Por Mônica Scaramuzzo, Fernanda Guimarães e Stella Fontes — De São Paulo
28/02/2024 05h02 Atualizado 28/02/2024
O movimento de queda dos preços do lítio colocou em compasso de espera a venda de uma parte da Sigma Lithium, da empresária Ana Cabral, apurou o Valor. Essa é uma das operações de fusões e aquisições (M&A) mais aguardadas da indústria em 2024. A mineradora contratou o Bank of America e o BTG Pactual para prospectar sócios relevantes para o negócio e conduzir a “revisão estratégica” de suas operações.
No ano passado, diversos interessados, incluindo grandes grupos estrangeiros, chegaram a engajar bancos para participar do processo, mas o recuo do preço da commodity fez os candidatos refazerem as contas sobre o investimento. “Me parece que terão de voltar a focar no dia a dia da empresa e retomar com o processo em algum outro momento no futuro”, disse uma fonte que atuou do lado de um dos interessados.
Outro ponto sensível que também tem colocado os potenciais investidores em alerta é o litígio entre Ana Cabral e seu ex-marido, Calvyn Gardner. Embora diga que o processo de divórcio não afete a empresa, investidores não estão confortáveis em fechar negócio com uma empresa envolvida numa disputa societária, afirmou uma fonte a par do assunto à reportagem.
O litígio envolvendo Cabral e Gardner não tem previsão de um desfecho no curto prazo. Ele e a nora são alvos de uma ação da Sigma na Corte de Nova York, acusados de roubo de 80 mil documentos da companhia.
Em uma revisão dos seus negócios, a empresa avalia vender uma parte ou o total de projetos da Sigma dentro e fora do Brasil.
No ano passado, fundos e multinacionais se aproximaram da Sigma Lithium, mineradora brasileira de lítio, para uma potencial operação de fusão e aquisição (M&A, na sigla em inglês). Entre os interessados na companhia criada, controlada e administrada pela empresária e ex-banker Ana Cabral, estavam a chinesa Cmoc e o fundo soberano da Arábia Saudita, o PIF. Montadoras, como a Tesla, chegaram a avaliar o negócio, mas não seguiu adiante.
Os preços do lítio recuaram mais de 80% desde o fim de 2022, para cerca de US$ 13,4 mil por tonelada na segunda-feira (26), considerando-se o carbonato de lítio grau bateria, com 99,5% de pureza, segundo o Shanghai Metals Market, serviço chinês de inteligência de mercado (ver matéria ao lado).
A queda deveu-se à demanda menor do que o esperado por carros elétricos e à maior oferta do metal, sobretudo da China. Outros materiais usados na produção de baterias, como níquel, também vêm perdendo valor, em meio à desaceleração da produção de veículos elétricos e projeções frustradas de maior procura por esses metais.
No terceiro trimestre de 2023, a empresa reportou receita de US$ 97 milhões, marcando o primeiro trimestre de geração de faturamento durante a transição para um produtor global de lítio. No período, a margem de lucro líquido de alcançou 37%, devido ao baixo custo de produção resultante da eficiência operacional, que permitiu margens financeiras significativas e a capacidade de gerar fluxo de caixa livre.
Procurada, a Sigma informou, em nota, que o processo de revisão segue “em negociações contratuais e estruturais com os finalistas do processo”. “Podemos avaliar as alternativas estratégicas a partir de uma posição de máxima flexibilidade, apesar da atual recessão cíclica dos preços do lítio”, informou a companhia.
Conforme a empresa, esse processo atraiu “interesse estratégico global significativo” por causa do tamanho de suas reservas, da tecnologia “verde” para obtenção do lítio pré-químico e do baixo custo de produção. “A Sigma Brasil vem se preparando para a listagem primária das suas ações. Essa listagem pode ajudar a maximizar o valor para o acionista, caso a alternativa selecionada envolva apenas a Sigma Brasil. A companhia não espera que os processos de listagem interfiram na conclusão de sua revisão estratégica”, acrescentou.
Fonte: Valor Econômico
