12/05/2022 05h03 Atualizado há 4 horas
O comportamento dos ativos financeiros tem estado a reboque do cenário internacional, na medida em que as discussões em torno da inflação e dos rumos da política monetária nos Estados Unidos dominam as atenções no mercado. As consequências são um ambiente de juros mais altos em economias avançadas e de menor liquidez são um cenário mais difícil para ativos de risco, apontaram Bruno Marques, sócio e gestor dos fundos multimercado da XP Asset Management, e Fabiano Godoi, sócio-fundador e diretor de investimentos (CIO) da Kairós Capital, na “Live do Valor ” de ontem.
“Estamos vendo nos EUA o mesmo filme que aconteceu no Brasil e em outros emergentes”, diz Marques. Ele nota que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) levará os juros rapidamente para o nível neutro (que não estimula nem esfria a economia). “Achamos que isso vai ser muito mais rápido”, afirma o gestor. Para ele, o banco central americano deve promover ao menos mais quatro aumentos de 0,5 ponto nos juros, e, quando as taxas chegarem próximas do nível de equilíbrio, será possível começar a desacelerar o ritmo.
“O mercado, talvez por estar muito ancorado no que aconteceu nos últimos 10 a 15 anos, com uma volatilidade de inflação baixa e taxas de juros muito baixas, demorou a aceitar isso, mas hoje está bem claro para onde o Fed quer levar os juros”, disse Marques. Ele, porém, acredita que o erro da autoridade monetária dos EUA está em “não reconhecer que vai precisar colocar os juros no restritivo [patamar que freia a atividade]”.
Godoi, da Kairós, lembra que o passado recente foi de juros reais negativos no mundo e, na medida em que as taxas alcançam níveis mais elevados, “parece razoável imaginar que a relação risco/retorno de investimentos em bolsa passa a ser pior do que se tinha no momento anterior”. Para ele, a volatilidade de juros e de moedas diminuída permitiu uma alocação maior em ativos de renda variável do que o histórico. “Esse mundo tende a ser diferente, não só pelo aperto monetário, mas também por outro aspecto que é o da diminuição da liquidez internacional.”
O sócio da Kairós lembra que o Fed começará a retirar a liquidez somente no início do próximo mês e a um passo “relativamente comedido”, que irá acelerar somente depois de três meses. “Essa é uma parcela do problema que ainda vai gerar bastante movimentação, bastante volatilidade nos mercados e que tem potencial de atrapalhar muito os ativos de risco, justamente por retirar liquidez do sistema.”
Marques, da XP Asset, tem visão semelhante, ao observar que, entre 2016 e 2020, as grandes apostas da gestora foram em queda de juros e alta da bolsa. “Quando a gente começa a pensar no reverso disso, tudo vai muito contra alocação em renda variável”, disse. O profissional ressaltou que boa parte do impacto do aperto monetário no Brasil deve surtir efeito no segundo semestre deste ano e, principalmente, em 2023. “Nesse ambiente, não achamos alocação em Ibovespa muito boa. A bolsa vai ter muita dificuldade em ganhar do CDI no Brasil”, diz. A XP Asset não tem posições em bolsa no Brasil e opera com posições vendidas [aposta na queda] em bolsa nos EUA.
Godoi afirmou que a Kairós também tem operado com posições vendidas em bolsas globalmente, ao enfatizar que essa classe de ativos “dificilmente vai apresentar boa relação de risco/retorno”. Para ele, embora boa parte do ajuste monetário no Brasil já tenha ocorrido, isso “não é garantia” de que os ativos locais passarão de maneira positiva pelo aperto das condições financeiras globais.
Fonte: Valor Econômico


