O Brasil saiu do radar do capital externo, tanto para investimentos diretos quanto para alocação em portfólio, e se não encarar com seriedade a questão fiscal vai ter dificuldades para ganhar alguma relevância. É com essa avaliação que o ItaúCotação de Itaú Unibanco cortou a exposição em bolsa nas suas carteiras recomendadas para o menor nível em oito anos, privilegiando posições em caixa no CDI ou estratégias ligadas a juros reais.
“Se o cliente pergunta, a gente diz que o CDI é fantástico”, disse Nicholas McCarthy, diretor de estratégia de investimentos do Itaú Unibanco, em encontro com jornalistas. “Para ficar otimista com ativos brasileiros, precisaria ver inflexões das inflações futuras no Focus e no mercado.”
Ele citou que, enquanto as projeções dos economistas na coleta do Banco Central apontam para um IPCA de 4,5% em 2025, os preços de mercado embutem 7%. “[A inflexão] vai acontecer, primeiro porque o Banco Central vai subir o juro até o necessário para controlar a inflação, é difícil saber qual o nível, mas a curva [dos contratos futuros] já aponta acima de 16%. Mesmo se a inflação for 5% ou 6% para exagerar, o juro real é de 10%.” Ou seja, é uma dose gigante.
A indicação para alocação em bolsa no Brasil está em -2, abaixo do nível estrutural. Numa carteira de perfil moderado isso significa uma exposição de 5% do patrimônio. Para o conservador, a fatia indicada é metade disso, enquanto no agressivo vai a 7%.
Com incertezas para a trajetória da dívida pública e para a inflação, o capital externo tem se afastado do país. “É a primeira vez desde 2018 que o estrangeiro não vai investir em Brasil. Eu não consigo ver um mês, e precisa ter visibilidade para investir, para os estrangeiros voltarem. O país precisa controlar a inflação e o juro cair”, afirmou, acrescentando que o fluxo do capital externo no mercado acionário é um termômetro do investimento direto. “O Brasil saiu do radar.”
Em dezembro, o estrangeiro comprou liquidamente R$ 1 bilhão em ações, mas, no acumulado do ano, as saídas somam R $ 32,7 bilhões. Até outubro, pelas estatísticas do setor externo do BC, o investimento direto ainda era positivo em US$ 61,3 bilhões.
A inflação também é o calcanhar-de-Aquiles para o brasileiro que nos últimos cinco anos viu o CDI ganhar de todas as classes de ativos, incluindo bolsa, renda fixa prefixada e títulos indexados ao IPCA. “Como recomendar para o investidor, para o empresário que quer investir? O que eu vou falar para ele? Coloca no CDI e vai dormir tranquilo”, disse McCarthy.
No rol dos títulos de crédito isentos, o executivo disse que enquanto o benefício fiscal prevalecer para a pessoa física, em meio a um cenário de juros altos, os papéis de dívida seguem imbatíveis. No pacote fiscal que o governo encaminhou ao Congresso, a reforma da renda prevê alguma taxação a quem ganha a partir de R$ 50 mil por mês. “Se não tiver nada [aprovado], compre isentos, é um presente.” O impacto dos juros mais altos sobre o endividamento de algumas empresas pode ser um problema à frente, mas é do jogo.
Embora mais pessimista que o usual, McCarthy descartou que o país esteja à porta da dominância fiscal, situação em que as altas da Selic pelo BC são insuficientes para trazer a inflação para baixo pela pressão que o juro mais alto tem sobre a dívida. “Estamos longe disso, mas demos alguns passos nessa direção”, afirmou. “O Brasil precisa encarar a questão fiscal com seriedade, mas não vai ser um problema para 2025, 2026, quando a dívida/PIB deve estar em 84%.”
Não é o caso de zerar as posições em alternativas de maior risco, disse. “Se houver um choque de credibilidade, a bolsa sobe 30% em uma semana e você não consegue agir com essa velocidade.” Com a avaliação da bolsa num dos níveis mais baixos da história e a depreciação do real, o capital externo também pode voltar de uma hora para outra.
Uma das razões para a alta do dólar em relação ao real vem da cena externa, com os investidores do mundo inteiro recalculando a rota, colocando nos preços potenciais efeitos das políticas de Donald Trump na economia americana quando reassumir a Casa Branca, em 20 de janeiro. “O fato de os Estados Unidos crescerem tanto e as expectativas de que os juros fiquem altos — que talvez não tenha espaço para o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) cortar as taxas — tem levado o dólar americano a ficar muito valorizado”, afirmou Gina Baccelli, economista-chefe da área de estratégia de investimentos do Itaú Unibanco.
Para ela, o principal risco para os mercados globais em 2025 será o quanto da retórica de Trump durante a campanha eleitoral vai ser colocado em prática. Tarifas de importação mais altas e mudanças na política de imigração são iniciativas potencialmente inflacionárias.
Baccelli lembrou que, no primeiro mandato de Trump, em 2017, a guerra comercial se restringiu à taxação de bens intermediários e não de consumo, e que a inflação era baixa. Agora, empresas como Apple e Walmart já alertaram que, se houver aumento de tarifas, não terão como segurar preços. A economista acredita numa atuação mais moderada e aberta a negociações. “Se [o governo] vier com tudo, não tem como não ter choque de inflação”, disse.
A principal dúvida é como será a reação da China, principal alvo da artilharia de Trump, e os impactos para outras economias emergentes. Se houver retaliação, a tendência é o país asiático desvalorizar a sua moeda, com efeitos para o resto do mundo, disse Baccelli.
Para McCarthy, se houver um choque inflacionário, há um risco de recessão com as bolsas americanas se antecipando a isso. Com a alta exposição do americano a ações, uma elevação de juros tem impacto sobre a riqueza da população. Assim, o consumo diminui, concretizando a retração da atividade.
No rol dos títulos de crédito isentos, o executivo disse que enquanto o benefício fiscal prevalecer para a pessoa física, em meio a um cenário de juros altos, os papéis de dívida seguem imbatíveis. No pacote fiscal que o governo encaminhou ao Congresso, a reforma da renda inclui impor alguma taxação a quem ganha a partir de R$ 50 mil por mês. “Com o juro gigante se amplia o benefício”, afirmou. “Se não tiver nada [aprovado no Congresso], compre isentos, é um presente.”
McCarthy descartou que o país esteja à porta da dominância fiscal, situação em que as altas da Selic pelo Banco Central (BC) são insuficientes para trazer a inflação para baixo. “Estamos longe disso, mas demos alguns passos nessa direção”, afirmou. “Mas o Brasil precisa encarar a questão fiscal com seriedade, não vai ser um problema para 2025, 2026, quando a dívida/PIB deve estar em 84%.”
Não é o caso também de zerar as posições em alternativas de maior risco, disse. “Se houver um choque de credibilidade, a bolsa sobe 30% em uma semana e você não consegue agir com essa velocidade.”
Fonte: Valor Econômico
