O tombo de 1,3 ponto percentual nos juros de longo prazo e o dólar a R$ 5 após o resultado do primeiro turno das eleições são a mensagem mais clara de que a relação de confiança entre o mercado financeiro e o governo do Partido dos Trabalhadores (PT) já havia terminado. Faltava, para o ajuste de preços, que uma alternativa à política econômica vigente se mostrasse viável.
Flávio Bolsonaro cumpriu esse papel e, assim, mesmo sem revelar quais são suas propostas e sem ser o candidato dos sonhos da Faria Lima, ajudou a derrubar o preço dos ativos para níveis mais civilizados em apenas um dia após ser considerado virtualmente eleito pelo mercado.
Como de costume, não faltarão críticas vindas da esquerda de que os mercados têm lado político. De fato, é praticamente impossível hoje encontrar um gestor de recursos, economista ou profissional de tesouraria que seja abertamente simpático à ideia da reeleição de Lula e à sua política econômica. Mas também é preciso dizer que isso nem sempre foi assim. Nas eleições de 2022, o ambiente era completamente diferente, e, em diversos momentos dos últimos quatro anos, os mercados deram ao governo o valioso “benefício da dúvida”.
A aprovação do arcabouço fiscal, em 2023, foi provavelmente o momento mais emblemático de como os mercados exibiram otimismo com o Brasil. Ainda que críticas já fossem feitas desde sua concepção, investidores chegaram a apostar em uma Selic em níveis bem abaixo dos 10% e o dólar chegou a ser negociado perto dos R$ 4,70 enquanto a lei tramitava no Congresso.
A mudança na meta do resultado primário antes mesmo do arcabouço completar seu primeiro ano de vida e as discussões pouco frutíferas sobre a mudança na meta de inflação trouxeram as primeiras rusgas mais importantes entre o governo e o mercado. A relação azedou de vez, no entanto, no fim de 2024, com o anúncio de isenção do Imposto de Renda ao mesmo tempo em que os investidores se preparavam para um pacote de medidas de ajuste fiscal. O timing também foi péssimo, já que no exterior o momento era de dólar forte e juros de mercado em alta nos Estados Unidos.
O episódio custou aproximadamente 4,5 pontos de alta na Selic, em uma tentativa desenfreada do Banco Central de interromper o processo de desancoragem das expectativas de inflação e a piora no câmbio, além de mais de US$ 20 bilhões em reservas. De lá para cá, os prêmios de risco se mantiveram praticamente intactos. Não à toa, o nível negociado nos juros de 5 anos é, agora, o menor desde outubro de 2024, dias antes do “fator IR” entrar nos preços.
O rali desta segunda-feira ocorreu mesmo sem Flávio ser visto como o “queridinho” do mercado financeiro, que, meses atrás, queria distância da Família Bolsonaro. Quando anunciou sua candidatura, em dezembro de 2025, provocou um estresse intenso nos preços dos ativos. Em maio, quando os áudios enviados ao banqueiro Daniel Vorcaro emergiram, profissionais de mercado afirmavam ao Valor que sua desistência poderia ser o melhor desfecho para as eleições presidenciais. Houve, ainda, quem se sentisse traído, já que Fávio havia negado ter relação com o Master em alguns eventos privados com a Faria Lima.
Suas propostas para ajustar as contas públicas, inclusive, sequer são conhecidas. Se isso é compreensível, dado que pautas impopulares costumam ser evitadas durante as eleições, o cenário é bem diferente do que ocorreu na vizinha Argentina, tida como exemplo pela própria campanha de Flávio. Por lá, a inflação galopante fazia do ajuste uma promessa vocal de Javier Milei e encontrava respaldo popular.
É bem menos claro que este seja o caso no Brasil atualmente. Flávio fala em um “tesouraço”, enquanto Milei usava uma motosserra na campanha — seria esse um possível sinal do descompasso da urgência dada pelos dois à questão fiscal?
Ainda assim, nos mercados, percepção e realidade podem ser sinônimos. A ideia de que um ajuste fiscal está a caminho já deve fazer o Tesouro Nacional economizar bilhões de reais para financiar a dívida pública nos próximos leilões de títulos públicos. Estudos dão conta que uma queda de 10% do dólar pode retirar 0,6 ponto percentual do IPCA nos próximos meses, o que, por sua vez, pode abrir espaço para o Banco Central acelerar os cortes na Selic.
Há quem projete, inclusive, que o alívio das condições financeiras e a melhora na confiança dos agentes privados poderá anular eventuais efeitos contracionistas do próprio ajuste da política fiscal.
Se as entregas do eventual novo governo serão condizentes com a expectativa que os mercados depositam na mudança da política econômica, os preços dirão nos próximos meses.
Fato é que Lula preferiu dizer, nos últimos dias, que era preciso parar com a “babaquice de fazer superávit”, justamente o tema mais caro para os mercados. Diante de um relacionamento bastante desgastado por tantos episódios, a frase deixa claro que as partes, neste momento, já não possuem mais a menor capacidade de se entender.
Fonte: Valor Econômico

