O presidente do BradescoCotação de Bradesco, Marcelo Noronha, disse na tarde desta sexta-feira, em entrevista à Globonews, com participação do Valor, que as medidas em torno da alta do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) no crédito para empresas podem ter efeito sobre a curva de juros, e pelas contas da equipe do banco, equivaleriam a um aumento da taxa de juros básica (Selic) em 0,20 a 0,50 ponto percentual. Atualmente, a Selic está em 14,75% ao ano.
“É um cálculo preliminar, quero fazer a ressalva, mas nós viemos de uma política contracionista, e que vai ser ajudada com as medidas do crédito [mais caro] às empresas. Porque, de acordo com a nossa equipe, talvez a gente veja uma contração equivalente a um aumento de taxa [Selic] de 0,20 a 0,50 no topo. E talvez o Banco Central, pelos modelos dele, estou me atrevendo aqui, poderia manter a taxa na próxima [reunião do] Copom. Porque eu não preciso mais subir a taxa, ele tem uma ajuda em cima da política fiscal, e das medidas tomadas, porque ele agora tem outra notícia, a do contigenciamento”, disse o executivo.
Questionado se isso não poderia levar a uma retração maior da economia, pelo aspecto negativo das medidas, ele disse que há esse risco de uma economia menos acelerada.
“Paciência, né, é o que temos agora, é bem importante o trabalho da política fiscal, para vermos o trabalho lá na frente de queda das taxas, e para cair [a relação] dívida pública sobre PIB. Mas, de fato, é contracionista e com as medidas você segura um pouco mais, e naturalmente vamos ver uma economia um pouco menos acelerada para frente.”
Matéria publicada nesta sexta-feira (23) no Valor Pro já antecipava expectativas de fontes do mercado ouvidas que calculavam efeito da alta no IOF equivalendo a uma elevação de 0,25 a 0,75 pontos na Selic, a depender dos cálculos.
O banco ainda prevê de alta de PIB de 1,9% a 2%, e não revisou isso com medidas de ontem. Mas Noronha disse ter a impressão de que pode haver um horizonte melhor à frente, a depender de decisão do Copom e se a inflação ajudar.
Mensagens para Haddad
Noronha disse que escreveu ontem ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a respeito da decisão de elevar o IOF, e fez sugestões que podem estar na mesa do governo. O pacote contempla a alta da tributação sobre operações de crédito a empresas. Inicialmente, também previa a cobrança de imposto sobre remessas ao exterior, mas o governo recuou desse ponto diante da repercussão negativa.
“Eu sou partidário e defensor do equilíbrio das contas públicas, principalmente pelo lado da contenção dos gastos públicos aqueles gastos que não sejam eficientes. E essas são medidas relativamente fortes e vão encarecer o crédito das empresas. Então eu tomei a liberdade de escrever ao ministro, porque a gente tem uma dose grande de pragmatismo”, disse.
“Ele [Haddad] não ia arrecadar e os fundos iam perder a sua condição de operar, isso não fazia sentido e foi o primeiro item que sugeri quando lhe falei e fiquei feliz com o passo para trás”. Segundo ele, a medida inviabilizaria a movimentação dos fundos multimercados.
“Eu fiquei satisfeito nesse sentido, porque tudo nós podemos errar. Agora, o ruim é você persistir no erro.”
Noronha ainda esteve em contato ontem com Marcos Pinto, secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, e disse que mencionou a questão da assimetria de impostos sobre produtos financeiros. Isso porque o pacote elevou o IOF sobre crédito a empresas, mas não fez o mesmo para títulos de dívida emitidos no mercado de capitais, como debêntures. O presidente do Bradesco afirmou ter feito sugestões, que devem estar na mesa.
“Por exemplo, temos toda a linha de empréstimo da pessoa jurídica, com as empresas, pequenas, médias e grande, e a gente também tem um banco de investimentos, em que a gente faz a emissão lá de dentro, as notas comerciais, a gente apoia a emissão de CRI, CRA. Só que o que chamamos de títulos e valores imobiliários não sofreu alteração de IOF. Então, você tem uma certa assimetria de mercado, que a nossa sugestão também é de que eles façam uma correção em cima disso, porque vai ser positivo para o mercado”, afirmou.
“Obviamente o pessoal de banco de investimentos não vai gostar de me ouvir falar disso, nem o pessoal de ‘asset’, mas essa é a realidade dos fatos, a gente tem que corrigir certas assimetrias”, completou.
Sem acatar sugestões
Perguntado se o ministro sinalizou se poderia acatar alguma sugestão, ele disse que escreveu para tirar dúvidas, e Marcos Pinto o contatou, mas não era a intenção debater medidas do governo.
Questionado pelo Valor, se ele sugeriu estabelecer um IOF em algum outro produto para equilibrar esse peso maior sobre crédito das empresas, ele negou, e disse que a sugestão é nivelar a cobrança. A equipe econômica continua debruçada sobre o tema e já informou que há possibilidade de algum ajuste nas medidas, se considerar apropriado.
“A ideia é nivelar, efetivamente, o IOF cobrado, por exemplo, de uma cédula de crédito bancário, que a gente faz negócio com as empresas usando isso, ou com uma debênture, com uma nota comercial. Não faz sentido você ter instrumentos que são muito parecidos na prática, e que um tem uma determinada tributação do IOF e o outro não”, disse o executivo.
Um dos problemas que os bancos enfrentariam com assimetrias é que na hora em que se tributam certos produtos, eles podem perder competitividade frente a outros.
“A gente não quer sair oferecendo só uma linha agora porque não tem IOF, a gente quer fazer o que é certo, o que é simétrico”, disse ele.
Noronha lembrou que o bloqueio de R$ 31 bilhões foi notícia positiva, porque ficou acima do que o mercado esperava, e, após o recuo parcial nas medidas de IOF, “a turma do fundo acho que virou página, porque mercado financeiro é pragmático”, disse.
Fonte: Valor Econômico
