O PIB surpreendeu ao subir 1,9% de janeiro a março deste ano, em relação aos três meses imediatamente anteriores. Ante o primeiro trimestre de 2022, o salto foi de 4%. Nessa base de comparação, para o segundo trimestre, a projeção mediana do Focus, pesquisa do Banco Central com analistas, passou de 0,7% no início do ano para 2,35% na última coleta.
O indicador de alta frequência da XP aponta avanço de 2,6% – na margem, isto é, em relação ao trimestre imediatamente anterior, seria uma alta de 0,3%. Há cerca de um mês, o crescimento indicado na margem estava em 0,2%; no ponto mais favorável, chegou a 0,5%, segundo o economista Rodolfo Margato. “Os dados recentes confirmaram a desaceleração da economia brasileira, com um crescimento bem mais modesto no segundo trimestre”, afirma.
Indicadores agregados da atividade em maio já demonstraram desaceleração, destaca Rodrigo Nishida, economista sênior da LCA Consultores. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) caiu 2%, na comparação dessazonalizada com abril, enquanto o Monitor do PIB, da FGV, apontou retração de 3%.
“Imaginamos que boa parte da frustração veio do setor agro, que foi o grande responsável pelo crescimento inesperado da atividade no primeiro quadrimestre. Esses resultados de agora acabam colocando uma certa ordem na casa”, diz Nishida. A LCA espera crescimento interanual de 2,3% do PIB no segundo trimestre, o que, em relação aos três primeiros meses do ano, significaria estabilidade.
Pelos dados oficiais do IBGE, a produção industrial avançou 0,3% em maio ante abril, quando caiu 0,6%. Indicadores coincidentes para tentar antecipar a produção industrial de junho são mistos, com ligeiro avanço no fluxo de veículos pesados nas estradas, por exemplo, mas queda na expedição de papel ondulado, de acordo com a série dessazonalizada pela LCA.
“A indústria extrativa vem crescendo de forma consistente, impedindo um resultado geral ainda mais fraco da indústria. Mas o destaque negativo é a indústria de transformação, que vem em uma trajetória de queda, ainda que não acentuada, especialmente devido à contração de bens de capital”, afirma Margato.
Esses bens, inclusive, tem uma correlação importante com os investimentos, pelo lado da demanda no PIB. “É um cenário de juros altos, de aperto da condições monetárias, além de haver mudanças regulatórias e tecnológicas que geram menor produção de caminhões e ônibus. São fatores que levam a uma dinâmica mais fraca dos investimentos”, diz Margato.
Pela ótica da oferta no PIB, o varejo ampliado – que inclui veículos e material de construção – tombou 1,1% em maio, após queda de 2,4% em abril, ambas na base mensal da pesquisa do IBGE. Vestuário e calçados, móveis e eletrodomésticos e material de construção acumulam quedas no segundo trimestre. “O varejo dessas atividades que vendem mais a prazo e dependem mais das condições de crédito vem enfraquecendo e isso não deve ser revertido no curto prazo”, afirma o economista da XP.
Quem tem impedido queda maior no varejo, diz Margato, é o atacado especializado em produtos alimentícios, bebidas e fumos (o “atacarejo”), que se beneficia da mudança estrutural no perfil de consumo e do arrefecimento recente no preço dos alimentos.
Para o curto prazo, ele menciona também um efeito positivo temporário da venda de veículos, por causa do programa de descontos do governo federal, lançado em junho. Em maio, as vendas de carros, motos, partes e peças de veículos já tinham subido 2,1%, mas após tombo de 5,6% em abril, em relação ao mês anterior.
Dados da associação de concessionárias, a Fenabrave, para o licenciamento de automóveis e comerciais leves em junho mostram crescimento de quase 15% ante maio e de 9% em relação ao mesmo período de 2022, de acordo com a série dessazonalizada pela LCA.
“O programa não deve ter efeito tão grande sobre a indústria de veículos, porque já havia muito estoque por parte das montadoras. Para o varejo, gera um movimento positivo de curto prazo, mas que não deve ser uma nova tendência”, afirma Margato.
O “tracker” de alta frequência do Itaú Unibanco para medir a atividade também aponta crescimento de 0,3% do PIB no segundo trimestre, ante o primeiro.
“Faltam apenas os dados de junho, mas a gente espera uma indústria puxando o desempenho para o negativo. Já a agricultura deve ter alta forte na variação interanual, de mais de 10%. Só que, como o primeiro trimestre foi muito forte, ainda vai registrar contração de 2% na margem”, diz a economista Natalia Cotarelli. Cerca de um terço da safra de soja, lembra Margato, ainda é contabilizada pelo IBGE no segundo trimestre. “Além disso, tem a contribuição do milho, que tem peso maior entre abril e junho.”
Para junho especificamente, o indicador proprietário de atividade do Itaú, o Idat-Atividade, apontou recuo de 0,7%. Na abertura, a maior contribuição para a contração foi do segmento de bens, que teve baixa de 1,6%, com piora tanto da demanda por bens sensíveis à renda, como combustíveis, quanto por bens mais sensíveis ao crédito, como móveis e eletrodomésticos. “Isso sinaliza um recuo principalmente do varejo restrito, já que o ampliado deve ver alguma alta por causa do programa de descontos para veículos”, reforça Cotarelli.
Diante de resultados menos animadores na indústria e agricultura, o que deve sustentar o número positivo do segundo trimestre é o setor de serviços, continua a economista do Itaú. “Apesar do Idat-Serviços apontar estabilidade em junho, a perspectiva principalmente dos prestados às famílias é de alta. É um segmento ainda resiliente”, afirma.
Assim como a LCA, o Santander espera crescimento zero do PIB no segundo trimestre, na comparação com o primeiro.
“Chegamos a ter um viés de alta para a atividade com os dados de abril, mas, depois de maio, ficamos mais confortáveis com a estimativa de estabilidade”, diz o economista Gabriel Couto. “Acreditamos que o impacto positivo da safra de soja acabou.”
Couto relativiza o impacto da “safrinha” de milho para o PIB do segundo trimestre. “Por mais que venha recorde, a variação da produção em relação a 2022 é menor que a observada na soja. Do ponto de vista do cálculo do PIB, é essa variação que importa”, explica.
Em relação a junho, o Santander espera um mês “de lado”. Seu próprio indicador para o varejo ampliado, o IGet, registrou queda de 2,2% ante o mês anterior. Já o IGet serviços, que busca antecipar o comportamento dos serviços prestados às famílias, teve alta de 0,1%.
Pela ótica da demanda, Margato observa que o consumo das famílias tem se mostrado mais resiliente do que o antecipado. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC), do FGV Ibre, por exemplo, subiu em abril, maio e junho, quando atingiu 92,3 pontos. “Mas é um consumo que vai migrando para itens de ticket médio mais baixo, que dependem mais do impulso de renda e menos do crédito”, diz.
Fonte: Valor Econômico