Valor — Genebra
24/08/2023 11h44 Atualizado há 22 horas
Com o sinal verde para o Irã, Arabia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito, Argentina e Etiópia entrarem no Brics, será mais difícil segurar a intenção da China, e também da Rússia, de empurrar o grupo de emergentes crescentemente para um foro antiocidental.
A China sai como a grande vencedora da cúpula de Joanesburgo. Foi a proponente de expandir o grupo para 11 países, quando não havia entusiasmo dos outros sócios. Pequim foi pouco a pouco tratorando as resistências e deu uma demonstração da afirmação do poder chinês.
Na outra direção, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou na cúpula do Brics com 20% de capital político do grupo e saiu com menos de 10% com a entrada de novos sócios e influência reduzida.
O que era o Brics de 2009 é diferente do Brics de 2023 porque as circunstâncias do mundo mudaram. Se era uma aliança defensiva diante da exuberância do mundo multipolar de então, hoje o grupo é mais ofensivo e com uma agenda com peso chinês.
Em todo o caso, se já era difícil construir pontos positivos antes no Brics, agora será ainda mais complicado.
A questão é: o que o Brasil ganha com uma política externa que esnoba a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Economico (OCDE) e se alinha no grupo com o Irã , um país ressentido que tem como agenda forte atacar o ocidente?
Lula conseguiu incluir a Argentina no Brics. O risco é de, dentro de algumas semanas, a Argentina ter um novo presidente que pode até tomar a decisão de não querer entrar no grupo.
O Brics nasceu artificialmente de uma sigla criada por um economista de banco americano Goldman Sachs, que os cinco grandes emergentes (Brasil, Rússia, India, China e depois Africa dos Sul) tornaram uma realidade.
O grupo teve destaque na crise financeira de 2009 e nos anos seguintes. Seus membros não deram origem à crise e fizeram foi ajudar com seu desempenho a retomada da economia global.
Na crise, o G7, sob a liderança dos EUA, reconheceu que precisava ampliar a plataforma para tratar da governança global. O Brics nasce na área financeira simultaneamente com a ampliação do foro do G20 de ministros de finanças para encontro dos líderes, ocorrido em novembro de 2008 nos EUA.
De lá para cá a composição do Brics ficou cada vez mais assimétrica. A China tem sido a única reunindo condição de potência econômica, militar e diplomática. O Brasil passou bem pela crise global, viveu um momento positivo de sua economia, mas depois estagnou e voltou ao padrão de crescimento insuficiente e medíocre.
Já a India acelerou seu crescimento, mas as tensões com a China aumentaram, elevando dificuldades internas do grupo. Nova Deli se juntou em parte ao esforço americano de contenção da China. Ou seja, os dois países mais populosos do mundo, com forte rivalidade, problemas de definição de fronteiras e escaramuças ocasionais sentavam na mesma mesa.
Por sua vez, a Rússia de Vladimir Putin teve seu isolamento internacional aprofundado, ao mesmo tempo em que ampliou a aliança ‘sem limites’’ com Pequim.
Antes já eram feitas indagações sobre um grupo integrado por países tão diversos. Com a reforma agora decidida em Joanesburgo, será um mecanismo ainda mais complicado e com persistentes rivalidades também entre os novos membros.
O Irã tem histórico de atrito, tanto na sua própria região como em relação ao ocidente. Um de seus conflitos regionais é com os Emirados Árabes envolvendo três ilhas no Golfo Pérsico, numa área estratégica para passagem de petróleo.
A Arabia Saudita, com relação forte e estratégica com os EUA, mas tem acumulado de problemas de direitos humanos. É o violador de direitos humanos que o ocidente reluta mais em criticar.
Os Emirados Árabes Unidos, também apoiados em sua fortuna, buscam uma certa afirmação em relação à política externa americana, sobretudo quando se trata de não isolar realmente a Rússia e nem de limitar os vínculos com a China.
A expectativa é de a Arabia Saudita e os Emirados Árabes colocarem volumosos recursos no banco do Brics, presidido por Dilma Rousseff. Ambos tem também fundos soberanos e não soberanos bilionários, enquanto o ciclo do petróleo durar, que podem investir em diferentes partes do mundo.
O Egito, com seu regime autoritário, é um país que tem tradição de diplomacia ativa, mas frágil economicamente. E tem um conflito com a Etiópia envolvendo a construção de uma hidroelétrica no Nilo, que considera uma ameaça séria para sua segurança em água.
Não está claro o critério para a Etiópia para entrar no grupo, a não ser a diversidade geográfica. É um país tradicionalmente não alinhado que tem como principais parceiros comerciais a China e a Rússia. A Nigéria, a maior economia da Africa, continua fora do grupo.
O que é previsível é que a expansão do Brics não vai parar por aí, a se julgar pelo interesse chinês em reforçar uma aliança que pode chamar de sua. E quanto maior o número de membros de uma aliança, maior a possibilidade de desencontros.
As evoluções diplomáticas são interessantes, mas, como nota um analista, o que conta no mundo é o poder. E Pequim deu uma mostra disso. Tanto ao promover antes a aproximação entre a Arabia Saudita e o Irã, como em seguida levar os dois para dentro do Brics.
Ironicamente, os dois grandes exportadores de petróleo estão sendo colocados dentro do grupo pelo país que é hoje o grande produtor mundial de veículos elétricos, com uma revolução industrial que poderá contribuir para acelerar o fim do ciclo da riqueza das potencias petroleiras.
Tornar o Brics uma aliança antiocidental não interessa ao Brasil, India, Africa do Sul, os três que justamente tem interesse em assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Lula sai de Joanesburgo com a promessa de apoio genérico para a reforma da ONU. Mas a China não aceita ampliação dos membros permanentes do Conselho de Segurança. O que Pequim não faz é abrir mão de poder.
O que vai acontecer na cúpula do Brics no ano que vem, sob a presidência da Rússia?
O anúncio da expansão do Brics coincidiu com a morte em acidente de avião do líder do grupo mercenário Wagner, Yevgeny Prigojin, meses depois de um motim fracassado contra o Exército russo.
Fonte: Valor Econômico


