividade no mercado local, depois de um período recorde para as emissões de renda fixa e de aperto nas taxas. “O mercado está mais balanceado entre o local e internacional”, afirma o responsável pela área de dívida no Morgan Stanley no Brasil, Gustavo Siqueira.
Para Samy Podlubny, do UBS BB, o “soluço” no mercado de debêntures em dezembro não foi nada parecido com o visto na crise no pós-Americanas, mas fez as companhias lembrarem que o mercado local pode enfrentar percalços. “Mais empresas passaram a cogitar o mercado externo como uma forma de endereçar de uma vez a necessidade de recursos do ano”, afirmou.
No mercado secundário lá fora, os spreads dos ativos brasileiros voltaram a se aproximar dos patamares de antes de dezembro, quando a piora das expectativas mexeu com o preço das dívidas, diz Caio de Luca Simões, chefe do mercado de dívida do Bank of America (BofA) no Brasil. “Os emissores voltaram a ficar animados com o mercado lá fora e encontraram um forte apetite dos investidores”, disse.
Janeiro foi menos movimentado do que costuma ser. Se historicamente as captações de nomes brasileiros representam cerca de um terço das ofertas da América Latina, em janeiro essa participação caiu a 13%. Agora em fevereiro, a participação aumentou para 35%, considerando apenas operações em dólar, segundo Miguel Diaz, responsável pela área de dívida externa do Santander Brasil. “Foi um mês intenso, com o pelotão de elite dos emissores reagindo rapidamente à estabilização das condições de mercado”, diz.
Parte disso foi porque a posse de Trump fez o mercado ficar em compasso de espera, com receio do impacto de possíveis mudanças em tarifas, mas as medidas acabaram sendo mais brandas que o esperado, lembra Felipe Thut, diretor de renda fixa do Bradesco BBI. “Fora isso, há um movimento de forte liquidez no mercado americano, que provocou uma redução dos spreads de títulos de empresas de lá e fez com que os investidores olhassem para outros mercados, como o brasileiro”, diz.
Segundo Thut, os emissores brasileiros estão captando com spreads sobre os Treasuries (taxas dos títulos de dívida do governo americano) mais apertados do que os vistos em 2024. Ele acredita em novas operações ainda nesta temporada, que deve ser encerrada entre abril e maio. “Esse mercado é de ondas, então agora há outros emissores olhando para ele. À medida que os resultados financeiros do quarto trimestre forem divulgados, outros nomes podem se animar”, diz Diaz, do Santander.
No total, foram seis captações em fevereiro. A Embraer emitiu US$ 650 milhões com taxa de 5,980% e prazo de dez anos. A demanda chegou a US$ 7 bilhões. Em seguida, veio o Tesouro, que conseguiu US$ 2,5 bilhões com papéis de dez anos. O plano inicial era emitir US$ 2 bilhões, mas o volume foi elevado diante da demanda. O livro de ofertas fechou em US$ 5,4 bilhões, segundo fontes.
Há um movimento de forte liquidez no mercado americano, com redução dos spreads de títulos”
A Raízen e o Itaú Unibanco precificaram ofertas no mesmo dia e nem por isso foram menos movimentadas. A Raízen emitiu US$ 1,75 bilhão com duas operações: a reabertura de um título de 30 anos e uma emissão de 12 anos.
Já o Itaú Unibanco, depois de alguns anos sem acessar o mercado de dívida em dólar, emitiu US$ 1 bilhão com prazo de cinco anos – um volume relativamente alto para uma instituição financeira. A demanda dos investidores chegou a US$ 2,9 bilhões, o que permitiu aos bancos reduzir a taxa do papel.
A Vale, emissora frequente lá fora, captou US$ 750 milhões com a reabertura de seu bond mais longo, de 30 anos. A demanda pelos papéis chegou a US$ 2,6 bilhões. Por último, o Bradesco, que tinha emitido US$ 750 milhões em janeiro, reabriu a emissão em fevereiro para uma captação adicional de US$ 250 milhões.
Siqueira, do Morgan Stanley, aponta que investidores globais, que alocam em diferentes jurisdições, ajudaram a fomentar a demanda nas operações.
Pedro Frade responsável pela área de renda fixa internacional do Itaú BBA, aponta que a corrida ao longo das últimas semanas também se explica pela redução do risco Brasil e porque o mercado, após o início de governo de Trump, deixou de precificar mais inflação, combinação que trouxe para baixo as taxas, abrindo oportunidades aos emissores. “Houve também um sentimento positivo de que o mercado está comprador. Todas as emissões [do ano] foram um sucesso”.
No ano, o volume deve voltar a ficar na faixa dos US$ 25 bilhões a US$ 30 bilhões, segundo os bancos. “Seria um retorno aos níveis históricos de captação”, diz Podlubny. Em 2024, as emissões somaram cerca de US$ 21 bilhões, conforme dados do Bond Radar.
Mesmo com a onda de emissões das grandes empresas no exterior, o mercado de renda fixa local não deve sentir um grande abalo. Apesar de cada vez mais nomes acessarem esse bolsão de recursos, ele ainda segue restrito, sendo mais visado pelas empresas com receitas em dólar. O mercado local, que ganhou profundidade nos últimos anos, seguirá, conforme as expectativas, sendo acessado pelas grandes empresas. No ano passado, por exemplo, a Vale voltou ao mercado de debêntures local depois de nove anos sem acessá-lo, mesmo em um ano em que o mercado externo estava mais robusto.
Fonte: Valor Econômico
