O novo presidente do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, que tomou posse na sexta-feira em uma cerimônia incomum na Casa Branca ao lado do presidente Donald Trump, deve adotar uma postura inicial cautelosa na condução da política monetária ao assumir o comando de comitê mais inclinado ao aperto monetário, em meio a pressões inflacionárias ligadas à guerra no Oriente Médio. O mercado também espera que Warsh promova mudanças graduais em instrumentos de comunicação do banco central, como o uso da orientação futura (“forward guidance”) — algo que foi antecipado por Trump — e o gráfico de pontos, que reúne as projeções dos dirigentes para as taxas de juros e outros indicadores da economia americana.
Warsh foi o primeiro presidente a tomar posse na Casa Branca desde Alan Greenspan em agosto de 1987. Na cerimônia, Warsh disse que pretende liderar um Fed “orientado para reformas”. A indicação de Warsh por Trump gerou preocupações sobre a independência do Fed, uma vez que o presidente dos Estados Unidos pressiona o banco central por juros mais baixos, inclusive por meio de ações judiciais e outras tentativas de influência sobre a instituição.
A expectativa inicial de que Kevin Warsh adotasse uma postura inclinada ao afrouxamento monetário perdeu força diante da persistência das pressões inflacionárias, com a guerra prolongada entre Estados Unidos e Irã. Na decisão mais recente, o Fed manteve juros na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano, com dissensos que já indicavam menor disposição a cortes nas taxas, enquanto a ata de abril reforçou que a maioria dos dirigentes vê necessidade de aperto caso a inflação siga acima da meta de 2%. Na mesma linha, o diretor Christopher Waller afirmou que cortes deixaram de ser mais prováveis do que altas.
“Um comitê cada vez mais ‘hawkish’ (propenso a altas de juros) aguarda o novo presidente do Fed”, diz a equipe de economistas do Wells Fargo liderada por Tom Porcelli. “Isso torna a tarefa de Warsh bastante árdua, caso ele realmente acredite na ideia de cortes.”
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O banco avalia que “ressuscitar” um corte de juros este ano exigirá que uma solução para o conflito seja encontrada o mais rápido possível, ou que Warsh faça um trabalho excepcional para convencer um comitê que parece irredutível contra um corte, ambos cenários de baixa probabilidade.
Os contratos futuros dos fed funds agora indicam 67,9% de probabilidade de ao menos um aumento de 0,25 ponto nos juros até o fim do ano. Mesmo que defenda um afrouxamento nas taxas, Warsh teria que convencer os outros membros votantes do comitê. Uma ideia que Warsh vem defendendo, de que um corte na taxa de juros se justifica pelas expectativas de maior produtividade, “parece contar com o ovo antes da galinha chocar”, argumenta o Wells Fargo. “Ainda não vimos essa desinflação de fato.”
O ex-economista do Fed e chefe de pesquisa da Jubarte Capital, Benjamin Mandel, afirmou ao Valor que a guerra entre Irã e EUA alterou significativamente o equilíbrio de riscos para a inflação, aumentando as preocupações com o repasse da alta dos preços de energia para os núcleos inflacionários e para as cadeias de produção. “Então, o viés do comitê ao longo desse processo ficou menos alinhado a um afrouxamento da política monetária e mais equilibrado entre cortes e altas de juros olhando à frente.”
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Mandel destacou que o mercado já incorporou essa mudança, retirando cortes da curva e passando a precificar altas de juros. Ainda assim, ele pondera que parte dos dirigentes mais “hawkish” do Fed parece reagir ao histórico recente de inflação acima da meta, enquanto a função de reação tradicional do banco central tende a olhar mais para as perspectivas futuras de inflação e atividade do que para os desvios passados. “O cenário, olhando à frente, é bem menos ‘hawk’ que olhando para trás.”
A Jubarte Capital projeta os juros americanos estáveis ao longo do ano e avalia que os riscos de inflação não devem ser suficientes para o Fed elevar juros. “O mercado de trabalho não vai dar o sinal verde para ou elevar ou cortar juros no curto prazo”, diz Mandel.
Para ele, Warsh deve votar pela manutenção dos juros em sua primeira reunião como presidente, em junho, sem pressão imediata para alterar a política monetária. Em sua avaliação, Warsh deve inicialmente adotar uma posição mais centrista dentro do comitê, buscando construir consenso antes de promover mudanças mais amplas.
“Duvidamos que sua inclinação ‘dovish’ tenha muita influência nas próximas decisões sobre as taxas de juros”, e Warsh terá que afirmar sua independência votando pela manutenção em junho, diz o economista-chefe do Canadian Imperial Bank of Commerce (CIBC), Avery Shenfeld. “Nenhum presidente do Fed pode se dar ao luxo de ser o único voto dissidente.”
Nesse contexto, a ida de Warsh para Washington “pode acabar sendo mais uma mudança de tom do que de substância, pelo menos enquanto o restante da comissão permanecer intacto”. Vale lembrar que Warsh assume a vaga que antes era ocupada pelo membro mais “dovish” do comitê, Stephen Miran, ex-assessor econômico da Casa Branca que votou sozinho a favor de um corte nos juros em abril.
“Esperamos que Warsh adote uma abordagem ponderada, porém diferenciada, para a política monetária e busque, ao longo do tempo, modificar a estratégia do Fed em diversas áreas. Mas qualquer mudança será evolutiva, não revolucionária”, diz o ex-vice-presidente do Fed e consultor econômico global da Pimco, Richard Clarida.
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Clarida pontua que Warsh assume o comando do banco central em um ambiente macroeconômico desafiador, marcado por inflação ainda elevada, tensões geopolíticas, preços altos de energia e incertezas sobre o impacto da IA no mercado de trabalho. O executivo acredita que os riscos para inflação e emprego podem levar o Fed a manter os juros inalterados por um período prolongado, possivelmente além de 2026, embora Warsh possa influenciar os debates internos com seu perfil “confiante e persuasivo”.
Warsh também chega para uma reunião que inclui o sumário de projeções econômicas e o gráfico de pontos, e analistas pontuam que ele pode optar por não mostrar seu “ponto” ou fazer projeções — algo que já ocorreu em outros momentos no banco central. O ex-presidente do Fed de St. Louis, James Bullard, por exemplo, deixou de fornecer estimativas de longo prazo por considerar que previsões muito distantes podem gerar ruído e afetar a credibilidade do banco central. O Fed também suspendeu suas projeções em alguns momentos durante a pandemia da covid-19.
O ex-presidente do banco central americano, Ben Bernanke, defendia que a comunicação é um elemento central da política monetária moderna. Em sua audiência de aprovação no Senado, no final de abril, Warsh defendeu uma “mudança de regime” no Fed, e repetiu críticas ao uso de orientações futuras, afirmando tratar-se de uma prática pouco útil. Ele disse preferir reuniões do Fed mais “desorganizadas” e sem “roteiros ensaiados.”
Vale notar que Warsh foi diretor do Fed durante o mandato de Bernanke como presidente. Em seu discurso de posse, porém, Warsh não mencionou nem Bernanke nem Jerome Powell, seu antecessor no comando do banco central e que continuará no “board”, e apenas citou Alan Greenspan — algo que foi notado por alguns analistas de mercado.
Mandel, da Jubarte Capital, vê Warsh apresentando um “ponto” no gráfico e mandando suas projeções, adotando inicialmente uma postura centrista no Fed para construir consenso dentro do comitê. Embora possa iniciar revisões sobre ferramentas de comunicação, isso deve ocorrer de forma gradual, já que dependem de aprovação coletiva do comitê. “Isso não vai mudar no dia 1 da presidência do Warsh.”
A presidente do Fed de Boston, Susan Collins, defendeu recentemente o uso do gráfico de pontos e as atuais operações no balanço, destacando que é natural que novos dirigentes tragam suas próprias visões.
O Wells Fargo afirmou ter “certa simpatia” pela crítica ao uso excessivo de orientações futuras pelo Fed, avaliando que a ferramenta pode ser eficaz quando utilizada de forma moderada, mas que isso não ocorreu nos últimos anos. No entanto, o próprio Warsh acaba recorrendo à ferramenta ao sinalizar que avanços da inteligência artificial (IA) poderão abrir espaço para cortes de juros no futuro por meio de efeitos desinflacionários.
Para Shenfeld, do CIBC, há argumentos favoráveis à redução da comunicação antecipada do Fed, com menos discursos e até sem o gráfico de pontos. “Os mercados às vezes interpretam essa comunicação vaga de forma muito literal, e o Fed pode se apegar ao que disse enquanto a realidade muda.”
Warsh também vem defendendo um balanço de ativos menor e prometeu, em sua sabatina no senado, um “novo arcabouço de inflação”, indicando possível afastamento do índice de preços PCE, atualmente utilizado pelo Fed, embora ainda não esteja claro como pretende alterar a metodologia de avaliação da inflação. Warsh prometeu preservar a independência do Fed, e afirmou que “de forma alguma” seria um fantoche do presidente.
Fonte: Valor Econômico


