Os ataques aéreos destinados a intimidar os militantes houthis do Iêmen colocam os EUA e seus aliados contra um movimento apoiado pelo Irã, que sente que chegou o seu momento, tirando proveito da guerra Israel-Hamas.
Trata-se também de confronto que o Irã vem orquestrando há décadas, com a montagem de seu “eixo de resistência” a Israel e aos EUA. Mas nunca antes os membros do arco de influência de Teerã – que se estende dos houthis ao Hamas e à Jihad Islâmica em Gaza, do Hezbollah no Líbano às milícias no Iraque e na Síria – se coordenaram tão bem e em tal escala.
O que acontecerá a seguir não depende só do Irã, mas também, em grande parte, do líder houthi, Abdul Malik al-Houthi, cujo deleite por confrontar os EUA deixa poucas esperanças de que a escalada termine aqui. Combater a superpotência mundial é um passo para cumprir o que o homem de 44 anos e os seus seguidores acreditam ser o seu destino: tornar-se um líder pan-islâmico, segundo duas dezenas de pessoas entrevistadas pela Bloomberg.
Com a situação se desenrolando numa região repleta de rotas comerciais, o Irã colhe os frutos do seu investimento nos rebeldes que estão envolvidos em guerras civis no Iêmen desde os anos 90.
Os houthis derrubaram o governo do Iêmen em 2014, impondo um regime repressivo, recrutando crianças-soldados e mergulhando o país numa guerra civil. Isso atraiu a intervenção de potências regionais e provocou uma das piores crises humanitárias num dos países mais pobres do mundo.
“Morte aos EUA, morte à Israel e maldição sobre os judeus”, é o slogan do grupo. “Os houthis tornaram-se agora o agente de mudança no eixo da resistência”, disse Adnan Al-Gabarni, pesquisador iemenita que estuda o movimento.
Para Teerã, a escalada marca um momento decisivo nos seus esforços para nutrir aliados em toda região como um meio de projetar poder e construir uma linha de defesa contra Israel e os EUA.
O cenário para o confronto é o Mar Vermelho, cujos dois pontos estratégicos de estrangulamento – o Canal de Suez, no Norte, e o estreito de Bab el-Mandeb, no Sul – fornecem a ligação para cerca de 12% de todo o comércio global.
Os ataques dos houthis a navios nos expuseram a vulnerabilidade da economia global, causando estragos no mundo do transporte marítimo. O presidente dos EUA, Joe Biden, citou a ameaça à “liberdade de navegação” para justificar ataques aéreos, numa ação militar conjunta com o Reino Unido, contra alvos houthis no Iêmen.
O Irã faz mais do que fornecer armas e transferir tecnologia e conhecimentos especializados em mísseis aos houthis. Membros do Hezbollah e do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã participam de reuniões do Conselho Jihadi, que é liderado por Al-Houthi e serve como centro de comando e controle, disse Al-Gabarni.
A capacidade do Irã de avançar a sua relação com os houthis e depois alinhá-la com os seus próprios objetivos segue um plano meticuloso aplicado com outros representantes regionais, diz Joel Rayburn, ex-militar e diplomata dos EUA. Rayburn, cujo trabalho era compreender os métodos do Irã e combatê-los, diz que o Iraque e a Síria oferecem boas comparações com o Iêmen.
O papel dos houthis nas primeiras ações totalmente coordenadas pelo eixo após os ataques do Hamas a Israel, em 7 de outubro, teve sucesso além de apenas polir as suas credenciais como um potencial “segundo Hezbollah”, disse Hanin Ghaddar, do centro de estudos The Washington Institute.
“Eles não veem as fronteiras da mesma forma que nós as vemos”, disse Ghaddar. Com os houthis assumindo um papel tão proeminente desde 7 de outubro, o Hezbollah não tem de se envolver tanto a ponto de entrar em outra guerra total com Israel, disse ela.
Os houthis até agora parecem implacáveis. Eles alertaram que “todos os interesses dos EUA e do Reino Unido” na região se tornaram “alvos legítimos”.
A coordenação na forma de agir dos aliados iranianos também abre um novo capítulo na disputa de Israel com o Irã, especialmente depois de os houthis terem entrado no conflito ao lançar mísseis e drones diretamente contra Israel.
O que poderá funcionar como uma contenção fundamental é a aversão do Irã a uma guerra total onde corre o risco de ser superado por Israel e pelo Ocidente.
Apesar da retórica inflamada de Al-Houthi, o seu movimento poderá, em última análise, preferir colher ganhos políticos após uma guerra de oito anos com facções rivais e potências regionais como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. “A escalada através de todo este conceito de ‘unidade de frentes’ só vai até um certo limite”, disse Hasan Alhasan, pesquisador do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.
Fonte: Valor Econômico

