O Ministério da Fazenda elevou de 4,5% para 5,1% a projeção para este ano da inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), colocando a estimativa acima do teto da meta de inflação, de 4,5%. A revisão reflete, principalmente, a expectativa de um El Niño mais intenso. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano, por sua vez, foi mantido em 2,3%.
A Secretaria de Política Econômica (SPE) incorporou às projeções os efeitos de eventuais novas tarifas pelos Estados Unidos, mas avaliou que terão impacto macroeconômico sobre a economia será limitado. Já a retomada do conflito entre Estados Unidos e Irã, ocorrida após a data de corte das projeções feitas pela pasta, ficou fora do cenário-base, mas é considerada como um risco relevante de alta para os preços da energia e para a inflação.
As projeções atualizadas foram divulgadas nesta quarta-feira (15) no Boletim Macrofiscal. Segundo a SPE, a revisão do IPCA também reflete a aceleração dos preços de serviços e bens industriais, os efeitos de segunda ordem do choque do petróleo, repasses ainda pendentes aos preços ao consumidor e a piora das expectativas de mercado.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2026/F/p/GjRHQMRXeDePDClTdkgg/arte16bra-202-macro-a2.jpg)
A secretária de Política Econômica, Débora Freire, afirmou que o governo passou a ter “mais clareza” de que o El Niño deverá ser mais intenso. Segundo ela, esse cenário, combinado aos dados mais recentes, é incorporado às projeções por representar um risco de alta para a inflação, especialmente no segundo semestre, quando os efeitos climáticos tendem a se intensificar. A equipe econômica, no entanto, não estuda medidas para mitigar os impactos do fenômeno climático, disse.
Apesar da revisão para cima, a SPE elencou alguns fatores que continuam atuando no sentido de conter a inflação. Entre eles estão, por exemplo, a manutenção da taxa Selic em patamar contracionista, as medidas adotadas pelo governo para limitar o repasse da alta dos combustíveis e a queda das cotações internacionais do petróleo. A cotação média do barril de petróleo prevista para 2026, por exemplo, caiu de US$ 91,25 para US$ 79,16.
O subsecretário de Política Macroeconômica, Rafael Leão, afirmou que a acomodação dos preços das commodities, sobretudo pela queda do petróleo Brent, é insuficiente para justificar uma revisão para baixo da inflação. Segundo ele, os efeitos de segunda ordem do choque do petróleo já se disseminaram pela economia brasileira e tendem a demorar mais para se dissipar, especialmente em um ambiente de elevada incerteza geopolítica.
No cenário externo, a SPE incorporou às projeções os efeitos de eventuais novas tarifas a serem anunciadas pelos Estados Unidos, mas avaliou que o impacto macroeconômico sobre a economia brasileira deve permanecer reduzido. Isso porque, segundo a secretaria, as medidas anunciadas pelos EUA em junho de 2026, ainda pendentes de aprovação, preveem exceções para diversos produtos, o que tende a manter o impacto agregado modesto.
Queda recente no preço do petróleo foi insuficiente para SPE revisar inflação para baixo
Além disso, a pasta destacou que as medidas adotadas pelo governo desde o ano passado para ampliar crédito, liquidez e diversificar mercados devem ajudar a mitigar os efeitos negativos. A SPE também ressaltou que as exportações brasileiras mostraram resiliência após a elevação das tarifas em agosto de 2025, com recuperação gradual desde novembro.
“Como o mercado americano respondeu por cerca de 11% das exportações brasileiras em 2025, equivalentes a menos de 2% do PIB antes do choque, e o redirecionamento das vendas para outros destinos compensou parte relevante da perda, o efeito direto sobre a atividade foi limitado e tende a continuar desta forma”, avaliou.
Além do El Niño, a SPE manteve no cenário de riscos a possibilidade de novos choques sobre a inflação decorrentes do ambiente geopolítico. Segundo a pasta, os avanços diplomáticos entre maio e o início de julho reduziram temporariamente os riscos associados ao conflito entre Estados Unidos e Irã, contribuindo para a queda do petróleo.
No entanto, a retomada do conflito em 8 de julho, após a data de corte do boletim, que foi 6 de julho, elevou novamente os preços da commodity e as incertezas quanto à evolução do conflito. Embora esse movimento ainda não tenha sido incorporado ao cenário-base das projeções, a Fazenda passou a tratá-lo como risco de alta para os preços da energia e para a inflação.
Para 2027, a projeção do IPCA foi elevada de 3,5% para 3,6%. O Ministério da Fazenda também revisou para cima as estimativas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), de 4,6% para 5,3% em 2026 e de 3,6% para 3,7% em 2027. Já a projeção para o Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) passou de 4,9% para 5,6% neste ano e foi mantida em 4% para o próximo.
Fonte: Valor Econômico


