Com resultados trimestrais bastante positivos divulgados nas últimas semanas, as big techs viram suas ações ensaiarem uma recuperação e abandonarem o desempenho negativo observado entre junho e julho. Houve algum alívio, também, nos spreads de crédito, que, porém, seguem bastante pressionados, na medida em que as fortes emissões de dívida das hyperscalers continuam em vigor e impedem uma melhora relevante nas métricas financeiras das empresas.
Na semana passada, a emissão de US$ 25 bilhões da Alphabet, a controladora do Google, até gerou alguma pressão sobre o crédito das hyperscalers, mas, de forma geral, foi bem absorvida e não pressionou os mercados da forma como uma emissão de dívida da Amazon havia feito semanas atrás.
Nos cálculos do J.P. Morgan, o mercado absorveu US$ 75 bilhões em emissões entre junho e julho que, em grande parte, não eram esperadas. Não por acaso, os spreads de crédito da Amazon subiram 23 pontos-base entre o início de junho e o fim de julho, enquanto os da Meta avançaram 25 pontos-base no mesmo período. Já os da Oracle destoaram, mais uma vez, dos pares e subiram cerca de 50 pontos-base na mesma base comparativa.
“Esse risco financeiro vai ter que continuar a ser monitorado”, diz o diretor de investimentos (CIO) da Legacy Capital, Felipe Guerra, no “call” mensal da casa.
“No lado dos indicadores operacionais [das big techs], está tudo indo de vento em popa. Na parte financeira, com a abertura [alta] de juros que nós vimos no mês passado e com a abertura do CDS cobrado sobre essas empresas de tecnologia para fazer emissões e levantar capital, ficou um custo de capital mais alto. Isso causa apreensão de que o retorno sobre o capital investido pode ser menor e poderia ter retornos menores à frente”, observa Guerra. Para ele, que vê com bons olhos as ações das big techs no momento, o risco financeiro precisa ser monitorado.
O executivo, assim, observa que a disputa por capital continuará presente e avalia que o risco financeiro do ciclo deve seguir em vigor, diante do momento de pressão sobre os mercados de juros globais. “Temos que ver como nos proteger disso, seja com posições em CDS ou tomadas [apostando na alta] em juros, porque pode ser o vetor que faça o ciclo ser interrompido”, afirma Guerra. “Se os juros subirem muito e o CDS abrir demais, isso pode inviabilizar a atratividade desse movimento, e aí a roda para de girar e podemos ter uma potencial correção desses mercados.”
Isso, porém, não está no cenário-base da Legacy, cuja aposta é a de que o retorno sobre o capital é “muito acima” do custo. “Mas entendemos que a disputa por capital vai estar presente por muitos meses à frente. Há uma disponibilidade limitada de capital no mercado e em um momento em que países estão muito endividados. Todo mundo tem de rolar suas dívidas e estamos convivendo com um ciclo de IA, que demanda bastante capital”, observa Guerra, ao prever curvas de juros muito pressionadas, sobretudo na ponta longa.
Avaliação semelhante é defendida pela analista de crédito Erica Spear, do J.P. Morgan, que continua a ver a fraqueza recente dos spreads de crédito das hyperscalers como um movimento “predominantemente técnico, e não fundamentalista”.
“Níveis recordes de emissões relacionadas à IA, combinados com a visibilidade limitada sobre o momento das próximas operações, deixaram os investidores fatigados e cada vez mais concentrados na perspectiva de um ciclo prolongado de emissões, em vez de na qualidade de crédito subjacente”, observa Spear. E essa visão é, para ela, reforçada pela natureza disseminada do desempenho recente, com piora dos spreads até de empresas que não acessaram o mercado.
“Não acreditamos que o obstáculo representado pela oferta de títulos tenha ficado para trás neste ano — provavelmente estamos longe disso —, e a continuidade da volatilidade é praticamente certa enquanto os investidores navegam por um calendário de emissões pouco transparente”, afirma a analista.
Nesse sentido, para ela, o timing de mercado terá uma importância maior, com oportunidades surgindo não apenas ao longo das curvas, mas também em financiamentos de infraestrutura de data centers e GPUs, além do mercado de CDS para investidores que buscam administrar suas exposições enquanto se posicionam para a continuidade das emissões das hyperscalers.
Fonte: Valor Econômico


