Por Anaïs Fernandes — De São Paulo
24/07/2023 05h00 Atualizado há 5 horas
Com arrefecimento nos preços de alimentos in natura e carnes, relativa normalização no mercado de trigo e supersafra brasileira de soja, a alimentação no domicílio pode registrar deflação em 2023 pela primeira vez em seis anos, segundo alguns economistas. Eles reconhecem que eventos fora do controle nacional, como o fenômeno climático El Niño e a tensão entre Rússia e Ucrânia, impõem riscos ao cenário, mas ponderam que eventuais efeitos podem ficar mais para 2024 e que, ainda assim, a inflação dos alimentos deve ser historicamente baixa.
A alimentação no domicílio representa cerca de 15% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), inflação oficial do país, mas tem peso ainda maior sobre a cesta de consumo da população de renda mais baixa.
Em 2022, após os desdobramentos da pandemia, agravados pela guerra na Europa, os preços da alimentação em casa saltaram 13,2%, mais que o dobro do IPCA, que subiu 5,8% no ano.
Para 2023, a projeção mediana do Focus (pesquisa do Banco Central com agentes de mercado) para alimentação em casa foi de alta de 4,3% no início do ano para 0,9% na última coleta. A LCA Consultores e projeta ligeira queda de 0,1%; a Ativa Investimentos espera contração de 0,3%, o Santander, de 0,4%, e a Asset 1, de 0,5%.
A última vez em que a alimentação no domicílio registrou deflação foi em 2017, de 4,9%.
“Desde 2019, foram quatro anos de altas importantes. Temos assistido, depois de praticamente dois anos de pressões muito fortes nos preços de commodities agrícolas, um rearranjo parcial das cadeias produtivas, o que contribui para, mais adiante, tirar força dos preços dos alimentos”, diz Fábio Romão, economista sênior da LCA.
Os preços ao produtor no campo, mais voláteis, são repassados aos alimentos industrializados no atacado e desembocam no varejo, explica Romão. Segundo ele, o consumidor pode não sentir todo esse alívio porque, mesmo com quedas ou com a desaceleração nos preços, o nível, que estava muito alto, continua elevado. “É como se tivesse subido uma montanha muito rápido e agora está descendo devagar”, afirma.
Pelas estimativas da LCA, devem registrar deflação neste ano óleos e gorduras, tubérculos, raízes e legumes, carnes e aves/ovos (ver quadro acima). Além disso, haveria desaceleração expressiva da alta entre 2022 e 2023 em leites e derivados, panificados, farinhas e massas, hortaliças/verduras e frutas.
Os preços de todos os itens in natura – tubérculos, raízes, legumes, hortaliças, verduras e frutas – já apresentam desaceleração até junho, observa a LCA.
No caso das carnes, dois fatores puxam os preços para baixo, segundo a consultoria: o abate de matrizes em 2022 e a redução nos preços das rações, observada desde o segundo semestre de 2022 e que, de modo defasado, tem sido importante em 2023.
Em 2019, a escassez de proteína animal na China, por causa da peste suína africana no país, aumentou a demanda do gigante asiático pela carne brasileira e reduziu a oferta interna, gerando um choque altista nos preços domésticos, lembra Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa. “Esse choque nunca se reverteu totalmente. O preço das carnes no atacado seguiu avançando e, apenas neste ano, conseguimos observar uma deflação mais sistemática, que se reflete no varejo”, afirma.
O alívio nas rações também deve beneficiar os preços de aves e ovos, diz a LCA. Além disso, o subitem costuma ser substituto para carnes, que acabam influenciando sua formação de preços – neste caso, para baixo.
Pela influência baixista da soja, óleos e gorduras também registram queda importante. “É outro foco desse alívio de commodities e, embora não tenham um peso tão relevante quanto milho e trigo, bate de maneira indireta em frangos e outros tipos de carnes”, diz Sanchez.
Farinhas, massas e panificados, por sua vez, perderam parte da tração na esteira da relativa normalização do mercado de trigo, um movimento que, segundo a LCA, ainda deve continuar neste semestre.
Por outro lado, o fenômeno climático El Niño – que, tipicamente, provoca chuvas no Sul do Brasil e mais calor e umidade no centro e no Sudeste do país – é um dos motivos que impedem a LCA de ver uma inflação de cereais, leguminosas e oleaginosas (o tradicional “arroz com feijão”) abaixo de 6,5% neste ano.
“Se o passado for um bom guia, podemos ter pressão nos preços de arroz, feijão e trigo”, diz Romão, em referência também aos efeitos do fenômeno sobre a América do Sul em geral. Ainda assim, a LCA projeta alta de 6,6% para cereais, leguminosas e oleaginosas, uma desaceleração em relação aos 8,7% de 2022. “O El Niño pode começar a trazer impactos nos meses finais deste ano, mas, sobretudo, no ano que vem”, afirma Romão.
A Warren Rena projeta avanço de 1,1% para a alimentação no domicílio neste ano. Se esse crescimento, no entanto, ficar entre 0,5% a 0,9%, o que a economista Andrea Angelo classifica como “provável”, haveria um alívio adicional de 0,1 ponto percentual na sua projeção de IPCA de 2023, hoje em 4,8%. O índice passaria, portanto, a ficar dentro do limite da meta, de 4,75%.
O El Niño, por outro lado, é um evento para o qual Angelo ainda tem dificuldade de atribuir probabilidade. Ainda assim, se ele acontecer com forte intensidade, pode pressionar preços de hortaliças, por exemplo, no quarto trimestre de 2023, sem deixar tempo para “devolução” ainda neste ano e empurrando a previsão de IPCA para mais perto de 4,9%, explica Angelo.
“Até agora, o que já temos ‘contratado’ em relação ao El Niño diz respeito aos impactos sobre alimentos ‘in natura’. O problema é que eles têm uma recomposição de preços muito rápida, ou seja, pode ser que, mesmo antes de virar o ano, o nível de preços suba”, afirma Sanchez.
Se não houver a deflação esperada para o fim deste ano, porém, é possível que ela venha mais à frente em 2024, segundo Sanchez. “Quando a gente acumula isso em 12 meses, acaba ficando meio diluído. Por isso, não tenho tanto receio dos efeitos do El Niño neste biênico”, diz.
Por outro lado, para este ano, Sanchez menciona dúvidas em relação à desaceleração de preços de leite e derivados. “Nos últimos três anos o subitem cresceu, em média, 15%. Para 2023, projeto variação de 3%, mas ainda tenho receio em função de problemas ao longo da cadeia, no sentido de não haver a reversão desse processo. Ele ainda precisa se consolidar”, afirma.
Para Carlos Thadeu Freitas Gomes Filho, economista sênior da Asset 1, mesmo com o El Niño mexendo nos preços de alimentos “in natura” nos últimos meses de 2023, a dinâmica da inflação não deve mudar significativamente. Ele observa que, para o Sudeste, importante região produtora de alimentos frescos, por exemplo, o fenômeno climático não é sinônimo, necessariamente, de chuvas fortes.
“Pode alterar um pouco no calendário, depois devolve um pouco. Mas o cenário para ‘in natura’ é benigno no ano. Tem outros fatores atuando também”, afirma. Ele ressalta que os preços de fertilizantes, importante insumo para a produção, por exemplo, devem continuar em baixa.
Olhando mais à frente, mesmo se não houvesse a confirmação do El Niño, dificilmente não haveria aceleração da inflação de alimentos em 2024, segundo Romão, da LCA. “Olhando para o histórico, é difícil de imaginar que a alimentação mantenha um ritmo de deflação a cada ano”, afirma, projetando 5,1% de alta para o item no próximo ano.
Além disso, tem a questão da saída da Rússia do acordo que facilitava a exportação de grãos da Ucrânia, grande exportadora de trigo e milho, e os recentes bombardeios russos à região portuária de Odessa. “Sabemos que tem um mercado paralelo de trigo, mas isso pode acabar atrapalhando um pouco no preço”, diz Romão.
Segundo Gomes Filho, cerca de metade da produção ucraniana de grãos já tem sido escoada pela Romênia. “Tudo é risco, mas, até agora, não vemos como um problema. O custo é maior para usar esse porto, mas não teria uma escassez de grãos”, afirma.
Para 2024, a Asset 1 espera uma inflação de 2,5% na alimentação em casa. “Ainda é um excelente cenário. A média histórica entre 2000 e 2019, sem considerar os choques da pandemia, é de 7%”, afirma Gomes Filho.
Fonte: Valor Econômico


