Por Gabriel Caldeira, Valor — São Paulo
13/01/2023 16h34 Atualizado há 2 dias
Indicadores econômicos de países europeus divulgados hoje apontaram um desempenho melhor do que se esperava das economias do Velho Continente. Esperava-se que os impactos da guerra na Ucrânia sobre o setor de energia da Europa colocassem a zona do euro em trajetória de recessão, aparentemente evitada por ora. No entanto, o custo maior do crédito imposto pelo Banco Central Europeu (BCE) e a desaceleração global ainda sugerem desafios à frente.
Segundo informou a Destatis, agência oficial de estatísticas da Alemanha, o Produto Interno Bruto (PIB) do país subiu 1,9% em 2022, segundo a primeira estimativa. Já a produção industrial da zona do euro cresceu 1,0% em novembro, acima do esperado.
O resultado da atividade alemã sugere que a maior economia da zona do euro evitou uma recessão no quarto trimestre de 2022, de acordo com diversos economistas.
Chefe global de Macroeconomia do ING, Carsten Brzeski diz, em relatório, que a primeira leitura do PIB alemão de 2022 sugere estagnação nos últimos três meses do ano. Segundo ele, o “efeito de recuperação” na produção e no consumo após o término de lockdowns no começo do ano superou o custo econômico imposto pela guerra na Ucrânia.
Franziska Palmas, economista sênior para Europa da Capital Economics, também avalia, em relatório, que a Alemanha provavelmente evitou uma recessão no quarto trimestre e credita o desempenho mais forte que o esperado ao suporte fiscal do governo no setor de energia e à melhora na produção de automóveis, antes prejudicada por conta dos gargalos na cadeia de chips semicondutores.
O melhor desempenho no fim de 2022, contudo, não significa que a economia alemã vai recuperar uma tendência forte de crescimento, diz Brzeski. “O enfraquecimento das novas encomendas industriais desde fevereiro do ano passado e a fraca confiança do consumidor são apenas duas das muitas razões para mais problemas à frente”, pondera o economista.
O impacto do aumento de juros pelo BCE e a inflação elevada sobre a renda real dos alemães é outro ponto de contenção para a principal economia europeia, diz Aila Mihr, analista sênior do Danske Bank.
Para Palmas, o aperto monetário em curso deve ser o principal fator a pesar sobre a economia da zona do euro em 2023. Ela argumenta que, até agora, a atividade local sentiu pouco os efeitos da ação do BCE, mas isso deve mudar com o aumento dos custos com juros de domicílios e empresas “à medida que mais períodos de taxa fixa chegam ao fim e os empréstimos são refinanciados a juros mais altos”.
Sinais recentes de dirigentes do BCE mostram que a entidade não deve pausar seu aperto monetário até que tenha confiança de que a inflação está reduzindo de maneira consistente à meta de 2%.
Em comentário específico sobre a Alemanha, o economista chefe do Commerzbank, Joerg Kraemer, avalia que o custo mais alto do crédito já está afetando o setor de construções (historicamente mais sensível ao aumento dos juros), em efeito que deve se estender para os investimentos privados como um todo. Kraemer espera contração de 0,5% do PIB alemão em 2023.
Há, no entanto, alguns analistas mais otimistas sobre o cenário europeu. Em relatório, Holger Schmieding, do banco Berenberg, diz que os dados de hoje mostram que os impactos recentes sobre a economia da Europa estão se dissipando e a atividade pode registrar “uma recuperação significativa” após o período de inverno.
Em pesquisa recente, Aila Mihr, do Danske Bank, aponta para a acelerada retomada econômica na China como um dos sinais positivos para a Europa em 2023. O aumento de casos e mortes por covid-19 no gigante asiático não freou a reabertura abrupta como alguns economistas esperavam, e o turismo e as exportações europeias podem se beneficiar disso, diz.
No entanto, Mihr também ressalta que a demanda chinesa pode ajudar a elevar mais os preços nas nações do Velho Continente – seja por meio do estímulo à atividade local ou por commodities mais caras – dificultando o controle inflacionário pretendido pelo BCE.
Já Franziska Palmas, da Capital Economics, pondera que a recuperação na China se concentra no setor de serviços, o que limita o eventual impulso às exportações europeias.
Fora da zona do euro, o dia também foi marcado pelo avanço do PIB do Reino Unido em novembro, de 0,1%, enquanto a expectativa de analistas apontava contração de 0,2%.
O dado não deve ser suficiente para evitar uma contração no quarto trimestre, alerta a economista Modupe Adegbembo, da AXA Investment Managers. “Agora esperamos um declínio menor no quatro trimestre de 0,1%, mas é possível que o Reino Unido evite por pouco entrar em uma recessão técnica”, diz ela.
Para os próximos trimestres, porém, é improvável que a economia britânica consiga fazer o mesmo, segundo Samuel Tombs, economista chefe para Reino Unido da Pantheon Macroeconomics.
Para ele, o PIB do país vai recuar “substancialmente” no primeiro e no segundo trimestres de 2023, puxado pelo fim do esquema de assistência a britânicos de baixa renda e aumento dos juros pelo Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês).
Fonte: Valor Econômico
