Por Michael Stott e Ciara Nugent, Financial Times — Londres e Buenos Aires
17/08/2023 11h17 Atualizado há 17 horas
Javier Milei, o economista libertário que lidera a corrida presidencial na Argentina, vai reduzir os gastos do governo para equilibrar o orçamento meses após assumir o cargo, mas quer evitar demissões em massa no setor público. A afirmação foi feita nesta quinta-feira, em uma entrevista dada pelo assessor econômico que planeja a estratégia de Milei para depois das eleições.
“A primeira coisa que temos que fazer é reduzir o déficit fiscal em 5 pontos porcentuais, o que não é nada fácil”, disse Darío Epstein. “Como a Argentina está numa situação muito difícil, com 40% a 45% [da população] na pobreza, o que não podemos fazer é demitir pessoas do setor público ou reduzir os gastos sociais. Isso é muito importante”.
Os comentários de Epstein mostram os difíceis dilemas econômicos enfrentados por Milei, um populista temperamental cuja rápida ascensão surpreendeu o establishment político argentino e alarmou alguns líderes empresariais na corrida para o primeiro turno das eleições presidenciais de outubro.
Sua vitória por uma pequena margem na votação primária do último domingo, sobre os líderes dos outros dois principais blocos políticos do país – os peronistas, hoje no governo, e a aliança Juntos pela Mudança (JxC), de centro-direita -, anuncia uma disputa de três vias e ainda não está claro o tamanho do apetite dos argentinos pelo que Milei chama de “plano motosserra” de corte dos gastos públicos. Ele posou para fotos este ano com uma motosserra ao anunciar os planos.
“Vejo um grande abismo entre suas ideias e as de seus eleitores”, diz Juan Germano, um pesquisador da consultoria Isonomía de Buenos Aires, sobre Milei. “Quando você pergunta aos eleitores dele qual deveria ser a função do Estado, eles dizem coisas diferentes sobre ele. Parece que alguns de seus eleitores na verdade não estão prestando atenção no que ele está dizendo.”
Ainda restam mais de dois meses de campanha e a personalidade excêntrica e temperamental que tem trabalhado a favor de Milei nas redes sociais ainda pode derrubá-lo. O ex-professor de economia também enfrenta um escrutínio mais minucioso de seu manifesto “anarcocapitalista” para consertar a devastada economia da Argentina.
Esse plano se baseia em cortes drásticos dos gastos públicos para equilibrar o orçamento e a introdução do dólar como moeda nacional em substituição ao desvalorizado peso argentino, com a livre circulação de outras moedas também permitida.
Nenhuma economia da dimensão da Argentina tentou um plano tão audacioso em tempos recentes: a maior economia do mundo, fora os Estados Unidos, que hoje usa o dólar como sua moeda nacional é o Equador.
A dolarização é popular entre alguns argentinos, que estão acostumados a manter suas poupanças na moeda americana para evitar as desvalorizações constantes do peso. A promessa de Milei de “incendiar” o banco central vem a calhar para os cidadãos consternados com a condução da instituição imprime dinheiro para financiar os déficits do governo, destruindo o valor do peso.
Mas há grandes problemas práticos. O mais óbvio é que o governo da Argentina não tem dólares, uma vez que suas reservas internacionais estão negativas e o país está alijado dos mercados internacionais de dívida desde seu último calote, em 2020.
O próprio Milei recuou da ideia de dolarizar imediatamente a economia, e mesmo seus assessores mais próximos admitem que a ideia não é realista enquanto a confiança não for restabelecida.
“Para a dolarização, precisamos de dólares”, disse Epstein. “Estamos trabalhando em uma estrutura muito criativa [para resolver isso], mas acreditamos que será muito mais fácil conseguir os US$ 30 bilhões a US$ 35 bilhões que acreditamos serem necessários para a dolarização, assim que tivermos realizado as reformas fiscal e do mercado de trabalho.”
Uma opção que está sendo considerada seria pegar US$ 130 bilhões em dívidas da Argentina denominadas em dólar e mantidos por organismos do setor público e colocá-los em um fundo sob a lei de Nova York, que então venderia participações para levantar o dinheiro necessário para a dolarização, acrescentou ele.
Milei também privatizaria grandes entidades do setor público como a YPF, a companhia nacional de petróleo, e a companhia aérea Aerolíneas Argentinas, além de reduzir o número de ministério de 18 para oito e substituir o custoso sistema de saúde pública do país por um modelo privado financiado pelo seguro social.
Investidores e economistas gostam do propósito pró-negócios das ideias de Milei, mas muitos se preocupam com a sua capacidade de implementá-las em um país com um grande estado de bem-estar social e sindicatos trabalhistas fortes. O economista libertário é um novato na política, tendo ingressado no Congresso somente em 2021, além de não ter experiência executiva.
As primárias, uma votação obrigatória para todos os eleitores e candidatos, funcionam como um ensaio geral das eleições de outubro, quando a Argentina escolherá um novo presidente, além de alguns senadores, deputados e governadores.
Projeções baseadas no resultado das primárias de domingo sugerem que o bloco La Liberdade Avanza, de Milei, conquistará apenas cerca de 40 cadeiras da câmara dos deputados, de um total de 257, e oito no senado, de um total de 72, nas eleições parlamentares de outubro.
A maioria dos legisladores pertencerá aos dois blocos que dominam a política argentina: os peronistas, no poder, um amplo movimento populista influenciado nos últimos 20 anos por Cristina Kirchner, de tendências esquerdistas, e o JxC.
Milei “terá de formar uma coalizão com o JxC, pois não tem a maioria”, diz Ramiro Blásquez, chefe da área de análises do BancTrust em Buenos Aires. “Ele enfrentaria um congresso bastante desfavorável e teria de fazer um pacto pela governabilidade. Se não conseguir isso, seu governo não deverá durar.”
Milei não fez nada para acalmar as tensões desde sua vitória nas primárias. Ele se proclamou pronto para governar já, alegou que uma fraude eleitoral lhe roubou 5 pontos porcentuais de apoio e sugeriu que o governo do presidente Alberto Fernández poderá não durar até o fim do mandato em dezembro.
Se manifestantes cercarem o palácio presidencial durante a presidência de Milei, disse o próprio em uma entrevista à imprensa local, “eles terão que me tirar morto do palácio”.
Essa retórica extravagante vem alarmando muitas figuras do establishment argentino, que preferiam um candidato tradicional e mais experiente.
“O problema com Milei é que você está embarcando em um avião e descobre antes de embarcar que a experiência de voo do piloto se limita ao simulador”, diz um líder empresarial. “O que você faz?”
Fonte: FT / Valor Econômico


