Em um momento em que o mercado põe a tese de inteligência artificial (IA) à prova e se prepara para novos testes de estresse no setor, com o encaminhamento das ofertas públicas de ações (IPOs) de SpaceX, Anthropic e OpenAI, o Deutsche Bank mostra-se otimista quanto à sustentabilidade de crescimento e valorização de ativos do segmento, pelo menos até o fim do ano.
Questionado se as empresas de IA continuarão com um bom desempenho neste ano ou se os momentos recentes de correção são um sinal de pessimismo mais estrutural, o diretor de investimentos (CIO) para Américas do Deutsche Bank Wealth Management, Deepak Puri, mostrou-se construtivo quanto à tese do setor. Ele espera que as empresas do segmento sigam com um crescimento sustentável e direcionando o crescimento dos lucros, com um desempenho similar ao visto no primeiro trimestre de 2026, até, pelo menos, o fim do ano.
“Sentimos que, no curto prazo, nos próximos dois trimestres, veremos um impulso semelhante”, disse em entrevista ao Valor. “Quando chegarmos a 2027, acredito que as coisas começam a ficar um pouco mais questionáveis em termos de sustentar esse ritmo”, alertou.
O otimismo do Deutsche também se estende à bolsa americana. O banco alemão projeta que o S&P 500 atingirá a marca de 8,2 mil pontos nos próximos 12 meses, fortemente sustentado pelos ganhos do setor de IA.
Puri explica que, para além da visão construtiva com IA, os EUA mostraram-se resilientes frente às turbulências geopolíticas, e os cenários macro e microeconômicos continuaram bastante positivos. “Acho que essa é a razão pela qual nosso mercado acionário está em alta, e também o motivo de nossa expectativa para os próximos 12 meses ser bastante positiva.”
Parte dessa resiliência, segundo ele, mostrou-se nos resultados do primeiro trimestre, que sustentaram grande parte do rali da bolsa americana em meio à guerra no Irã. “Veja os lucros, por exemplo. No início do ano, pensávamos que o crescimento do EPS (lucro por ação) do S&P ficaria em torno de 12% a 13%. Hoje, esse número está entre 22% e 23%.”
A avaliação do executivo é que a narrativa de IA está por trás de grande parte dessa resiliência. Puri argumenta que essa tecnologia é uma das principais razões para o aumento dos lucros, mas também do crescimento econômico, visto que os investimentos em data centers têm impulsionado o Produto Interno Bruto (PIB) americano.
A projeção do Deutsche está em linha com a de outras instituições financeiras. O Morgan Stanley, por exemplo, prevê o S&P 500 em 8,3 mil pontos no mesmo horizonte, refletindo a expectativa de que os EUA entrarão em um forte ciclo econômico, impulsionado por resultados trimestrais robustos e pela adoção mais disseminada da IA.
Há, no entanto, receios de que a precificação de juros mais altos pelo mercado, caso a atividade americana permaneça aquecida e o mercado de trabalho mostre solidez, comprima os múltiplos das empresas
Outro ponto levantado pelo executivo são os riscos de concentração da atividade americana em torno da inteligência artificial. “Tanto na economia quanto no mercado há uma grande aposta em IA e, quando se faz uma grande aposta em qualquer coisa, as chances de as coisas não saírem conforme o planejado são um pouco maiores.”
Ainda assim, Puri enxerga que há outros setores da economia indo bem, como o bancário, devido à desregulamentação, e empresas de recursos naturais, diante de um possível superciclo de commodities. “Mas a IA está gerando efeitos em cadeia. Existem empresas que não fazem parte diretamente do ecossistema de IA e que ainda assim estão indo bem”, pondera.
Ao tratar sobre os fortes ajustes feitos no setor de tecnologia na última semana, Puri viu o movimento como algo provável de acontecer de tempos em tempos, como uma correção após a forte valorização dos últimos meses. “Em qualquer ano, o S&P cai pelo menos três vezes cerca de 10%.”
O setor ainda passará por novos testes de estresse ao longo das próximas semanas com a série de IPOs previstos. E embora Puri acredite que eles trarão um elemento positivo no curto prazo, o executivo recomenda uma redução de exposição no setor de tecnologia, visto que ainda não há clareza se os valores usados para investir nas ofertas virão de um rebalanceamento de outras posições já rentáveis ou de fundos de money markets.
Fonte: Valor Econômico