Por Adriana Cotias e Rita Azevedo — De São Paulo
30/03/2023 05h04 Atualizado há 4 horas
As debêntures de infraestrutura apresentam um dos melhores momentos para alocar capital, segundo gestores de recursos. Depois de um período em que os prêmios subiram por causa da desinflação observada em meados de 2022 e um 2023 que começou com eventos de crédito e renegociações na esteira da recuperação judicial da Americanas, a percepção é que há uma frente de oportunidades no mercado secundário. Há spreads na casa de 250 pontos básicos, principalmente em títulos de dívida ligados a projetos.
“Olhando com muita lupa, observando o que já aconteceu num passado recente, pelo menos duas vezes vimos um movimento acelerado de abertura de spreads sem deterioração do risco de crédito”, diz Miguel Ferreira, fundador e CEO da Bocaina Capital, asset dedicada a ativos que financiam investimentos. Um desses períodos, foi a crise trazida pela covid-19, no início de 2020. “Mas não é o crédito de maneira geral. De fato, com o custo de capital que existe hoje, uma série de balanços são desafiados, com um risco muito maior. Em infraestrutura, em particular, na dívida sênior das debêntures incentivadas, o risco de crédito se mantém controlado, similar ao que era um ano atrás.”
No geral, em cenários de alta de juros, é comum que os prêmios desses títulos caiam. Da mesma forma, quando os juros estão em queda, os prêmios geralmente sobem, afirma Pierre Jadoul, gestor de crédito privado da ARX Investimentos. Por isso, a combinação de juros e prêmios de risco altos, vista atualmente, torna o momento único. “É uma oportunidade, sobretudo considerando a isenção desses títulos e o fato de os riscos serem mais baixos, em comparação a outros setores.”
Quando se fala em emissões corporativas, historicamente, em períodos normais, o prêmio acima das NTN-B varia entre 0,4% e 0,7% no secundário, enquanto as de projeto negociam com spread entre 1% e 1,5%, cita Gabriel Esteca, co-fundador e chefe de infraestrutura da Bocaina. Mas na fase de estresse é o primeiro conjunto que sofre na frente por ter mais liquidez, com a outra subclasse afetada na sequência. “Esse efeito, uma vez que atinge o seu ápice, passado o frênesi, tende a retomar numa janela de dois a três meses, porque o comprador marginal começa a aparecer.”
Com os níveis atuais no secundário, Ferreira diz ser possível montar um portfólio com um “yield” [rednimento] de 8,7% ao ano. “Numa janela de dois anos dá para entrar num nível de carrego de IPCA mais 9% e vender a IPCA mais 6%, 7% lá na frente, é um ganho de capital grande.”
Se tudo ocorrer conforme o esperado, o retorno vai a 12,3% acima do índice de inflação, numa estrutura isenta de imposto de renda. “É uma TIR [taxa interna de retorno] que se aproxima do ganho de equity [ações]”, afirma Esteca.
Para aproveitar esse momento, a Bocaina tem levantado capital via veículos mais ágeis, exclusivos, com grandes investidores e projeta uma alocação na casa dos R$ 200 milhões ou R$ 300 milhões. “O que a gente imagina, olhando para frente, é que a classe se beneficie do novo momento do ciclo”, diz Ferreira. “A questão é o quão rápido esse movimento vai acontecer.” A lógica é que se a dinâmica do aperto monetario for revertida, com redução da taxa de juros nominais, que as debêntures se beneficiem da compressão da componente fixa do papel, o prêmio acima da NTN-B.
Do lado das emissões, a alta dos spreads das debêntures incentivadas tem provocado uma pausa nas ofertas. A redução das operações no mercado primário também reflete as turbulências do mercado e o aumento dos resgates dos fundos.
De janeiro a março, o volume de ofertas chegou a R$ 3,4 bilhões, segundo levantamento da gestora JGP, que considera os dados até 28 de março. O volume é maior que os R$ 2,58 bilhões registrados no primeiro trimestre de 2022, mas foi puxado, basicamente, pelas operações de janeiro. Em fevereiro e março, logo após os eventos Americanas e Light, as ofertas não chegaram a R$ 550 milhões.
A expectativa do mercado é que as operações de infraestrutura comecem a ganhar tração nos próximos meses. Isso porque há uma lista de companhias que venceram ou renovaram contratos de concessão em 2022 e que dependem do levantamento de recursos para tocar os projetos.
“Algumas empresas até podem esperar uma janela melhor para acessar o mercado, mas, em alguns casos, o contrato de concessão não permite”, afirma Getúlio Lobo, responsável pela área de distribuição de crédito privado da XP. “Se elas não captarem, não conseguem investir. Tem um balanceamento complexo entre postergar para ter uma taxa melhor ou captar para acelerar as despesas de capitais e ter um aumento de receita.”
Outro fato que deve impulsionar as emissões é o vencimento de cerca de R$ 1,9 bilhão em debêntures de infraestrutura previsto para 2023. A tendência é que sejam refinanciadas.
Fonte: Valor Econômico
