Por Larissa Garcia, Valor — Brasília
05/09/2023 14h22 Atualizado há 12 horas
A diretora de assuntos internacionais do Banco Central, Fernanda Guardado, reforçou nesta terça-feira que a autoridade está olhando “exatamente” para a lista indicada na última ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) para decidir se vai acelerar ou não o ritmo sinalizado de corte de 0,5 ponto percentual na taxa básica de juros (Selic) por encontro. Ela enfatizou, contudo, que a mudança precisa ser “substancial” para alterar o plano de voo porque o colegiado já tem um cenário mais otimista que o do mercado.
“Estou olhando exatamente para a lista que foi indicada na ata. Olhamos para o hiato do produto, mais de perto para a inflação de serviços e para a desancoragem de expectativas”, disse ontem, em evento da Bradesco Asset Management. “São as únicas três coisas? Não, é um conjunto de indicadores da economia. Essas três variáveis têm uma conexão entre elas. É um conjunto de coisas que anda junto, mas esses são os três fatores que demos maior destaque no processo de tomada de decisão.”
A diretora enfatizou que o colegiado foi bem claro de que precisaria haver “mudanças relevantes” em relação ao cenário de desinflação projetado pelo Copom.
“Mudarmos a avaliação, sempre mudamos, se as coisas mudarem vamos reavaliar. Mas essa reavaliação precisa ser muito substancial para mudar o plano de voo, dado que já temos trajetória de desinflação mais otimista que o mercado tem”, disse.
Além disso, a diretora adiantou que o resultado mais forte do Produto Interno Bruto (PIB) vai impactar a estimativa de hiato do produto da autoridade monetária, mas que a expectativa é de “abertura moderada” nos próximos trimestres. Ela afirmou que a projeção do grau de ociosidade da economia será revisada no próximo Relatório Trimestral de Inflação (RTI), em setembro.
Mais cedo, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, havia comentado os erros nas projeções de analistas sobre o PIB. Para ele, esses equívocos estavam “concentrados em alguns pontos”, como na percepção de retração maior na agricultura.
“Erros [nas projeções do PIB] estavam concentrados em alguns pontos. Existia uma percepção de retração na agricultura que não veio”, avaliou em evento promovido pelo Julius Baer Group, em São Paulo. De acordo com o titular do BC, o consumo das famílias e a indústria também vieram “mais fortes” que o esperado. Ele repetiu que o processo de desinflação global se dá em dois estágios, o primeiro, mais rápido, e o segundo, mais lento. Segundo ele, o mundo está hoje na última etapa.
“A gente fez a primeira fase bem, a segunda fase começou a ter todo o debate. A sociedade debate agora qual é o nível de sacrifício que você quer para levar a inflação para a meta. É preciso fazer o ‘last mile’, que geralmente é mais doloroso e mais questionável”, disse.
Campos observou que “há uma dificuldade grande de os núcleos caírem”. Ele e Guardado enfatizaram o “last mile” (última milha, em tradução livre), que é um esforço final de política monetária a ser feito. “No Brasil, também temos um last mile a percorrer”, disse. Para ele, é preciso perseverar ou “o custo da desinflação será maior para a sociedade”.
Guardado ressaltou que entre as razões para a desancoragem das expectativas de inflação estão incertezas sobre as contas públicas. “Há vários motivos, uma delas é uma incerteza em relação à execução das metas fiscais. O ministro [Fernando] Haddad está muito comprometido com as metas fiscais, isso é bastante importante”, opinou. A diretora ponderou que “essa desconfiança” com o fiscal “já está materializada nas expectativas mais altas”.
“O Ministério da Fazenda tendo sucesso em atingir as metas e em colocar as medidas de tributação que se propõe, pode ser uma ajuda, um cenário positivo para fazer as expectativas caírem um pouco mais”, acrescentou.
Fonte: Valor Econômico


