A determinação do presidente Donald Trump em relação ao Irã está sendo testada por uma força em grande parte fora de seu controle: o mercado de títulos do Tesouro. Com a rápida alta dos rendimentos na última semana, uma autoridade da Casa Branca afirmou que havia grande ansiedade entre a equipe em relação aos preços da gasolina e à direção do mercado de títulos, sendo os preços dos combustíveis a maior fonte de preocupação no momento.
Rendimentos mais altos significam custos de empréstimo elevados para empresas e consumidores, enquanto a alta dos preços do petróleo aumenta as expectativas de inflação. Essa combinação pode causar dores de cabeça para o governo, que se prepara para as eleições de meio de mandato em novembro. “Os mercados estão lhe causando problemas, e ele precisa descobrir como reverter essa situação — e não é tão fácil”, diz Greg Faranello, chefe de estratégia de taxas de juros dos EUA na AmeriVet Securities, em Nova York. “Já estamos em níveis que, em última análise, afetarão as taxas de hipoteca e, consequentemente, o mercado imobiliário.”
Trump afirmou no sábado que Washington e o Irã têm feito progressos em um acordo de paz na guerra que já dura três meses, embora no domingo tenha enfatizado que não há pressa para um acordo, diminuindo as esperanças de um avanço iminente.
“Eu acredito que, se o governo está preocupado com o aumento das taxas de juros, tentar amenizar a situação com um discurso mais calmo é algo que eles podem fazer”, afirma Shawn Snyder, estrategista econômico da Potomac Fund Management em Bethesda, Maryland.
Ele acrescenta que os preços do mercado reagem aos comentários de Trump sobre uma resolução para a guerra. Nos últimos dias e semanas, os investidores em títulos do Tesouro dos EUA têm se concentrado na dificuldade de se chegar a um acordo e nas consequências de longo prazo da guerra, elevando os rendimentos bem acima de 4,5% no título de referência de 10 anos.
Enquanto isso, autoridades do Federal Reserve, buscando conter a inflação, têm discutido a possibilidade de aumentar as taxas de juros em vez de reduzi-las, como Trump tem defendido. E alguns republicanos no Congresso estão cada vez mais preocupados com alguns dos apelos de Trump por gastos antes das eleições de meio de mandato, que decidirão se eles manterão o controle, ainda que limitado, da Câmara e do Senado.
A alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro impacta diretamente os custos de empréstimo em toda a economia, incluindo hipotecas, cartões de crédito e empréstimos comerciais, podendo causar problemas de estabilidade financeira. Investidores em títulos afirmaram que o governo precisaria prestar atenção.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, e a Casa Branca sugeriram que os rendimentos elevados seriam temporários. Na quarta-feira, os juros dos Treasuries recuaram um pouco da forte alta, após Trump afirmar que as negociações com o Irã estavam em sua fase final.
No início da semana, o rendimento do título de 10 anos atingiu 4,69%, o maior nível desde janeiro de 2025. O juro subiu mais de 50 pontos-base desde o início da guerra entre EUA e Israel com o Irã, em 28 de fevereiro, e estava em 4,56%.
A reação do mercado aos últimos avanços nas negociações de paz ainda não foi vista. Uma alta sustentada nos custos de empréstimos pode esfriar a demanda por imóveis, afetar o consumo e, no pior cenário, levar a economia à recessão. Esse risco pode se mostrar especialmente significativo às vésperas das eleições de meio de mandato nos EUA.
“A acessibilidade é uma palavra-chave em Washington, e por um bom motivo, já que ela realmente impacta um grande número de famílias, e as taxas de juros são um fator determinante”, aponta John Kerschner, chefe global de produtos securitizados da Janus Henderson em Denver. Ainda assim, se um acordo de paz for finalmente firmado, os efeitos podem ser passageiros.
Esta semana, Bessent afirmou que os altos rendimentos, especialmente no longo prazo, estavam sendo impulsionados pelo choque energético da guerra com o Irã, que se provará temporário. A Casa Branca também afirmou que qualquer perturbação provavelmente será de curta duração. “O presidente Trump sempre foi claro sobre as perturbações temporárias do mercado como resultado da Operação Epic Fury”, disse o porta-voz da Casa Branca, Kush Desai, em um comunicado. Ele afirmou que “o governo ainda está focado na agenda de longo prazo de Trump de acelerar o crescimento econômico, reduzir a burocracia e combater a fraude nos gastos do governo para restaurar a saúde fiscal dos Estados Unidos”.
Opções Limitadas
O mercado de títulos há muito tempo é uma poderosa força política capaz de moldar as políticas em Washington, que precisa manter a confiança dos investidores para financiar a dívida pública. Quando os investidores perdem a fé, o aumento dos custos de empréstimo pode pressionar os líderes. James Carville, assessor do ex-presidente Bill Clinton, disse ao Wall Street Journal no início da década de 1990 que gostaria de reencarnar como o mercado de títulos, porque “você pode intimidar a todos”.
Participantes do mercado alertaram que a capacidade e a disposição de Washington em responder podem ser limitadas, mesmo que os rendimentos disparem para um nível crítico identificado como 5%, principalmente quando as taxas são impulsionadas por um forte crescimento e inflação persistente, em vez de preocupações com o crédito. Intervir de forma muito agressiva nesse ambiente corre o risco de minar a credibilidade em relação à inflação e pode exacerbar as pressões que elevam os rendimentos.
Sam Lynton-Brown, chefe de estratégia macro global do BNP Paribas em Londres, afirma que a alta estava sendo impulsionada menos por temores sobre o endividamento público e mais pela inflação persistente, forte crescimento econômico e preços elevados da energia, ligados a tensões geopolíticas. Quando os rendimentos sobem devido à força da economia, os mercados e os formuladores de políticas tendem a não os considerar problemáticos, observou ele.
De fato, os mercados de ações e de crédito absorveram taxas mais altas até o momento sem mostrar sinais de estresse. “Temos rendimentos altos, mas até agora as ações e o crédito estão lidando bem com esses rendimentos elevados”, aponta Lynton-Brown.
Fonte: Valor Econômico