Por Toni Sciarretta — De São Paulo
19/04/2023 05h09 Atualizado há 4 horas
Inicialmente avessos aos criptoativos por questões de compliance, os bancos brasileiros não têm exposição própria a moedas digitais e, aos poucos, ingressaram no segmento para defender seu mercado de investimentos de entrantes “criptonativos”, particularmente as plataformas estrangeiras oriundas da nova economia digital, segundo avaliação da Moody’s Investor Service.
As instituições financeiras brasileiras, por outro lado, são entusiastas da tecnologia blockchain e da “tokenização” de ativos financeiros, vistas como oportunidade para reduzir custos com registros e melhorar processos burocráticos, além de ampliar a liquidez de produtos com pouco apelo para públicos mais amplos, entre outros fatores.
No Brasil, os bancos não investem o dinheiro da tesouraria em ativos digitais devido à forte volatilidade, além de falta de segurança jurídica e vácuo regulatório. No passado, se recusavam inclusive a abrir contas de corretoras de criptomoedas e dificultavam transferências dos clientes para essas plataformas, alegando restrições de conformidade com exigências do tipo KyC (“Conheça seu Cliente”) e controles antilavagem de dinheiro.
No estudo, o Brasil é considerado “early adopter” de novidades tecnológicas em relação aos pares emergentes, dada a penetração de smartphones, presença nas redes sociais, variedade de serviços financeiros oferecidos por fintechs e mesmo o Pix, que chegou a mais de 60% da população em dois anos.
A Moody’s cita que os criptoativos chegam a 6 milhões de pessoas, acima dos 5 milhões que aplicam em ações, segundo levantamento da Anbima, associação do mercado de capitais e investimentos, de agosto de 2022. Enquanto os investimentos em ativos digitais somam R$ 47,5 bilhões, a indústria de fundos reúne R$ 7,5 trilhões e os bancos, R$ 4,5 bilhões em depósitos.
“Sempre houve muito ‘buzz’ em relação às criptomoedas, tinha um pouco de especulação e de curiosidade, mas não era ainda relevante. Mas esse mercado foi crescendo e, entre 2021 e 2022, os bancos perceberam que tinham que atender o cliente para não deixá-lo sair atrás disso em outro lugar. Foi uma atitude defensiva”, disse Lucas Viegas, vice-presidente e analista sênior da Moody’s, autor do estudo.
A porta de entrada no segmento foi por meio dos fundos negociados em bolsa (ETFs) de criptomoedas, que são regulados, bastante simples e se encaixam no “suitability” (enquadramento de perfil de risco) de parte dos clientes. Hoje, ETFs de criptoativos têm valor de mercado de R$ 1,6 bilhão, fatia expressiva diante dos R$ 26 bilhões do total no país, com cerca de 234 mil investidores.
Depois, BTG Pactual, Nubank, PicPay/ Original e XP criaram suas próprias plataformas de investimento em criptomoedas. Entre os grandes bancos, Santander, Itaú e Bradesco consideram negociar criptomoedas. “Esses bancos estarão melhor posicionados para uma recuperação nesse mercado quando as taxas de juros caírem e os investidores voltarem para classes alternativas de ativos”, disse Viegas.
Para André Portilho, responsável pela área de estratégias digitais do BTG, um dos primeiros bancos a entrar na tokenização e a abrir uma plataforma de criptoativos, haverá uma convergência entre o mundo das finanças tradicionais e o criptonativo porque o dinheiro é o mesmo e os ativos, similares.
“Entre as instituições financeiras tradicionais, conseguimos perceber um pouco antes o potencial que a tecnologia tem de transformação e de melhoria da nossa infraestrutura. Por outro lado, a indústria financeira tem uma série de capacidades e conhecimentos que foram construídos nos últimos 200 anos. Não faz sentido jogar isso fora, e os eventos do ano passado mostraram que nossa visão está correta”, disse, referindo-se à quebra da FTX e à implosão da Terra Luna, entre outros projetos.
Segundo a XP, o interesse dos clientes foi o principal motivo que levou à oferta de moedas digitais. “Nossas pesquisas internas já indicavam que mais de 80% dos clientes que tinham cripto em outras instituições trariam os ativos para cá. E essa tendência vem se confirmando”, disse Lucas Rabechini, diretor de produtos financeiros da XP.
O estudo da Moody’s avalia oportunidades que surgirão com o real digital, a versão digital da moeda brasileira em desenvolvimento pelo Banco Central (BC). Para Viegas, o real digital é percebido pelos bancos como uma “solução em busca de um problema”, uma vez que o Pix resolve bem as demandas relacionadas a pagamentos e tem baixo custo, o que não ocorre em outros mercados que vão usar a moeda digital dos bancos centrais (CBDCs) nesses serviços.
Por esse motivo, o BC priorizou características do chamado dinheiro programável dos contratos inteligentes das blockchains no desenho do real digital. Viegas lembra que a versão do real digital de uso corrente será, na verdade, um depósito tokenizado, o que mantém os bancos no jogo e reduz o risco de que a desintermediação financeira afete a captação e a oferta de crédito. “O formato, de certa forma, protege o ‘status quo’ dos bancos como intermediários. O risco de perderem depósitos para um novo prestador de serviços de pagamentos é menor”, disse.
Na adoção do real digital pelos bancos, o executivo faz um paralelo com o início do Pix, quando as instituições financeiras estavam reticentes com o produto temendo perder receita com DOC, TED e cartões. Isso não se confirmou e os bancos acabaram ampliando a clientela e rentabilizando outros produtos e serviços.
Fonte: Valor Econômico
