Até a pandemia, o governo japonês fez os mais radicais experimentos econômicos para combater a deflação, sem muito sucesso contra a queda contínua dos preços. Ela persistiu por praticamente duas décadas, para enfim deixar a temperatura abaixo de zero dos preços de 2022 em diante. Agora Tóquio tem outro problema: a inflação subiu. Janeiro é um mês ruim para os preços ao consumidor no país e em 2024 e 2025 houve alta de 4%. Em dezembro, a inflação anual atingiu 2,1% e seu núcleo, 2,4%. Ela não difere da que se vê na Europa e é menor que a dos EUA, mas os juros atuais, herdados da época da inflação, não são capazes de detê-la: a taxa básica de 0,75% ao ano é negativa e, mesmo assim, a maior em décadas. A primeira-ministra Sanae Takaichi, a primeira mulher a exercer o cargo no Japão, que assumiu em novembro, convocou eleições em 8 de fevereiro e prometeu gastos fiscais para estimular a economia e corte de impostos sobre alimentação. Os mercados estão inquietos e o iene está em seu menor nível em 18 meses.
A estabilidade japonesa, mesmo com a economia desequilibrada, que cresce menos que o Brasil e exibe baixa performance desde o estouro da crise imobiliária no início dos anos 1990, serve de base para o “carry trade” global, com os investidores se financiando a baixas taxas no Japão e aplicando em países com altas taxas, como o Brasil. Em boa medida, o ingresso destes recursos tem ajudado a valorização do real, importante para conter a inflação doméstica. Essa estabilidade está sendo posta à prova agora e um dos sinais mais eloquentes de problemas foi que pela primeira vez desde que foram lançados, em 2007, os títulos soberanos de 40 anos ultrapassaram 4% na semana passada.
No campo financeiro, a alta das taxas traz vários problemas. Um dos temores do mercado é que os investidores japoneses desloquem quantias significativas de suas aplicações em títulos do Tesouro dos Estados (eles detêm US$ 7,2 trilhões em um mercado de US$ 30,5 trilhões) para os papéis domésticos de longo prazo. Uma troca massiva elevaria os juros nos EUA e, em seguida, no resto do mundo. A intranquilidade cresceu quando tanto as autoridades japonesas quanto o Federal Reserve de Nova York fizeram consultas sobre câmbio aos mercados, indicando a possibilidade de uma intervenção conjunta para sustentar o iene, como foi feito no passado.
Os riscos, no entanto, podem ser mitigados pelo próprio aumento da volatilidade do iene e das taxas dos títulos japoneses, que poderia reduzir os retornos esperados dos investidores tentados a fazer a troca. Por outro lado, o Japão parece estar atrasado na normalização monetária, com juros ainda fortemente negativos e inflação entre 2% e 4%. O Banco do Japão (BC) indicou que a tendência é de alta, o que deve retirar parte da atratividade do carry trade e provocar um reposicionamento de liquidez nos mercados de moeda e nos que servem para proteção de apostas arriscadas no câmbio.
A readaptação ao mundo pós-deflacionário japonês não é simples. Com a deflação e, depois, com a crise financeira de 2008 e a pandemia, o Japão realizou as mais radicais medidas de afrouxamento quantitativo e qualitativo do mundo, com o balanço do BC japonês elevando-se a US$ 5 trilhões, superior ao PIB do país, de US$ 4,3 trilhões. Em comparação, o balanço do Fed americano, de US$ 7 trilhões, não passou de cerca de 30% do PIB. O Banco do Japão também comprou US$ 500 bilhões em ações, detém 7% a 8% da capitalização total da Bolsa de Tóquio e só em setembro fez um cronograma para começar sua venda.
O outro lado da moeda é uma dívida bruta de 240% do PIB (mais de US$ 10 trilhões) que, se por um lado, não enfrenta os problemas comuns de dificuldades de rolagem de governos muito endividados — 90% dos débitos estão em mãos de investidores doméststicos —, por outro verá seu custo subir muito. Com juros negativos, a dívida não pesava. Agora, sim e muito.
No lado real da economia, o aumento dos juros será mais um desestímulo ao crescimento da economia japonesa, que nunca mais foi a mesma desde o estouro de sua bolha imobiliária e perdeu o lugar de terceira maior do mundo para a Alemanha. A intenção de elevar os juros colocará o BC em choque com a primeira-ministra após as eleições, convocadas para que aumente a representação do partido de Takaichi, o conservador Liberal Democrata (PLD). Ela quer reduzir por dois anos os impostos de 8% que recaem sobre a alimentação e lançar um pacote fiscal de estímulo a economia de US$ 135 bilhões. A dívida ficará maior ao mesmo tempo em que se torna cada vez mais cara.
Takaichi acredita que o crescimento permitirá ao país sair dessa armadilha, reduzindo a dívida, uma aposta de risco em um mundo convulsionado pelo protecionismo do presidente Donald Trump. Os mercados esperam um rearranjo sustentável, cujo sinal relevante será a estabilização do iene. Os desequilíbrios japoneses e as ânsias de conquistas territoriais de Trump levaram o dólar a seu menor valor em 4 meses e o ouro a ultrapassar US$ 5 mil a onça. A instabilidade japonesa é mais um risco a considerar em um ambiente carregado de grandes incertezas e mais um motivo para que o Brasil ponha suas contas em dia e reduza sua vulnerabilidade aos humores dos fluxos de capital.
Fonte: Valor Econômico
