Por Larissa Garcia e Alex Ribeiro — De Brasília e São Paulo
30/03/2023 05h04 Atualizado há 4 horas
O crédito bancário deu novos sinais de piora em fevereiro, em um ambiente de aperto monetário pelo Banco Central (BC), de desaceleração da atividade econômica e de incertezas no sistema financeiro internacional e doméstico. O estoque de empréstimos e financiamentos caiu pelo segundo mês seguido, as concessões se retraíram e a taxa de inadimplência voltou a subir.
A nova rodada de deterioração ocorre em meio a alertas, no governo e no setor empresarial, de que os juros básicos altos poderão provocar uma queda mais forte do que a esperada na economia. Ao avaliar os dados, porém, o BC disse que o efeito no crédito do escândalo da Americanas foi pontual, e que a desaceleração está em linha com o aperto monetário.
Segundo os dados divulgados ontem pelo Banco Central, o saldo de crédito caiu 0,1% em fevereiro, ante janeiro, encerrando o mês em R$ 5,3 trilhões. A última vez que o estoque de crédito caiu por dois meses seguidos foi em janeiro e fevereiro de 2018, quando, apesar de o país estar em ciclo de corte de juros, o mercado ainda sofria impacto do período de contenção monetária anterior. Também pesou a redução das operações de bancos públicos, em particular do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Nas concessões de empréstimos e financiamentos, que costumam ter uma relação mais estreita com a atividade econômica, houve uma queda de 2,2%, comparado com janeiro, nos dados dessazonalizados. Os dados cheios apontam redução de 9,5%, mas o mês teve quatro dias úteis a menos do que janeiro. A inadimplência seguiu em trajetória de alta, passando de 3,2% para 3,3%. Há um ano, o índice estava em 2,5%. No crédito livre para pessoas físicas, os atrasos ficaram estáveis em relação a janeiro em 6,1%, mas em patamar elevado, o maior registrado desde setembro de 2016.
Os juros de linhas com recursos livres cresceram 0,7 ponto percentual no mês, para 44,2% ao ano, embora a taxa média total tenha ficado estável em 31,2%, refletindo queda de 0,8 ponto no crédito com recursos direcionados. O spread, que é a diferença entre a taxa de captação dos bancos e o custo que eles cobram nos empréstimos, subiu no mês para 20,9 pontos.
O Comitê de Política Monetária (Copom) do BC está dividido no seu diagnóstico sobre a retração do crédito. Alguns de seus membros dizem que ocorre da forma esperada e que, nos próximos meses, o volume vai cair e a inadimplência, subir. Alguns membros do colegiado dizem que a queda está acima do previsto, embora concentrada em algumas linhas de crédito.
Segundo economistas ouvidos pelo Valor, a tendência é que esses indicadores se deteriorem ainda mais nos próximos meses, na esteira do caso Americanas e da crise dos bancos dos Estados Unidos e da Europa, que tem deixado os bancos mais cautelosos.
O chefe do departamento de estatísticas do BC, Fernando Rocha, afirmou que, em seu entendimento, a crise das Lojas Americanas teve efeito “pontual” no crédito e que parece não haver risco de contaminação ou espraiamento. “O efeito se concentra nas linhas em que a Americanas tinha mais atuação, que é o risco do sacado”, ressaltou.
Essas modalidades são ligadas a descontos de duplicatas e antecipação de recebíveis, que tiveram queda acima do padrão histórico em fevereiro. “Não dá para cravar especificamente que é por causa das Americanas [o comportamento dessas modalidades em fevereiro], porque está em contexto de desaceleração do crédito como um todo. Tem um impacto pontual, mas não dá para dizer que a queda neste mês foi devido a isso”, disse.
O ex-diretor de política monetária do BC e sócio da Panamby Capital, Reinaldo Le Grazie, avalia que o relatório divulgado ontem mostra volume e concessão de crédito caindo, enquanto custo e inadimplência sobem. “A tendência em março é de piora nas condições do crédito, já que o comprometimento de renda entre pessoas físicas está alto. Para empresas, a inadimplência deve crescer e a crise bancária externa também impacta.”
Idean Alves, sócio e chefe da mesa de operações da Ação Brasil Investimentos, ressalta que o aperto monetário faz pressão sobre o sistema financeiro. “Além disso, a crise em grandes varejistas é apenas um sintoma do efeito que já era esperado pela alta de juros, pois toda decisão de política monetária do BC tem reflexos na economia real seis meses depois”, pontuou.
O especialista em renda fixa e sócio da Quantzed, Ricardo Jorge, enfatizou que a deterioração no mercado de crédito se acentuou recentemente. “A crise de crédito que vivenciamos por conta do caso Americanas e de outras varejistas restringiu o acesso a recursos para a população em geral, mas também é parte da atuação da política monetária mais restritiva”, afirmou.
Fonte: Valor Econômico
