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A transição energética para uma economia cada vez mais limpa exigirá investimentos pesados em fontes renováveis de energia elétrica e térmica, e desenvolvimento tecnológico para a criação de equipamentos e produtos mais eficientes e menos poluentes. Nesta linha, os minerais críticos (lítio, cobalto, nióbio e terras-raras, entre outros) vão desempenhar um papel cada vez mais importante e estratégico na economia global.
É esse o campo de estudo de Tom Moerenhout, professor associado adjunto na Escola de Assuntos Internacionais e Públicos da Universidade Columbia. Ele foi um dos participantes do “Brazil Climate Summit”, evento que apresentou as potencialidades do Brasil a estrangeiros e brasileiros, dia 18, em Nova York. A seguir, os principais pontos da entrevista:
Valor: Como o senhor vê a abordagem para minimizar os impactos ambientais e sociais em regiões onde, por exemplo, a mineração de minerais críticos acontece?
Tom Moerenhout: Temos que evitar o tipo de impacto ambiental e social que, muitas vezes, vem acompanhado de projetos extrativos. Quando pensamos em mineração em geral não dá para esquecer o que aconteceu em Brumadinho e Mariana. As empresas deveriam se perguntar, quando chegar a um lugar, como estão prejudicando o meio ambiente; como é feita a gestão do fluxo de resíduos; e quem é impactado. Um segundo ponto é que o governo precisa fazer um trabalho bom o suficiente para estabelecer padrões altos para as empresas. Acredite ou não, isso é algo com que investidores internacionais, especialmente de Estados Unidos e Europa, se importam muito.
Valor: E como incentivar a geração de riqueza local?
Moerenhout: Você pode ter requisitos de conteúdo local no setor de mineração, que exijam que uma certa parte da sua infraestrutura ou uma certa porcentagem da sua força de trabalho venha de fontes locais. Isso é absolutamente importante, senão vai acontecer de uma empresa internacional entrar em um país, trazer seus próprios materiais e força de trabalho. Quando você fala de transição justa é exatamente isso: você não pode extrair e exportar sem benefícios adicionais.
Valor: Estariam basicamente pagando os impostos…
Moerenhout: Sim, mas apesar de royalties serem importantes, acho que países ricos em minerais, especialmente dada a posição que têm hoje, deveriam ser capazes de pedir mais, não? E isso significa construir uma parte da cadeia de suprimentos em casa e, eventualmente, pedir que parte do processamento possa acontecer no país também. A partir do momento em que você faz isso, seu produto aumenta de valor de forma bastante significativa. Isso é crítico porque, caso contrário, há o risco de acabarmos com esse “novo modelo extrativista”, em que países ricos em minerais em economias em desenvolvimento e emergentes estão exportando apenas matéria-prima e isso não é necessariamente algo que você deseja.
Valor: A maior parte das empresas que fazem extração de minerais críticos é do hemisfério Norte. Na sua visão, já há alguma conscientização sobre essas necessidades?
Moerenhout: A China e as empresas chinesas são o maior investidor nesse espaço agora, o maior extrator. Quando você olha para a fabricação de tecnologia de energia limpa, a China está capturando uma fatia maior do bolo. Então, para países na Europa ou América do Norte, a prioridade agora é que precisam ter segurança de fornecimento de alguns desses minerais. Portanto, é muito importante que países como o Brasil ou Argentina tenham essa conversa com esses países e expliquem que a principal prioridade é desenvolvimento econômico.
Valor: Na Semana do Clima em Nova York, o tema do financiamento veio à tona como importante para garantir o protagonismo de países expoentes da economia verde. Como fazer com que o dinheiro flua para esses locais?
Moerenhout: Um dos grandes obstáculos é que atualmente você tem muito investimento vindo da China. Por um lado, é algo bom porque estão investindo em países ricos em minerais, inclusive quando os preços estão baixos. Mas eles não se preocupam tanto com a forma que estão fazendo, se estão respeitando o meio ambiente e a sociedade. Por outro, empresas não chinesas não veem o retorno sobre o investimento nesses projetos hoje e não podem suportar tanto risco quanto as chinesas. Risco político, ambiental, de mercado, preços baixos.
Valor: É possível fazer uma mineração sustentável?
Moerenhout: Quem disser que é 100% sustentável está mentindo. É um processo com inevitável impacto. Porém, quando falamos de minerais para a transição energética, há maneiras e maneiras de produzir. Pode ser produzido de maneira a ser bom para as comunidades locais, não ferir tanto o meio ambiente.
Fonte: Valor Econômico