Poderia ter sido na Suécia. Os dois candidatos a vice-presidente dos EUA mostraram nessa terça à noite que a política americana poderia ser muito melhor do que tem sido nos últimos anos. O democrata Tim Walz e o republicano JD Vance fizeram um debate absolutamente civilizado, focado em propostas e ideias. Não houve ataques pessoais, baixarias e muito menos cadeiras voando. No geral, Vance parece ter tido um desempenho um pouco melhor. Isso tudo terá algum impacto na campanha eleitoral nos EUA? Não está claro ainda.
Tradicionalmente o debate entre candidatos a vice conta muito pouco nas eleições presidenciais americanas. Mas desta vez pode ser diferente. A disputa entre a democrata Kamala Harris e o republicano Donald Trump está apertada e deverá ser decidida voto a voto nos Estados-chave. Numa situação assim, qualquer punhado de votos no lugar certo pode fazer a diferença, incluindo os que Vance ou Walz possam ter conquistado ontem.
Ambos claramente quiseram fazer um espetáculo diferente do proporcionado por Trump, Kamala e o presidente Joe Biden nos dois debates entre os candidatos presidenciais. Em meio a divergências, ambos trocaram gentilezas ao longo do debate. Ambos fizeram mea-culpa sobre declarações passadas e admitiram erros, coisa que Trump nunca fez, afinal ele talvez ache que nunca erra.
Vance admitiu que muita coisa poderia ter sido melhor no governo Trump, ao contrário do que Trump sempre diz, que tudo era perfeito e sensacional no seu governo. E sugeriu que ele e Walz concordam em várias questões, com o que o democrata por vezes concordou. Uma dessas questões foi a necessidade de apoiar as famílias com o benefício de licença maternidade e paternidade. Nos EUA, essas licenças não são garantidas por lei.
O republicano também se solidarizou com o episódio de violência escolar presenciado pelo filho de Walz, que agradeceu. O democrata admitiu que errou em declarações e agradeceu Vance pelo bom nível do debate, dizendo que era isso que os eleitores queriam ouvir. Ambos afirmaram esperar que democratas e republicanos possam cooperar mais no Congresso americano, o que quase não ocorre hoje em dia. Ambos, como era esperado, atacaram mais os candidatos presidenciais rivais do que um ao outro.
Ao final Wals, de 60 anos, governador de Minnesota, e Vance, 40 anos, senador de Ohio, deram as mãos, se abraçaram, cumprimentaram as respectivas esposas e conversaram por mais tempo do que Trump e Kamala possivelmente jamais conversaram.
Essa guinada foi talvez mais importante para Vance, que se apresentou ao público americano de um modo mais moderado do que costuma aparecer. Claramente ele tentou mostrar um trumpismo com cara limpa. Ele também mentiu bem mais do que Walz, segundo avaliação de checadores, como quando disse nunca ter apoiado uma proibição nacional do aborto nos EUA.
Pesquisa qualitativa realizada simultaneamente ao debate sugeriu que Vance foi melhor na primeira metade e que Walz se saiu melhor na parte final.
Se o impacto do debate na campanha presidencial americana ainda é incerto, a cordialidade do debate dificilmente surtirá qualquer efeito na política americana, que continuará polarizada e intratável, especialmente enquanto a figura tóxica de Trump continuar dando as cartas no Partido Republicano.
Vance se recusou a discordar da narrativa de Trump de que a eleição de 2020 foi roubada. Disse ainda que o protesto que culminou com a invasão do prédio do Congresso americano foi pacífico e que não houve nada de antidemocrático na tentativa de Trump de reverter o resultado das eleições. Mesmo a gentileza tem limites. E os EUA não são a Suécia.
Fonte: Valor Econômico