Em meio ao declínio do setor imobiliário da China, o presidente Xi Jinping precisa reformular o modelo econômico do país para impulsionar o crescimento nos próximos dez anos. Só que a solução encontrada por seu governo ameaça desencadear tensões no comércio exterior pelo mundo.
Os líderes da China vêm despejando dinheiro na indústria, enquanto a atividade ligada ao setor imobiliário, que em outros tempos chegou a impulsionar cerca de 20% do crescimento da economia em 2022, se transformou em um entrave à expansão. Parte do novo foco está no que chamam de os “três novos” motores do crescimento: veículos elétricos, baterias e energia renovável, que servem de ajuda para a ofensiva mundial de redução das emissões de carbono e alimentam a demanda por commodities como cobre e lítio.
Até agora, a estratégia vem ajudando a China a evitar as recessões que atingiram o Japão nos anos 1990 e os EUA em 2008, quando seus mercados imobiliários entraram em colapso. A segunda maior economia do mundo hoje cresce cerca de 5% ao ano. Por outro lado, ela também alimenta desequilíbrios que abrem caminho para novas tensões comerciais internacionais com a China e o resto mundo desenvolvido, assim como com economias emergentes que buscam criar o seu parque industrial.
Os EUA e a União Europeia (UE) recentemente intensificaram os alertas sobre o excesso de capacidade produtiva da China. A UE iniciou uma série de investigações sobre problemas de comércio exterior, o que levou a China, no início do mês, a lançar uma investigação antidumping sobre produtos alcoólicos da UE, como o conhaque — medida vista pelos analistas como direcionada à França, principal defensora da ação europeia contra os subsídios chineses para veículos elétricos. O presidente dos EUA, Joe Biden, também endureceu as medidas para negar à China acesso a tecnologias avançadas, e a corrida presidencial deste ano, provavelmente com a participação de Donald Trump, poderá fazer com que as políticas protecionistas se intensifiquem ainda mais.
Os países em desenvolvimento também são impactados. Embora a estratégia da China possa reduzir o custo dos bens de capital, seus esforços para também manter as indústrias de menor valor agregado reduzem o espaço para países como Vietnã e Indonésia, que de outra forma se beneficiariam da ascensão chinesa na cadeia de valor. Outros países que buscam atrair indústrias mais complexas, como Turquia e Índia, vêm aumentando o protecionismo contra a China.
O foco de Xi na indústria é motivado por uma mistura de objetivos econômicos, de segurança e estabilidade social. Assessores políticos chineses e economistas ligados ao governo dizem que isso inclui o desejo de evitar problemas como o aumento da desigualdade de renda ou o crescente do populismo que emergiu nos EUA após a perda de empregos industriais para a China. As restrições dos EUA às remessas de chips sofisticados à China também levaram os chineses a redobrar os esforços para alcançar a autossuficiência em tecnologia de ponta e a assumi-los como uma questão de segurança nacional.
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Xi Jinping em discurso no encerramento do Congresso Nacional do Povo — Foto: Andy Wong/AP
“A China quer ser a Amazon dos países — a Amazon é a loja de tudo, a China quer ser o país que ‘produz tudo’”, disse Damien Ma, do centro de estudos americano Macropolo, que se encontrou com altos funcionários em Pequim em 2023. “A ideia é trazer uma cadeia de suprimentos completa para a China.”
Os números são históricos: o superávit de bens industrializados da China em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) mundial está agora em 2%, um patamar provavelmente inédito desde os EUA após a Segunda Guerra Mundial, segundo a Bloomberg Intelligence. Sua estimativa é que 45% da produção industrial da China esteja sendo exportada, já que os 1,4 bilhão de habitantes não conseguem comprar bens como veículos elétricos, navios e eletrodomésticos em números suficientes para atender ao aumento da oferta.
Nas décadas de 1990 e 2000, os principais economistas costumavam enfatizar os benefícios para os consumidores de importações mais baratas da China, mas políticos como Trump procuraram canalizar a raiva pública decorrente da perda de empregos nos cinturões industriais de todo o mundo desenvolvido. O “Choque da China”, um termo cunhado por um grupo de economistas em 2016, tem sido apontado como culpado de quase tudo, desde o aumento do populismo até a desaceleração do crescimento da produtividade.
O novo foco da China na “modernização industrial” significa ingressar em setores hoje dominados pelos países ricos. Isso está levando a uma redução das importações provenientes de países como Alemanha, Coreia do Sul e Japão, que tradicionalmente tinham superávits comerciais com a China pois forneciam insumos de alta tecnologia às fábricas do país.
As evidências do novo foco da China na indústria estão por todas as partes, desde o forte aumento na concessão de crédito ao setor industrial até o crescimento explosivo dos investimentos em parques industriais, assim como o aumento das exportações de produtos como carros, escavadeiras e máquinas de lavar. Para surpresa dos negociantes internacionais, isso também sustentou as cotações das commodities, apesar da queda na construção residencial.
O sucesso mais claro da China na indústria tem sido os “três novos” produtos. O valor das exportações de veículos elétricos, baterias e painéis solares cresceu 42% nos primeiros três trimestres de 2023 na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados oficiais. As vendas internas desses produtos são ainda maiores do que as exportações, impulsionadas por subsídios para a instalação de painéis solares e as compras de veículos elétricos. Os consumidores locais compraram quase 6 milhões de veículos elétricos de passageiros produzidos na China nos primeiros dez meses de 2023, em comparação com exportações de 1,6 milhão de unidades.
O cenário faz com que sejam traçados paralelos com a trajetória econômica do Japão — mas não a costumeira comparação com suas décadas perdidas após seu próprio colapso imobiliário.
Assim como o Japão na década de 1980, a ascensão da China em áreas mais avançadas da indústria agora a torna uma concorrente direta dos países desenvolvidos, diz André Sapir, pesquisador sênior do centro de estudos Bruegel e assessor econômico do ex-presidente da UE Romano Prodi. A principal diferença, segundo ele, é que o Japão era um aliado dos EUA.
“O Japão era tudo o que a China é hoje”, disse. “Era gerenciável porque não havia diferenças do ponto de vista político. E um país amigável do ponto de vista geopolítico.”
Desta vez é diferente. Em novembro, a secretária do Tesouro, Janet Yellen, advertiu que um excesso de oferta “poderia surgir no futuro em indústrias nas quais a China está investindo muito pesadamente”. Subsídios seletivos na Lei de Redução da Inflação (IRA), de Joe Biden, tentam influenciar os preços da tecnologia verde fabricada na China para empurrá-la fora do mercado dos EUA, enquanto o endurecimento das restrições às vendas de chips de ponta tenta desacelerar a ascensão da China.
A Comissão Europeia, braço executivo da UE, também lançou uma investigação sobre os veículos elétricos chineses — uma medida rara, pois tais investigações em geral são solicitadas pelas empresas ou setores. Em novembro, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, disse que os “excessos de capacidade da China em setores protegidos estão inundando os mercados globais e podem corroer a base industrial europeia”.
Pequim tentou amenizar as tensões com Washington e outros governos, salientando que as empresas estrangeiras são bem-vindas: o objetivo é que haja produção na China, não necessariamente uma produção de empresas chinesas, destacaram autoridades. A Tesla, por exemplo, recebeu boas-vindas para produzir na China e vender dentro e fora do país.
Mas outras empresas reclamam que o mercado chinês está se tornando menos aberto a bens produzidos por firmas estrangeiras, mesmo que a fabricação seja feita localmente. Alguns setores ainda são restritos a investidores estrangeiros e os governos cada vez mais aplicam uma política de “compre chinês” para bens como dispositivos médicos, dizem.
A necessidade da China por investimentos estrangeiros que ajudem a trazer o conhecimento necessário para modernizar a indústria obriga as autoridades chinesas a fazer concessões estratégicas para manter as empresas estrangeiras do seu lado. Em sua viagem a São Francisco em novembro, Xi disse a um grupo de executivos que a China está disposta a ser parceira e amiga dos EUA.
Não haverá, contudo, concessões quanto à estratégia fundamental. Em um discurso em 2020 delineando a estratégia de “circulação dupla”, uma tentativa de reequilibrar a economia em direção à demanda interna diante das crescentes hostilidades externas, Xi disse que as fábricas são a “linha de vida” e as “fundações” do país.
A participação da indústria no PIB da China atingiu o pico em 2011. A partir de 2015, os serviços começaram a representar mais da metade da economia, o que é normal à medida que os países enriquecem. Mas a China decidiu desafiar isso: o mais recente plano econômico quinquenal do país proclamou que a participação da indústria não poderia mais diminuir a partir de 2020. Auxiliada pelo aumento da demanda por produtos chineses durante a pandemia, a participação subiu 2 pontos percentuais nos dois anos seguintes e alcançou 28% do PIB.
O plano de Xi tem uma justificativa econômica. O crescimento tende a se desacelerar à medida que o setor de serviços ganha mais importância na economia dos países, pois é mais difícil alcançar melhorias na produtividade. Além disso, a indústria tem mais repercussão sobre outros setores.
Um estudo de 2017 publicado pelo Ministério do Comércio e Indústria de Cingapura concluiu que a cada 100 novos empregos na indústria há 27 novos empregos associados em setores não industriais; em contraste, a cada 100 novos empregos na área de serviços há apenas 3 empregos adicionais associados na indústria. Além disso, a indústria tem o maior potencial de inovação, é responsável pela maior parte dos gastos em pesquisa e desenvolvimento em toda a economia e emprega a maioria dos cientistas e engenheiros.
Para países de renda média como a China, “a industrialização continua sendo o motor mais forte do desenvolvimento econômico”, disse Jostein Hauge, da Universidade de Cambridge e autor de “The Future of the Factory” (o futuro da fábrica, em inglês).
Há também um dividendo ambiental ao estimular um afastamento do setor imobiliário. As emissões totais da China podem ter atingido o pico em 2023, já que o país se distanciou do crescimento puxado pela construção civil, alimentado por aço e cimento, ambos produzidos com altas emissões em carbono, de acordo com o centro de estudos Centre for Research on Energy and Clean Air.
“O modelo de crescimento econômico da China está passando de ‘investimento + habitação + exportação’ para ‘demanda interna + indústria + neutralidade de carbono’” disse Zhu Min, que foi vice-presidente do Banco do Povo da China (o BC chinês), em novembro. “Esta é uma transformação estrutural de longo prazo.”
A transição não será fácil. O rápido crescimento das “três novas” indústrias não será capaz de compensar o declínio no setor imobiliário e a queda na produção de carros a gasolina, de acordo com economistas do Goldman Sachs, entre os quais Maggie Wei. Isso resultará numa redução no crescimento econômico de 0,5 ponto percentual ao ano de 2023 a 2027 e prejudicará o emprego urbano, escreveram em relatório recente.
Isso significa que o crescimento da indústria chinesa precisará ser generalizado. A China está progredindo em setores como os de materiais avançados, robótica e biotecnologia. Em seu discurso de Ano-Novo neste mês, Xi destacou o lançamento do primeiro navio de cruzeiro e do primeiro avião de fuselagem estreita fabricados na China. Não está claro, contudo, se a China será capaz de avançar a passos rápidos em todas essas frentes.
Um segundo fator limitador do crescimento da indústria é que as crescentes tensões no comércio exterior significam que a China terá que vender uma parte maior de sua produção industrial dentro de suas fronteiras. Pequim reconhece a necessidade de aumentar a demanda interna, mas a classifica como segunda prioridade econômica para este ano, atrás do desenvolvimento da indústria. As autoridades têm resistido à ideia de medidas como a distribuição direta de dinheiro para impulsionar o consumo e vêm adotando principalmente uma abordagem na qual se espera que a oferta crie a demanda, já que uma maior produtividade leva a salários mais altos.
Essa lógica tem limitações, em especial à medida que a indústria se torna mais automatizada. Ganhos de renda com maior produtividade muitas vezes são distribuídos entre menos trabalhadores e entre acionistas ricos, que gastam menos de seus ganhos.
Arthur Kroeber, chefe da área de análises na consultoria Gavekal Dragonomics, diz que a ideia de Xi para a China se assemelha a uma “Alemanha leninista”, na qual se prefere um ritmo mais lento de expansão com maior estabilidade e foco na produção do que um sistema ao estilo dos EUA. Ele prevê que o crescimento anual da China ficará entre 3% e 4% ao ano até o fim da década se as atuais configurações de políticas econômicas, impulsionadas por investimentos e pela indústria, continuarem.
“O elemento positivo disso é que haverá algumas histórias de sucesso tecnológico. Isso é bom”, disse. “O problema disso é que há uma grande dúvida sobre até que ponto o resto do mundo vai tolerar os crescentes superávits comerciais chineses. E já estamos começando a ver algumas reações protecionistas.”
Fonte: Valor Econômico