Como chefe da maior varejista de joias da China, Kent Wong sabe tudo o que acontece com os consumidores da segunda maior economia do mundo — e eles estão cautelosos.
Wong, diretor-gerente da Chow Tai Fook, diz que os clientes da rede têm mudado dos diamantes e outras pedras preciosas para o ouro, uma reserva de riqueza em tempos difíceis. “No curto prazo, as pessoas continuarão sendo mais cautelosas, seja no consumo, seja nos investimentos”, diz ele, que acredita que a confiança do consumidor retornará em um ano ou dois.
As perspectivas reduzidas de Wong para 2024, compartilhadas por muitos analistas, surgem no momento em que as autoridades em Pequim se preparam para um ano decisivo em sua batalha para restabelecer o ‘espírito animal’ da economia e fugir da ameaça de uma espiral de dívida e deflação.
Em um discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos, o premiê Li Qiang disse nesta terça-feira que o Produto Interno Bruto (PIB) da China cresceu “estimados” 5,2% em 2023. Embora isso supere ligeiramente a meta oficial de 5%, economistas afirmam que 2024 provavelmente será mais desafiador, com uma pesquisa feita pela Reuters entre analistas prevendo que o crescimento recuará para 4,6%.
Uma recessão no setor imobiliário já se encontra no terceiro ano, as exportações estão fracas, investidores cautelosos estão evitando os mercados financeiros da China e as autoridades lutam para combater o que analistas do Morgan Stanley afirmam ser o mais longo período de pressão deflacionária no país desde a crise financeira asiática de 1997-1998.
“Acho que será um ano crítico para a economia chinesa, no sentido de que a inflação poderá entrar em um ciclo vicioso”, diz Robin Xing, economista-chefe do Morgan Stanley para a China. Xing diz que as empresas começaram a reduzir suas dívidas e evitar gastos de capital e contratações, enquanto o mercado de trabalho está difícil e as expectativas salariais de deterioram. “Para romper esse ciclo, precisamos de alguns esforços políticos muito significativos”, afirma ele.
Analistas preveem que a reunião anual do Congresso Nacional do Povo, o Parlamento chapa-branca, estabelecerá uma nova meta de crescimento de cerca de 5% quando se reunir no começo de março.
Embora robusta em comparação com as economias desenvolvidas, a meta de 2023 foi a mais baixa da China em décadas. Depois que os duros confinamentos da covid-19 abalaram a economia em 2022, deveria ter sido fácil alcançar a meta, disseram analistas, mas o governo foi forçado a reforçar o apoio fiscal depois que o crescimento oscilou na metade do ano.
O efeito de base de comparação com 2022 provavelmente favoreceu o crescimento do PIB da China no ano passado em cerca de 2 pontos porcentuais, afirma Hui Shan, economista-chefe do Goldman Sachs para a China.
Tal como em 2023, o setor imobiliário é a maior incerteza que e economia enfrenta em 2024, segundo analistas. O governo já anunciou várias iniciativas, revelando recentemente que em dezembro o banco central direcionou 350 bilhões de yuans (US$ 49 bilhões) para os bancos por meio de uma linha de crédito conhecida como “empréstimos adicionais prometidos”.
Ele não explicou para que servem os empréstimos, mas analistas acreditam que eles podem estar reservados para os “Três grandes projetos” — um programa de estímulos para ajudar a indústria da construção habitacional.
Chris Beddor, vice-diretor de pesquisas sobre a China da Gavekal, diz que esse plano poderá ser suficiente para impor um piso à fraqueza da atividade no setor da construção, mas as vendas de imóveis são uma grande incógnita. Em dezembro, as vendas imobiliárias na China ainda se encontravam em apenas 60% dos níveis pré-pandemia de 2019 em 30 grandes cidades.
Beddor diz que se a crise imobiliária se agravar mais, as autoridades poderão ser forçadas a lançar um pacote de estímulos “bazuca” que surpreenderia o mercado positivamente. Mas ele acrescenta que a base de seu cenário é a estabilização, e não uma recuperação. “Haverá uma retomada bastante modesta este ano. Em outras palavras, pelo menos as coisas não vão piorar mais”, diz ele.
Além do setor imobiliário, economistas afirmam que um pacote de estímulo muito mais amplo, juntamente com reformas, são urgentemente necessários para reflacionar a economia. “A deflação é muito preocupante para um país como a China, que está acumulando dívida pública mais rapidamente do que o Japão jamais fez”, diz Alicia García-Herrero, economista-chefe da Natixis para a Ásia-Pacífico. Em tempos de deflação, os preços e os salários caem, mas o valor da dívida não, aumentando o peso dos pagamentos.
O governo central precisa oferecer um pacote fiscal que vise ao consumo, em vez de mais investimentos em manufatura, diz Xing do Morgan Stanley. Isso poderia beneficiar as centenas de milhões de trabalhadores migrantes da China, por exemplo, oferecendo a eles mais acesso a benefícios sociais, reduzindo o incentivo para eles acumularem poupança em vez de gastar.
“Precisamos de uma mudança decisiva para a flexibilização fiscal. É claro que tamanho importa e a velocidade importa. Se a política continuar a falhar, em algum momento a pressão política para o rompimento dessa armadilha da dívida-deflação poderá ser ainda maior” diz Xing.
Economistas afirmam que não se pode esperar que as exportações, que encolheram no ano passado em termos de dólares, resgatem a economia, dada a fraca demanda global. As políticas de estímulo da China, que priorizam o aumento dos empréstimos dos bancos estatais para as empresas, resultaram num excesso de capacidade de produção e aumentaram os atritos com parceiros comerciais como a União Europeia.
Apesar dos apelos do mercado para que Pequim flexibilize sua política e dos próprios esforços da China para apresentar uma face amigável aos investidores, analistas afirmam que as autoridades continuam emitindo sinais contraditórios. O Banco do Povo da China, o banco central, manteve estável na segunda-feira uma importante taxa de empréstimo, apesar das expectativas do mercado de um corte. No mês passado, o governo surpreendeu os investidores ao anunciar restrições severas aos videogames, depois de assegurar anteriormente que a repressão ao setor de tecnologia havia terminado.
O governo tentou acalmar as preocupações demitindo a autoridade responsável pelas decisões, mas para analistas, o estrago já estava feito.
Tudo isso torna ambicioso alcançar a meta de crescimento do PIB de 5% neste ano, segundo economistas. Shan, do Goldman Sachs, diz que o governo teria que reduzir o arrasto do setor imobiliário, implementando medidas fiscais mais expansivas e “ter sorte com as exportações”.
“Se o governo realmente quiser, descobrirá de um jeito ou de outro uma maneira de chegar aos 5%. Mas será uma tarefa difícil”, diz Shan.
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— Foto: AP Photo/Andy Wong
Fonte: Valor Econômico


