Por Marsílea Gombata, Valor — São Paulo
20/06/2023 16h58 Atualizado há 15 horas
A expectativa de início do afrouxamento monetário deve dar respiro à atividade econômica, que já vinha amargando os efeitos dos juros em patamar alto. Esse cenário de redução da taxa de juros em breve e o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre levaram o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) a reduzir o pessimismo e revisar a projeção de crescimento do PIB em 2023 de 0,8% para 1,3%.
Na edição de junho, o Boletim Macro destaca que a decisão de política monetária pelo Comitê de Política Monetária (Copom) será o destaque desta semana. “Após muitos meses de política monetária apertada, com o juro real em terreno restritivo desde o fim de 2021, o Banco Central começa a colher os frutos: a inflação corrente e as expectativas inflacionárias estão cedendo, mesmo que de forma gradual”, afirma o Boletim, ao lembrar decisões do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e o Banco Popular da China (PBOC, o banco central chinês) na mesma linha.
O Copom deve tomar uma nova decisão, seguida de comunicado sobre os rumos da política monetária, nessa quarta-feira (21). “Finalmente a queda dos juros pode começar a ser discutida. Antes era especulação lá fora e aqui. Mas a política monetária começa a mostrar efeitos sobre atividade, especialmente sobre a demanda doméstica e, consequentemente, setores cuja atividade dependem dela”, afirma Silva Matos, coordenadora do Boletim Macro.
Apesar do resultado melhor que o esperado no início do ano, puxado principalmente pelo setor agropecuário, ela ressalta a demanda fraca no PIB do primeiro trimestre, apesar da expansão dos gastos sociais e da resiliência do mercado de trabalho.
“A política monetária está atuando, e os juros estão fazendo efeito, apesar do cabo de guerra entre política fiscal e monetária”, afirma. “Se tivéssemos uma política fiscal menos expansionista, o efeito da política monetária poderia ter sido mais forte e os juros poderiam até já ter descido.”
PIB cíclico e PIB exógeno
No Boletim, Matos e Armando Castelar lembram que o PIB cíclico representa 65% do valor adicionado na economia e é composto por atividades mais sensíveis à política monetária. O restante dos setores, como agropecuária, indústria extrativa, serviços públicos e atividades imobiliárias são agrupados no que se denomina PIB exógeno.
“Desde o terceiro trimestre do ano passado, o PIB cíclico tem permanecido próximo da estagnação, após expressivo crescimento no primeiro semestre de 2022”, afirmam.
No primeiro trimestre, 1,7 ponto percentual do crescimento de 1,9% do PIB veio da contribuição das atividades menos sensíveis à política monetária.
Dados relativos a abril também apontam para desaceleração do PIB cíclico. O Indicador de Atividade Econômica (IAE) do FGV Ibre subiu 0,7% em abril, ante março, e 3,4% na comparação com abril de 2022. Desses, 2,9 pontos percentuais vieram do PIB exógeno e 0,5 ponto percentual veio do cíclico.
Para o segundo trimestre, a projeção é de alta de 1,5% do PIB, na variação anual. A contribuição do PIB exógeno para o segundo trimestre seria de 1,6 ponto percentual, e a do PIB cíclico, de -0,1%. Na comparação com o trimestre anterior, deve haver queda de 0,6%, sendo -0,4 ponto percentual relativo ao PIB cíclico e -0,2 ao exógeno.
Para 2023, da projeção de crescimento de 1,3% do FGV, 1,1% ponto percentual se deve ao PIB exógeno, e 0,2 ao cíclico.
“Nossa projeção de crescimento do PIB foi revisada para 1,3% em 2023, ante 0,8%, anteriormente. No entanto, é importante destacar que, não fossem as projeções otimistas de crescimento do setor agropecuário neste ano, teríamos crescimento do PIB de apenas 0,3%”, escrevem Matos e as economistas Marina Garrido e Ana Victoria Pelliccione.
Expectativas mais favoráveis sobre política econômica
Esse é a projeção para um cenário de afrouxamento da política monetária, previsto para começar no segundo semestre. Segundo o Boletim, esse gradual relaxamento se deve também às expectativas mais favoráveis do mercado em relação às perspectivas para a política econômica.
“Entre elas a expectativa de manutenção da meta de inflação em 3%, o que ajudou a trazer as expectativas Focus para 2025, 2026 e 2027 para menos de 4,0%, ano contra ano, patamar no qual haviam estacionado por alguns meses, após sofrerem aumento expressivo, fruto das conjecturas sobre possível elevação da meta”, diz o texto.
Na seção sobre política monetária, José Julio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV Ibre, lembra que a vitória contra a inflação está longe de assegurada, mas estamos diante de um conjunto animador de sinais.
“Nos últimos três ou quatro meses, largo número de indicadores financeiros tem sinalizado um ambiente macroeconômico compatível com inflação mais baixa e, consequentemente, com espaço para o início do tão aguardado momento em que a taxa básica de juros começará a cair”, afirma.
Mercado recebeu bem arcabouço fiscal
Ele lembra que, além da política monetária, contribuiu para o combate à inflação o fato de integrantes do governo pararem de mencionar a possibilidade de ajustar a meta de inflação para cima, choques de oferta responsáveis por parte do surto inflacionário mundial terem sido revertidos, e o mercado ter recebido bem o novo arcabouço fiscal.
Matos prevê, contudo, que o Copom seguirá um roteiro protocolar e que a redução da taxa Selic ocorrerá de forma gradual a partir de agosto ou setembro.
“Dependerá muito da continuidade desse processo favorável à redução da inflação, com inflação de serviços e os núcleos reduzindo, e com a atividade não surpreendendo tanto para cima na parte cíclica, ou seja, com a economia possibilitando a queda de juros e, principalmente, das expectativas para 2023 e os próximos anos”, diz
Apesar do cenário atual, Senna observa, ainda persistem preocupações quanto à inflação. “Na leitura da média móvel trimestral anualizada, construída com base em dados mensais devidamente dessazonalizados, ainda vemos números elevados. O IPCA pleno cresce a um ritmo anual de 6,7% e a média de cinco núcleos cresce ao ritmo de 5,7%. A inflação de serviços ainda se mostra resiliente, com taxa de variação de aproximadamente 6%”, afirma.
“Ainda há muito por fazer. Mas o conjunto dos sinais é animador. É hora de não fazer marola e aproveitar o bom momento.”
André Braz, coordenador do departamento de inflação do FGV Ibre, espera 4,6% de inflação em 2023 e 4,1% em 2024. “Estamos vendo luz no fim túnel, mas ainda não chegamos lá”, conclui Matos.
Fonte: Valor Econômico


