Em meio à saída de bilhões de dólares da Bolsa do Brasil, a B3, neste ano, movimentada pelo investidor estrangeiro, há um fluxo novo de investimentos que está traçando esta mesma rota, mas nas mãos de aplicadores brasileiros. Isso tudo acontece em um momento no qual o dólar vem renovando recordes, o que não é comum.
Historicamente, quando o dólar sobe, esses fluxos costumam diminuir, aponta Roberto Lee, diretor-presidente da Avenue, especializada em levar brasileiros a investirem diretamente no exterior. Isso porque os investimentos lá fora são vistos como uma operação de risco, de curto prazo. Portanto, se o dólar sobe muito, o investidor costuma pensar que já ‘perdeu o bonde’ e espera a cotação da moeda baixar.
Agora, o executivo aponta que pela primeira vez a alta intensa do dólar está conversando com o “dinheiro medroso”, aquele que está nas mãos de um investidor mais conservador, que tem foco em proteger o seu patrimônio. A preferência deles é por títulos do governo americano, as chamadas “treasuries”, com vencimento no curto e médio prazo.
“Agora, temos captado outro tipo de dinheiro, aquele que acelera quando o risco sobe e cujo valor é maior. O sentimento do risco está ecoando por todos os lados, e isso fez até o investidor mais conservador virar a chave e perceber, pela dor, que precisa ter uma parcela estrutural de aplicações lá fora. É uma mudança não só registrada entre clientes, mas em todo o ecossistema, inclusive nos nossos concorrentes”.
Em sete anos de operação, a Avenue diz nunca ter registrado um fluxo tão forte de aportes como o observado neste mês. Até terça-feira (16), o volume de investimentos recebidos nas contas internacionais da Avenue já havia superado todo o valor de novembro, que já havia sido forte, aponta Lee. “Projetamos receber pelo menos 20% a mais neste mês do que o registrado no mês passado“.
Já a XP observou um aumento de mais de 25% no volume de remessas em sua conta internacional no início de dezembro em comparação a novembro. A Nomad, fintech especializada em investimentos no exterior, também afirma que o número de aportes tem crescido. “Estamos batendo recordes de forma recorrente, com um crescimento médio de 7% na captação de novos investidores”, afirma Caio Fasanella, diretor de Investimentos da fintech.
Para Rodolfo Buim, responsável por distribuição de produtos na divisão internacional da XP, o próprio pico histórico do dólar, combinado com incertezas fiscais no Brasil, levou clientes a acelerarem o processo de dolarização da carteira de investimentos, buscando uma moeda mais forte como forma de preservar o seu poder aquisitivo. “Além disso, destacam-se os benefícios da diversificação no mercado americano, que é mais maduro e, no longo prazo, tem proporcionado maior rentabilidade“.
Fasanella, da Nomad, acredita que o brasileiro está em busca de mais solidez e atento às oportunidades que o mercado americano oferece.
O movimento de maior fluxo de investimentos para o exterior, mesmo com o dólar alto, se assemelha apenas ao que ocorreu na eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em novembro de 2022. Contudo, naquela época, o movimento foi mais momentâneo, observa Lee. “Neste ano, nós mais do que dobramos o valor que temos em custódia, e esse aumento ficou muito concentrado no segundo semestre“.
Fonte: Pipeline