Se o trabalho do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) se provar duradouro no sentido de tirar o risco inflacionário de cena sem causar uma desaceleração profunda na economia, pode haver uma revisão histórica nos preços dos ativos, partindo do mercado de títulos soberanos dos Estados Unidos. É o que Rodrigo Azevedo, sócio e executivo-chefe de investimentos (CIO) da Ibiuna, vê chance de acontecer.
Em evento do UBS, o ex-diretor do Banco Central (BC) disse que hoje os mercados projetam nas negociações com os Treasuries e estratégias ligadas a juros uma taxa neutra (que não acelera nem contrai a economia e que não traz inflação) de 3,25%, mais alta do que se observou no passado. Antes da pandemia de covid-19, esse referencial rodava mais próximo de 2%, 2,5%. Em meio a discussões se a crise sanitária e outras mudanças estruturais como a tecnologia, conflitos geopolíticos, desglobalização e transição climática trouxeram a taxa para cima, Azevedo suspeita que pode haver uma volta para a média dos anos anteriores.
“A exceção talvez tenha sido entre 2020 e 2023[…] se voltar para o que era antes, se o mundo para frente for mais parecido com o que foi lá atrás, há uma oportunidade histórica de precificar uma queda de juros, de 3,25% para baixo”, comentou Azevedo.
Por ora, ele diz que não tem graça se apegar ao curto prazo de EUA, porque a taxa de 3,25% já está nos preços. “A gente gosta de ficar aplicado se achar que o consenso vai mudar, se chegar à conclusão que o mundo certo era o anterior. Daí se prepara, porque se for aquele mundo há uma oportunidade de investimento histórica”, disse Azevedo.
A crítica que se fazia ao Fed de 2021 era que a autoridade monetária via a inflação como transitória, demorou a agir e o índice subiu para 8%, 9%, um nível que não se via desde a década de 1970. “No auge, errou tudo. Mas surpreendeu na volta e com baixo custo para o produto [PIB]. Mais do que tudo, foi um alívio enorme, mas todo mundo se pergunta o que aconteceu.”
Se errar o cenário para a China, a gente vai errar tudo. O risco é real, temos que voltar todos os nossos olhos para lá”
Sob os impactos do deslocamento do mercado de trabalho na pandemia em relação à produtividade e investimentos, as métricas tradicionais deixaram de dar uma visão acurada do futuro. O principal aprendizado, disse Azevedo, é entender que os modelos são importantes para dar uma visão, mas não necessariamente vão se materializar. A despeito disso, o ex-BC considera que 5% é muito juro para os Estados Unidos, após a inflação cair para a casa dos 2%. Manter nesse patamar significaria deixar a taxa real alta demais.
Fonte: Valor Econômico
